Manifestações de rua: menos 2013, mais 2015
Parece desnecessário lembrar que 2015 foi um ano de muitas dificuldades, em que toda sorte de doenças culturais e políticas que empesteiam o Brasil manifestou sua face mais cruenta. Foi assim até os seus minutos finais. No último dia do ano, às vésperas do êxtase coletivo com os espetáculos pirotécnicos que preenchem os céus acompanhados de apresentações festivas por todo o país, as televisões exibiram uma propaganda política. Sim, um ano tão “politizado” que até a sua despedida teve de ser assim… Ocorre que a propaganda foi dos “psicopatas” do Partido da Causa Operária, defensor da “revolução socialista”, combatendo o “golpe” do impeachment da Dilma. Por mais tedioso que seja repetir expressões de surpresa: sim, é isso mesmo! O defensor declarado da derrubada da “democracia burguesa” acusando uma iniciativa constitucional de “golpismo”.
Já enfatizamos a urgência do impeachment. Enquanto o governo e essa pseudo-oposição – essas legendas nanicas, como o PCO, que desejam um mergulho de cabeça na União Soviética – insistem em combater a medida, a oposição, com notórias exceções, segue colaborando com eles. Refiro-me particularmente à oposição partidária. Ao contrário do deputado Carlos Sampaio, do PSDB, que faz um esforço para fugir da tônica de seu partido e, baseado em delações de Nestor Cerveró sobre dinheiro ilegal na eleição de Lula, lança uma solicitação pelo fim do registro do PT – o que, viável de imediato ou não, introduz a questão no debate público -, os caciques de sua legenda insossa permanecem envergonhando os milhões que depositaram nela suas únicas esperanças na votação presidencial de 2014 e em todos os últimos ciclos eleitorais.

Créditos: Notícias Botucatu
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se aproxima do Partido Socialista Brasileiro e do Movimento dos Sem-Terra, acenando à esquerda com toda a sua falta de virilidade política. Alckmin, que já não vinha se envolvendo com o entusiasmo esperado com a mobilização pelo impedimento presidencial, agora quer estragar qualquer expectativa que o eleitorado sensato poderia ter de ver nele uma opção razoável. Já o grande líder oposicionista Aécio Neves, não querendo ficar para trás, para fazer jus às acusações de ser “articulador do maligno golpe da CIA contra o governo Dilma”, embora não seja visto há séculos, resolveu começar 2016 dando uma entrevista apagada a uma revista americana – A UMA REVISTA AMERICANA! – alegando que a crise atual PODE SER “a pior desde a época da ditadura”. PODE SER. As coisas para Aécio ainda estão no plano das condicionais. Os números e as queixas populares são eventualidades que ainda precisam ser verificadas com muitíssima cautela e parcimônia. Imaginamos o que diriam as oposições brasileiras do passado diante de tamanha cegueira e falta de combatividade!
Se esses absurdos pouco impacto prático provocam, o aumento do preço de tarifas de transporte motivou, neste começo de ano, um revival das turbulentas manifestações de 2013. As diferenças entre as manifestações de 2015, organizadas por movimentos civis e populares como o MBL e o Vem Pra Rua – bem como a manifestação do próximo dia 13 -, e aquelas eclosões desordenadas de 2013 já foram suficientemente expostas por um sem-número de articulistas e analistas confiáveis. Se aquelas são ordenadas, tranquilas e pautadas por uma reivindicação coesa – a queda do governo federal e o sucesso da Operação Lava Jato -, estas últimas principiam sob a batuta do Movimento Passe Livre, uma trupe de lunáticos que, como todo socialista, acreditam que dinheiro dá em capim. Eles começam defendendo a estatização de todos os transportes, mas nada gritam contra as manobras fiscais irresponsáveis de Dilma, as suas incoerências e seu estelionato eleitoral, sua sugestão maravilhosa de fazer desaparecerem os seus malfeitos com mais uma manobra duvidosa no apagar das luzes do ano… Nada alegam contra a política econômica irresponsável, o modelo estatista e intervencionista defendido pelo partido no poder e pelos extremistas que insuflam, reconheça-se a verdade, o próprio movimento de que fazem parte.
Seu interesse nítido, já em 2013, era alvejar os governos estaduais que, independente de seus méritos ou deméritos, faziam oposição ao esquerdismo doentio do PT, ou representavam alianças fisiológicas incômodas (vulgo PMDB). Depois, naquela oportunidade, as manifestações saíram do controle e atraíram multidões de indignados que muitas vezes sequer sabiam bem contra o que protestavam, e com isso as esquerdas radicais optaram por um recuo. Hoje, em que as ruas são tomadas por indignados que sabem muito bem qual é o seu alvo e uma nova manifestação nacional pelo impeachment está marcada para domingo, qualquer um que entenda alguma coisa de estratégia política sabe que o que eles queriam era demarcar território, voltar a ter o domínio do debate público nas ruas, quando seu projeto de país se encontra ameaçado. Querem desestimular as demonstrações contrárias ao governo federal e que torcem o debate, ainda que não inteiramente para a “direita” – isto é, para o liberalismo e o conservadorismo -, ao menos na direção dela, na direção da razoabilidade.
Não obstante, mesmo diante de figuras repulsivas como Sininho e cia., diante da morte do cinegrafista Santiago Andrade, e diante de novas confusões que, inevitavelmente, voltaram a acompanhar os movimentos do MPL, envolvendo mascarados e confrontos com a polícia, ainda há quem acredite que os black blocks são apenas uma ilusão de ótica e, postos de lado todos os problemas que possa ter, a Polícia Militar é a grande vilã do país. Encaremos os fatos: protestos contra aumento de tarifas, bandeiras esclerosadas de estatização, mosaico de vestes e pavilhões pretos e vermelhos, pessoas mascaradas… Todos nós já vimos esse filme. O final não é diferente. Termina em beligerância, violência e, quem sabe, morte. É inegável que os black blocks e suas bombinhas só encontraram vez, até hoje, nas manifestações desse teor, em que não há qualquer movimento deliberado no sentido de constrangê-los e isolá-los.

