Existe uma tendência, reforçada em quem tem interesses na narrativa, de “desconhecer”, voluntariamente ou não, a grandeza de um momento histórico que está sendo vivido, diminuindo sua dimensão relativamente a outros que já ficaram no passado. Felizmente, diante do resultado das manifestações convocadas para este dia 13 de março em todo o país exigindo a deposição do governo Dilma Rousseff e apoiando o avanço da Operação Lava Jato – mesmo que, e sobretudo porque, Lula se tenha tornado alvo central -, até o desavergonhadamente governista Datafolha teve que se curvar e admitir que as multidões em São Paulo superaram as Diretas Já. A desgraça perpetrada pelo lulopetismo já é mais repudiada do que as eleições indiretas do regime militar o foram nas célebres demonstrações públicas dos anos 80.
O Datafolha se render, porém, não foi suficiente para que deixasse de ser o… Datafolha. Seus “critérios técnicos” e “especialistas” enxergaram na Avenida Paulista cerca de 500 mil pessoas, onde, tranquilamente, se chegava próximo à casa dos 2 milhões. Somados aos aproximadamente 1 milhão do Rio de Janeiro – onde eu estava, em evento épico que jamais esquecerei -, aos 100 mil em Brasília, e aos milhares distribuídos por quase 500 cidades, os patriotas não puderam ser ignorados pela grande imprensa e o silêncio cúmplice foi rompido. O 13 de março de 2016 é uma realidade histórica que se impõe sobre as vãs certezas dogmáticas dos ideólogos partidários de ocasião e às artificiais relativizações dos autoproclamados “paladinos da isenção”. Diante de um evento tão único e a que fatalmente se fará plena justiça, senão hoje, no futuro, a única reação dos inconformados só poderia ser a inevitável “choradeira desesperada”.
Foi o que fizeram, para nossa nenhuma surpresa. Nem o “mar de coxinhas” que encobriu o território brasileiro hoje como nunca antes, mostrando que não existe “elite golpista” maior do que a brasileira, seria suficiente para impedi-los. Logo que retornamos das ruas, encontramos nas redes sociais os frustrados de sempre a vomitar besteiras – quer os petistas assumidos que, seja por que razão adotem ainda esse posicionamento político mais semelhante a cumplicidade com o crime que a uma mera opinião, fazem de tudo para defender seus ídolos do passado distante, quer os que são incapazes de enxergar a excepcionalidade do estrago lulopetista e consideram as manifestações inúteis se elas não tiverem como pauta principal o combate genérico à corrupção e a todos os partidos.
Chamou-nos a atenção, por exemplo, uma imagem de uma família saindo às ruas com sua babá conduzindo uma criança, que não sabemos sequer se é um retrato da manifestação. Usaram a imagem como uma prova da “exploração” a que a babá é submetida, e de que os manifestantes são “coxinhas” que “oprimem” sua empregada por fazê-la exercer um ofício pelo qual, espera-se, ela recebe um salário. A peste ideológica está tão presente nesse tipo de “raciocínio” preconceituoso, no pior sentido da palavra, que é desnecessário dizer muito mais. Da mesma forma quanto a uma “matéria” que está circulando, publicada por um blog petista, em que se mostra uma imagem capturada de manifestantes fazendo um gesto com as mãos que qualquer torcedor de futebol usa para apoiar seu time ou xingar o juiz e apresentando como uma “saudação nazista”. Esperam os petistas que se acredite que São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e todas as outras cidades estavam ocupadas hoje por pessoas que queriam apenas saudar Adolf Hitler?
