ESTE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO PELO PORTAL ‘DEBATES CULTURAIS’.
Deflagrada nesta sexta (04/03/2016), a vigésima quarta fase da Operação Lava Jato, a gigantesca investigação que passa a limpo a imundície do Brasil, recebeu um nome bastante sugestivo, um dos mais inspirados da sequência, aliás, brilhante e criativa: Aletheia. Do grego: “busca pela verdade”. É disso que se trata o tempo todo, afinal: solapar os alicerces do esquema lulopetista e fazer refulgir o Real por trás da Mentira; libertar, enfim, os aprisionados na caverna mais trevosa, tal como na alegoria de Platão.
Concentrada na polêmica da compra e reforma do famigerado sítio em Atibaia – aquele mesmo que tem pedalinhos com os nomes dos netos de Lula, e de que, numa dissonância cognitiva, ora ele soube muito depois de tê-lo visitado, ora nunca ouviu falar, ora seja-lá-qual-for-a-desculpa-da-vez -, Aletheia tem por alvo o coração ideológico e pessoal do sistema, a saber, o ex-presidente e “pseudo-monarca” emérito Luiz Inácio Lula da Silva. Envolve mandados de busca e apreensão na casa do “intocável”, no Instituto Lula e na casa e escritório de seu filho Fábio. Por cereja do bolo, Aletheia deu um basta às ficções nacionais, disse chega aos falsos santos e ídolos imaculados. Não teve pudores pouco republicanos, não se comoveu pelos esperneios dos proto-tiranetes aduladores; assumiu por divisa a grande norma, muito pouco usual na prática cotidiana do país, de que ninguém está acima da lei: emitiu uma ordem de condução coercitiva contra o ex-presidente Brahma, levando-o para prestar depoimento. Naturalmente, tamanha coragem de fazer o que é certo em um berço de mendazes e senhores feudais de baixo nível idolatrados como salvadores da Pátria não passaria sem provocar a ira dos interesses contrariados.
O momento histórico em que a Lava Jato e o Brasil decente colocam as mãos na ferida lulista, sem o que a década manchada de vermelho não poderá tão cedo ser adequadamente página virada, expõe o racha entre dois Brasis: um Brasil que, aceitando o preço a ser pago para isso, se dobra ante a realidade, esposa a convicção em que a Verdade é o melhor caminho e merece ser buscada, está de um lado, pondo-se de pé, ansioso por prevalecer, depois de tantas oportunidades perdidas. De outro, estáo Brasil antiquado, o que cultua o engano, a narrativa de um futuro distante e utópico a ser conquistado pelos “heróis” que erguem os punhos para se orgulhar das trapaças e do desvio das instituições em prol da “causa nobre” e da “justiça social. O Brasil dos brutamontes que se dispõem a sair “no braço” para defender seus mitos da juventude. O Brasil dos tolos que persistem em buscar subterfúgios e alegações vazias para justificar os malfeitos mais explícitos. O Brasil dos idiotas que compõem, de bom grado, a claque dos meliantes que nos afundaram, levando o PIB ao maior desastre dos últimos 25 anos, protagonizaram o maior escândalo de malversação do bem público, enquanto só sabem grasnar “mas o FHC, mas o PSDB”… Mas o outro. Jamais eu mesmo. Jamais as minhas responsabilidades.
A transição é dolorosa. Este último Brasil velho, este Brasil primitivo, rocambolesco, pré-histórico, não entrega os pontos com facilidade. Eles não se dobram; enquanto alguns representantes dos movimentos de oposição – a oposição verdadeira, a que nasce no coração do povo aflito – celebravam a aplicação da justiça, em cujo nome o Ministério Público e a Polícia Federal tomaram uma atitude diante da fuga constante do mentiroso-mor do facho de luz da Verdade – que o incomoda como a um roedor acuado -, militantes do partido também fizeram seu protesto. Uma prévia, podemos antever, das “multidões” fracassadas que deverão levar às ruas ainda, oferecendo “deliciosas” mortadelas em troca de suas almas esfarrapadas, para lutar pela “democracia” e pelo “Estado de Direito” – o Direito dos “símbolos nacionais” como Lula de não serem questionados e obrigados a responder pelos seus atos, isto sim. O protesto dos petistas, ao contrário das multidões honradas e preocupadas que marcharam já por quatro vezes em nome do Brasil “de verdade”, foi troglodita, com um espetáculo vexatório de socos e violência em confronto com a polícia. Não foi possível às emissoras de televisão ignorar esse espetáculo, não é possível ao espectador consciente ignorar o contraste entre os dois tipos de aglomeração: a dos que vão à luta pelo Brasil que tenta nascer, e a dos que vão à luta contra a lei para salvar das ruínas o infame Brasil decadente.
Das hostes do PCdoB, a deputada Jandira Feghali dá início aos queixumes dos que não se conformam em ver a lei ser aplicada a todos. Dos recônditos nebulosos da “oposição à esquerda”, dos extremistas do PSOL e quejandos, desde a delação tormentosa do senador Delcídio do Amaral – que acusa a presidente Dilma de interferir no andamento das perquirições e o presidente Lula de ser o mandante da fuga de Cerveró e comprador do silêncio de Marcos Valério -, só nos chega um sepulcral e revelador silêncio. Ocupados celebrando a conversão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em réu pelo STF – e, sendo culpado, que aí também a Justiça seja feita! -, ignoram as robustas evidências contra o coração do esquema de poder de que o odiado peemedebista era tão-somente uma célula minúscula que se insurgiu contra o tecido putrefato. Na Globo News, Cristiana Lôbo mal contém as lágrimas e repercute em tom de normalidade a ameaça criminosa dos petistas de que darão uma resposta duríssima aos que ousaram manchar o seu deus decaído. Ameaça, aliás, que já havia feito o “intelectual” Emir Sader, uma aberração que habita as universidades brasileiras, ao “juizinho fascista” que teve o atrevimento de fazer seu trabalho.
Tudo normal e inevitável; são os estertores do Brasil velho que devem ainda ser sepultados para que o Brasil novo supere as dores do parto e possa nascer. Ele só nascerá se assumirmos nossa função de parteiros. É apenas o começo de uma longa batalha que levará ainda gerações; mas é também o fim de um período de trevas onde a derrota e a vergonha se exibiram triunfantes e, agora, ao menos, seus causadores não permanecerão circulando por aí, com as cabeças erguidas, pairando superiores ao “vulgo” dos descontentes “coxinhas” que ganham a vida com o próprio suor. Nós precisamos ir às ruas dia 13 de março. Precisamos ir para mostrar que apoiamos a Lava Jato. Precisamos ir para mostrar que defendemos a mudança imperiosa. Precisamos ir para mostrar que assumiremos as rédeas da nossa própria destinação histórica, retirando-as das mãos daqueles que as sequestraram de nós. Precisamos ir para sepultar o Brasil velho, e dar as mãos ao novo, para que enfim ele se liberte da caverna de onde, maltratado, espezinhado, desprezado em nome de devaneios oníricos que se sobrepuseram aos valores do caráter e da honra, já grita de entusiasmo. Brasileiros, em nome do império da lei, cumpramos nosso dever. Sérgio Moro e sua turma estão cumprindo os deles. Pela quinta vez, vamos colorir os parques e praias de todo o país de verde e amarelo para exigir que os helmintos encastelados no poder se curvem ao império da lei.