Créditos: Agência Brasil
A verdade que fica é esta: precisamos de menos manifestações ao estilo de 2013 e mais ao estilo de 2015. Os organizadores e convocadores dos protestos do ano passado precisam se apressar e se focar com seriedade em fazer da demonstração de 13 de março, seja ela a primeira de uma nova sequência, seja ela o golpe fatal, um retumbante sucesso. Por isso, faço um apelo; todos os que acompanham as principais personalidades envolvidas nesses movimentos e que fazem circular conteúdo liberal, libertário ou conservador pelas redes sociais, devem saber da conflagração cibernética de proporções épicas que preencheu as telas de nossos computadores no começo deste ano entre importantes figuras que vem divulgando o pensamento político alternativo.
Não entrarei no mérito da confusão. Todos são adultos e sabem o que fazem de suas vidas, devem estar conscientes das decisões que tomam. Do alto da minha pequenez, conclamo apenas: que essas divergências, por mais sérias que sejam, não prejudiquem a organização das manifestações. Não deixemos – e aqui me incluo – de dirigir nossos esforços para o propósito maior, aquele que contemplará, com a urgência devida, os anseios dos brasileiros. Assumamos a responsabilidade que já temos, pelas posições de que nos investimos, cada um de nós. Que nossas ideias circulem e se materializem nas avenidas e ruas de todo o Brasil mais uma vez!
Mais uma dose de más notícias, com um bocadinho de otimismo ao final
Lucas Berlanza Corrêa
O que reservamos para o final desta coletânea de comentários sobre as últimas semanas de 2015 e as primeiras de 2016? Em geral, más notícias. Sem mais delongas, vamos a elas:

Créditos: Veja
. De acordo com reportagem da revista Exame, datada de 6 de janeiro no portal da publicação, o governo estuda aquecer a economia com emissão de crédito. Com a posse de Nelson Barbosa, que fora integrante da equipe de Guido Mantega, como novo ministro da Fazenda, o recado já não era muito positivo. Essa mesma receita, que tem por consequência imediata o endividamento das famílias e o manuseio de recursos imaginários, foi propulsor fundamental da crise em que mergulhamos. Se a política a ser adotada para resolver o problema for incrementar o problema – um hábito infeliz da esquerda e das políticas econômicas de inspiração intervencionista e keynesiana -, então que nos preparemos para muito mais lamentações. Diz a matéria que o governo “pode pressionar os bancos públicos a usar bilhões de reais recentemente obtidos (…) para aumentar o crédito aos consumidores e empresas”, já que a presidente “está analisando novas medidas de estímulos para retomar a economia que caminha para a pior recessão da história recente”. Infelizmente, o Estado, sobretudo aquele desfigurado pelo lulopetismo, não é um bom médico para tratar um país de finanças doentes. Está mais para agente patógeno…