Também são sugestivos da demência dos críticos os comentários que apontavam a presença de políticos de oposição, especialmente tucanos, como um fator que desabonasse o propósito das milhões de pessoas que estiveram nas ruas, demonstrando mais uma vez publicamente o que todas as pesquisas de opinião já provam. As próprias ruas trataram de desmentir essa apreciação enviesada, com parte dos manifestantes hostilizando caciques do PSDB como Aécio e Alckmin na Avenida Paulista e chamando-os de “bundões” e “oportunistas” – o que não poderia ser mais justo, na verdade. Outra parte os aplaudiu, inclusive em Minas para o ex-presidenciável. O que isso prova? Que as manifestações não são nem tucanas, nem anti-PSDB. Elas são contra o governo federal incompetente, obtuso, que envergonha e degrada a economia e faz pouco caso das instituições; são contra um sistema de poder que está em vigência há 13 anos.
Protestar contra o PSDB teria o mesmo sentido que protestar contra o governo Collor ou contra Juscelino Kubitschek; o PSDB não está no poder. Não poderia ser o alvo, e não é o culpado DIRETO – indiretamente, pela sua pusilanimidade e covardia, por ter preparado o terreno para que os lunáticos petistas assumissem o poder, eles têm responsabilidade e muita – pelo desastre econômico do governo Dilma. Isso é uma verdade que qualquer um com um pingo de boa vontade e com mais de dois neurônios na cachola é capaz de compreender, mas também não significa que as manifestações são tucanas ou comandadas pelo partido, da mesma forma que os votos do PSDB não significaram até agora uma adesão entusiástica à legenda e sim uma reprovação ao PT. Os tucanos não começaram as manifestações, não as organizam, e não têm qualquer mérito pela sua realização. É, de fato, inadequado permitir que passem por heróis e mentores da revolta, que é de diferentes setores da sociedade, com as mais diversas opiniões, e até hoje não reverberou em sua plenitude através de nenhum partido, e nem poderia, já que nem toda essa massa tem as mesmas visões de mundo. Todos concordam em algumas coisas: apoiam a Lava Jato, apoiam a investigação de todos os casos de corrupção – o que não quer dizer acreditar que a Lava Jato tem a missão de investigar a história do Brasil e desvendar os roubos dos tempos de Getúlio Vargas, e sim de apurar o que pode ser apurado no âmbito do escândalo da Petrobrás -, apoiam a prisão de todo e qualquer político que seja descoberto infringindo a lei, e querem o FIM DO GOVERNO DILMA. É esse o acordo comum que fez com que hoje senhores, senhoras, crianças, jovens, homens, mulheres, eleitores de Bolsonaro, eleitores de Ronaldo Caiado, tucanos, eleitores do PPS, sociais democratas, libertários, conservadores, monarquistas, republicanos, enfim, gente cheia de peculiaridades e diferenças internas, caminhasse junta: todos entendem que o governo se esgotou e que cometeu crimes passíveis de punição pelo processo constitucionalmente previsto, e estão exercendo seu direito de democraticamente reivindicar que essa punição seja aplicada.
Sabem qual é o problema? Vocês, da esquerda radical, acostumados ao monopólio do espaço e do debate público, não conseguem aceitar o fato de que uma das maiores manifestações da história MUNDIAL – sem qualquer exagero -, em sequência a outras quatro de igualmente consideráveis proporções, foi feita neste dia histórico CONTRA UM GOVERNO DE ESQUERDA e não a favor das suas pautas. É isso que une em choradeiras vexatórias essa horda de recalcados. Lamento por eles; o bonde da história passará e ficarão para trás.
A semana que principia terá ainda, na sexta-feira, as manifestações dos pelegos a favor de Dilma e Lula e, no meio de semana, o posicionamento do STF quanto aos questionamentos da Câmara acerca do rito do impeachment – além da expectativa por uma possível inclusão de Lula no quadro de ministros do governo. Sexta-feira fatalmente só aumentará o escárnio que cerca o mandato de Dilma; a esfera política, por muito tempo alienada e surda, como que a viver em outro mundo com outro ritmo, simplesmente não terá condições de ignorar o 13 de março. Ela está condenada a reagir. Veremos como.


1 comentário
Se a manifestação e para limpar a sujeira que esta o nosso País, não deve haver políticos se manifestando, são todos farinha do mesmo saco.