Créditos da imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
“Não vai ter golpe!” – bradam os próceres do lulopetismo, em troca de suas mortadelas e verbas facilitadas. O processo constitucional do impeachment se converteu, em sua retórica desesperada, em um atentado à Constituição. A criatividade para sustentar essa tese natimorta é tão grande que o senador Humberto Costa nos impressionou com uma pitoresca nova expressão: “golpe constitucional”. Ficou estabelecido que, a partir de agora, é possível agredir a Constituição, ao mesmo tempo em que se obedece a ela!
A senadora Ana Amélia, do PP do Rio Grande do Sul, lembrou em Plenário na terça-feira (29/03) que, ao longo de sua existência, quando fez a oposição mais violenta e destrutiva possível entre 1980 e 2002 – em boa parcela merecida nos governos Sarney e Collor, em boa parcela fora dos propósitos nos governos Itamar e FHC -, o Partido dos Trabalhadores movimentou nada menos que 50 pedidos de impeachment. Em 1999, apresentaram uma petição pelo impeachment de FHC no início de seu segundo mandato – precisamente o absurdo que os choca hoje, quando logo ao começo de 2015 se falava em questionar o mandato (para lá de questionável mesmo) de Dilma Rousseff.
No seu próprio linguajar, os petistas foram, pelo menos, 50 vezes golpistas – ou, na interpretação de Humberto Costa, “golpistas constitucionais”. Sua indignação seletiva se volta com ferocidade contra toda e qualquer oposição, toda e qualquer divergência, mas despreza a lógica quando recebe sequer a terça ou quarta parte do que costuma endereçar aos outros. À revelia de sua hostilidade à conjugação coesa de ideias e a qualquer mínimo moral exigido pelo convívio em sociedade, os sequazes do PT precisam encarar os fatos: nesta segunda-feira, encerram-se as dez sessões de deliberação e oferta de espaço para defesa da presidente na Câmara. A Comissão do Impeachment já ouviu os juristas Janaina Paschoal e Miguel Reale Júnior, em eloquentes e valentes defesas da tese constante do pedido – além de uma dose admirável de paciência diante de deputados que se comportavam como animais selvagens ou crianças levadas do pré-escolar –, bem como o ministro da Fazenda Nelson Barbosa e o jurista Ricardo Lodi Ribeiro, na ginástica de sempre para sustentar a inocência do governo. O presidente da Comissão, Rogério Rosso (PSD), deseja elaborar o parecer mais rápido do que o previsto para adiantar a próxima etapa do rito, que é a sua apreciação.
Enquanto isso, o governo federal acabou de decretar sigilo quanto ao “tamanho exato da dívida e quem são os devedores de taxas destinadas à Caixa Econômica Federal por conta da administração de fundos e programas sociais”, segundo O Globo. Os pecados se repetem sem parar, leilões de cargos são feitos para os pequenos partidos da base aliada que restaram – sendo o maior deles o PP da própria Ana Amélia, infelizmente – e as desculpas, se aparecem, não vêm sem o enfeite de um ufanismo barato e um orgulho de “programas sociais” que representam muito pouco perto da falta de perspectiva, da recessão e do desemprego que se avolumam. Tudo isso ladeado de artistas e “movimentos sociais” que comparecem a eventos no próprio Palácio do Planalto para apoiar o regime lulopetista e demonizar o Ministério Público Federal e o juiz Sérgio Moro, fazendo pouco caso da miséria e da dor alheias.
Como cereja intragável do bolo, vazou um suposto posicionamento do ministro Marco Aurélio de Mello, que vem envergonhando o STF com contemporizações a favor do governo Dilma, em que ele daria parecer positivo à inclusão do vice-presidente Michel Temer no impeachment; o ministro negou que tenha tomado a decisão e o órgão retificou, informando que o documento não era uma determinação oficial e que Marco Aurélio não havia se manifestado ainda. Seja qual for a verdade, se Marco Aurélio e seus companheiros impuserem um constrangimento à Câmara com a nítida intenção de obstaculizar a obtenção dos votos peemedebistas ao processo de impeachment de Dilma, restará evidente a intromissão de um poder nas atribuições do outro, em lambança pior do que a de ter determinado, no rito do impeachment, que o Senado tem o poder de barrá-lo logo que o receba.
Nesta hora dramática em que, às vésperas de sediar a festa mundial dos Jogos Olímpicos, o Brasil é sacudido por desesperança e desânimo, e permanece em compasso de espera quanto a seu futuro, enquanto sangra no presente, um alerta precisa ser enviado aos nossos parlamentares, a deputados e senadores. Se a credibilidade do lulopetismo está se corroendo a olhos vistos, a do Congresso não é nem um pouco melhor. Todo o establishment da Nova República está enfrentando o desagrado popular. Ainda assim, se quisermos navegar com o mínimo de segurança por esses mares tempestuosos, precisamos que essa classe de homens públicos, a despeito de suas vergonhas e suas baixezas, compreenda, ao menos por instinto de sobrevivência, os imperativos da época.
Os senhores têm nas mãos a única chance de oferecer um alívio à população brasileira. Têm a única chance de começar – e apenas começar – o redesenho de um novo pacto entre a nação e suas instituições, entre as quais hoje apenas a Justiça Federal do Paraná e o Ministério Público gozam de algum respeito genuíno. Têm a única chance de evitar que um desastre social sem precedentes suceda o governo mais odioso e segregacionista da nossa história, e manche em ódio e violência a trajetória de nossa pátria. Atendam ao chamado da lei, cujos mínimos predicados foram afrontados pelo governo petista, e atendam aos reclames do povo, elementos fundamentais em um processo político-penal. Sabemos que estão muito abaixo da grandeza que se esperaria de lideranças dignas, mas não são tolos o bastante para desconhecer a densidade do momento histórico; tanto quanto puderem, assumam postura digna dele e APROVEM O IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF.
Preferimos não pensar nas terríveis consequências caso o bom senso e a constatação inequívoca do crime de responsabilidade sejam rasgados e o Congresso cuspa no povo, como o governo faz todos os dias. Acreditamos, ou queremos acreditar, que os senhores também prefiram não pensar nisso, e que farão o que precisa ser feito.