Créditos: Paraná Portal
. Antes de a presidente Dilma alegar que os brasileiros não gostam de seu desastroso governo e querem o seu impeachment apenas porque não “simpatizam” com sua distinta figura, foi a vez de um de seus ministros soltar uma pérola dantesca. Um dos assuntos que têm dominado os noticiários brasileiros é a disseminação dos casos de Zika vírus, uma doença provocada pela picada do Aedes Aegypti, o mesmo mosquito causador da dengue. O grande dilema é que se acredita que a doença provoca microcefalia nos nascituros de gestantes picadas. Esse preocupante desafio – questionado por alguns – motivou uma gafe única do ministro da Saúde, Marcelo Castro, que anunciou o desenvolvimento de uma vacina, mas alegou que não há como distribuí-la a todos os brasileiros. Disse que ela será aplicada em mulheres em período fértil e que vai “torcer para que as pessoas antes de entrar no período fértil peguem a zika, para elas ficarem imunizadas pelo próprio mosquito. Aí não precisa de vacina”. Quanta sabedoria! Façamos figa para que as pessoas fiquem doentes de uma forma que não nos dê tanto trabalho e tantas manchetes ruins; assim não precisamos exercitar as pestanas. Nós merecemos os governantes que temos!

Créditos: Folha da Paraíba
. Já foi dose suficiente de agonia? Tem mais. Na previsão do orçamento do ano, teremos quase um bilhão de reais destinados ao fundo partidário. A justificativa dos partidos é a mudança no financiamento empresarial de campanhas, a respeito da qual já nos manifestamos contra. Em um cenário de crise, a diminuição dos recursos privados vai justificar a sanha dos políticos em aumentar o fluxo de dinheiro público para os cofres de suas siglas. Isso é escandaloso! Sofrendo com o bolso que pesa, a população ainda terá de sustentar esse incremento volumoso nos cofres dessas quadrilhas em forma de legenda! Navegamos no rumo da insolvência e o governo federal segue gastando onde não deve para ganhar o leilão pelos parlamentares que podem definir sua permanência no poder, prontos a se venderem como mercadorias ao lado que melhor contemplar suas exigências descabidas.

Créditos: Veja
. Complementando as nossas tristezas, a Lava Jato, nossa grande porta de esperança, a melhor notícia para o Brasil em anos, revolvendo nossa classe política, tem sido alvo de manifestos abjetos de insatisfação por parte dos interesses que contraria. O PT, Lula, as empreiteiras e, infelizmente, elementos da advocacia criminalista – interessados nos seus salários, ainda que às custas da distorção imoral dos fatos que periga comprometer os anseios nacionais -, lançaram manifestos contestando as ações do juiz Sérgio Moro e o encaminhamento da Operação. Um em especial, o advogado Técio Lins e Silva, que conta em seu currículo com uma atuação reconhecida em defesa de presos do regime militar, foi destaque na Folha de São Paulo, argumentando que a “Operação Lava Jato é pior que a ditadura”. Uma investigação judicial e policial, varrendo um gigantesco esquema de corrupção, é pior do que um regime de exceção; nossos homens “ilibados” estão descendo a esse ponto! De que valem hoje as reputações, se o sujeito pode ser motivo de uma manchete vexatória em um grande jornal, não é mesmo? Ó 1964, que seria desse exército de chorões deslocados no tempo se não pudessem evocá-lo nas ocasiões mais impróprias?

Créditos: Agências
. Daremos agora alguma atenção à nossa vizinha Venezuela. Celebramos ao fim do ano vitórias da oposição na ocupação de cargos no Parlamento. Com razão. No entanto, já nos precavíamos, considerando que a tirania bolivariana não daria descanso à população submetida. Nos estertores de 2015, Maduro já começou a armar uma tentativa de impedir a posse dos opositores e de fortalecer os “Parlamentos comunais” – algo semelhante à estratégia das esquerdas brasileiras de estabelecer os “conselhos populares”, felizmente abortada. Já em 2016, Maduro – que, por mais destrambelhado que seja, não costuma entregar os pontos – reconheceu a calamidade econômica de seu país, mas sem o mea culpa necessário por anos de irresponsabilidade e avanço sobre o sistema “liberal-democrático”, nada mais que uma ficção para o chavismo. Fez isso apenas para tentar fazer aprovado um decreto que daria ao seu governo um poder “temporário” sobre a produção das indústrias e as propriedades de empresas privadas. E há os que dizem de nós: “Essa direita vive no passado… Socialismo, comunismo, perigo para a propriedade privada? Essas coisas são do século passado…”. Pois sim. Sei que esses fatos não servem de lição a quem não quer aprender, mas eis a verdade óbvia: loucuras não morrem enquanto há loucos que as alimentem. O que será da Venezuela? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. A oposição agora tenta mover um processo legal para depô-lo. Veremos.

Créditos: Taringa
. Um país desesperado por um impeachment, mas anestesiado pela época de festas; manifestações violentas de rua; crise brutal; insolvência de estados e calamidade pública; tirania na Venezuela; hipocrisia, falta de pudor, brigas internas… Será que não temos coisa boa para recordar? Façamos uma concessão. Os melhores informes, como já antecipamos, vieram, no começo do ano, da Argentina. Por enquanto, as celebrações precoces pela vitória eleitoral de Maurício Macri sobre o kirchnerismo não vêm se mostrando infundadas. Em pouquíssimo tempo de governo, o presidente anulou impostos no setor agrícola, vendeu aviões presidenciais, doou salário para comunidades carentes, desfez a legislação restritiva à imprensa da era Kirchner, ordenou a liberação de documentos sobre a suspeitíssima morte do promotor Alberto Nisman – que havia denunciado a ex-presidente Cristina em um acordo secreto com o Irã, em que ela se teria comprometido a acobertar funcionários iranianos acusados de participar de um atentado à Associação Mutual Israelita Argentina – e começou a construir um diálogo promissor com as grandes potências e o mercado estrangeiro em Davos. Uma guinada liberal pode fortalecer a Argentina e colocá-la na dianteira institucional, econômica e, sobretudo, MORAL, no subcontinente sul-americano.
. Na Bolívia, outra vizinha combalida, o presidente Evo Moralez realizou um plebiscito para decidir se poderia continuar a governar até 2025 – ele que já alterou a Constituição para governar até 2020. Para nosso deleite, ele perdeu. Isso não quer dizer que ele e seus sequazes perderão o controle dos rumos do país, mas é uma excelente novidade.
. Por estas bandas, as boas novas ficam por conta da Lava Jato e das investigações judiciais contra lideranças no poder. Ninguém menos que o marqueteiro João Santana, “cabeça” por trás das campanhas petistas, foi preso. Diversas frentes de investigação se aproximaram da figura do ex-presidente Lula – o sítio em Atibaia, o tráfico de influências a favor de empreiteiras, o tríplex no Guarujá, as “medidas provisórias” – e tentativas foram e estão sendo feitas para protegê-lo da lei. O Ministério Público de São Paulo já pediu a sua prisão e ele já sofreu uma condução coercitiva para depoir na Aletheia, uma fase da Operação Lava Jato. Sérgio Moro também compartilha com o Tribunal Superior Eleitoral informações que podem culminar na cassação de mandato presidencial de Dilma; as delações das empreiteiras e de Delcídio do Amaral prometem engrossar o caldo ainda mais. O relator do processo contra este último no Senado recomendou sua cassação, e foi autorizado o indiciamento do governador petista mineiro Fernando Pimentel em processo de investigação chamado Operação Acrônimo. Só não podemos dormir no ponto e permitir que as altas castas petistas perturbem o andamento das instituições e se sobreponham ao peso da Justiça! Por isso a manifestação de domingo é tão importante!
. Podemos comemorar, finalmente, o que em 2015 já acontecia: um crescimento do discurso liberal. O próprio ex-presidente Lula, do alto de seu cinismo, disse em entrevista recente que era “menos esquerdista” do que Dilma, e que era um “liberal”. Patético, mas ao mesmo tempo, um sinal, assim como o plano de medidas econômicas mais liberais que o PMDB veiculou no ano passado, de que nós estamos ganhando terreno, ao menos nas ideias. O surgimento do Partido Novo e uma recente revitalização do PSL (Partido Social Liberal), no campo partidário, parecem também evidências alvissareiras.
Poderíamos falar de muito mais coisas: eleições americanas, Papa Francisco… Mas ficamos por aqui. Continuemos a batalhar em 2016 para que nossas manchetes sejam mais felizes, e nossas ideias, mais do que meramente circularem, atinjam o poder. Além de lutar pelo impeachment, é preciso ganhar terreno sobre a esquerda nas eleições municipais que terão lugar este ano. Toda a atenção será pouca, e nós estaremos de olho!

