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Tornou-se um lamentável procedimento padrão: quando os criminosos e suspeitos ligados ao governo são acuados pelos investigadores da Lava Jato, os militantes cegos se põem a gritar contra a “hipocrisia” dos “tucanos”, que nada dizem sobre a corrupção em “seu partido” e os acusados de sua legenda. Pior: começa a se disseminar, quer por parte dos petistas, quer por parte da famosa turma dos “não sou petista, mas” – aquela gente inocente que não está comprometida com lado algum, mas sempre afaga a esquerda quando convém -, a teoria paranoica da conspiração de que Sérgio Moro, o Ministério Público Federal, a imprensa e todas as instituições nacionais são marionetes do PSDB para destruir o “projeto popular” iniciado por Lula.
Apontam o dedo, assim que surge alguma notícia sobre suspeitas recaindo sobre um figurão do PSDB, para nós, a “direita”, como se o partido do pássaro bicudo fosse nosso bichinho de estimação. A esta altura do campeonato, ainda não entenderam que o Brasil não está dividido entre petistas e tucanos. De fato, hoje, diríamos que a adesão efetiva a qualquer uma das duas legendas, por sincera paixão partidária, é minoria no seio do povo brasileiro. No caso do PT, porque o partido já produziu tamanho desgaste que revoltou até mesmo antigos eleitores, e hoje só se agarram a ele os amantes da “seita” fanática e os que se sustentam nas “mortadelas” e “pixulecos” da vida e não desejam largar o osso. No caso do PSDB, porque o partido sempre foi apenas a opção de voto restante aos antipetistas, mas, em sua ânsia por concorrer com o PT pelo título de mais esquerdistas e ao mesmo tempo “pagar de bons moços”, os tucanos jamais tiveram uma militância com densidade e jamais mobilizaram grandes paixões ideológicas neste período de mais de uma década em que seus “rivais” estão no poder.
Aprendam de uma vez por todas: não nos interessa se algum tucano for considerado culpado e parar na cadeia. Não nos interessa se Aécio Neves ou o próprio Fernando Henrique Cardoso forem descobertos em algum malfeito. Que se dane! Se forem responsáveis, se houver indícios, que sejam PUNIDOS! Em primeiro lugar, não temos identificações ideológicas; o PSDB é apenas a esquerda menos destrutiva. Deixou um legado ambíguo, em parte negativo, em parte positivo – consolidou o Plano Real, e isso é o suficiente para que mereça mais respeito do que o PT, não há negar. Mesmo, porém, que o PSDB fosse um partido liberal clássico ou conservador, isso não daria a seus integrantes salvo conduto para praticar crimes e contar com nossa defesa cega. Uma coisa são os princípios, outra coisa são as pessoas. Quem subverte a lei, deve ser responsabilizado, não importa a cor partidária ou a sigla sob a qual se oculte.
Alguns pequenos e importantes detalhes, porém, precisam ser lembrados aos conspiracionistas enlouquecidos que grasnam bobagens por aí. A primeira delas é que a Procuradoria Geral, a justiça de Curitiba, o STF, todos esses órgãos têm atribuições diferentes e poderes diferentes. Seria de bom tom que cessassem de culpar o juiz Sérgio Moro por decisões que cabem à Procuradoria e ao STF – o arquivamento de uma investigação contra o ex-candidato presidencial tucano Aécio Neves, por exemplo, que coube ao ministro Teori Zavascki (o mesmo que já proferiu diversas decisões favoráveis aos interesses do petismo). A segunda é que as investigações da Lava Jato, como qualquer operação judicial, envolvem os direitos individuais à defesa e à imputação de culpa apenas embasada em informações sólidas e de substância material. As denúncias feitas por alguns delatores sobre corrupção ocorrida nos governos de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo – ao menos as que foram divulgadas ATÉ AGORA, afinal estamos longe de ter acesso a tudo que os investigadores têm em mãos – ainda não trouxeram resultados óbvios, muito provavelmente, porque se trata de práticas ANTIGAS, algumas delas até sob risco de prescrição.
Não que isso seja maravilhoso; gostaríamos que todo possível crime fosse punido. Mas é preciso chegar até as fontes, chegar até os dados, e não podemos esperar que os investigadores enxerguem com o mesmo senso de prioridade as investigações sobre algo que tem mais de 13 anos e menos chances de identificação e algo que tem estado em plena atividade e destroça economicamente e politicamente o país até o presente momento. Não existe a aventada superproteção aos tucanos pela Justiça brasileira; nossa Justiça, em geral, tem um histórico de ser lenta, mas não há nada que permita deduzir superproteção a um partido DE OPOSIÇÃO sob o governo de outro partido que detém a hegemonia política há três mandatos presidenciais. O STF, diga-se de passagem, está repleto de indicações petistas, que poderiam perfeitamente promover uma “perseguição aos tucanos”, se tal coisa existisse. Saindo do âmbito da Lava Jato, o ex-governador tucano de Minas Gerais, Azeredo, foi condenado a 20 anos em primeira instância por aquilo que, inapropriadamente e fora de qualquer proporção, foi chamado de “mensalão tucano” – como se o esquema de desvio de verba do governo estadual para uso em campanha política fosse equivalente ao atentado à democracia praticado pelo governo petista na “compra” de parlamentares do mensalão, e como se, guardadas as devidas críticas ao PSDB, o tratamento dispensado aos seus “bandidos apanhados” não tivesse sido bem diferente. As denúncias da jornalista Miriam Dutra, que acusou FHC de lhe enviar recursos ilegalmente e que se tornou “sensação” nos dias que correm por falar de um alegado “caso” extraconjugal com o ex-presidente que já era assunto naquela época, também tiveram investigação autorizada, por uma área técnica da Polícia Federal, pelo próprio ex-ministro da Justiça do governo Dilma, José Eduardo Cardozo (hoje soltando seu lero-lero na AGU).
A verdade é que todos têm limites e a Operação Lava Jato não está investigando todos os casos de corrupção ocorridos em estados e municípios brasileiros, nem tampouco está investigando a história do Brasil. Ela está investigando o que é capaz de investigar: a presença de um gigantesco esquema criminoso de manipulação das estatais para sustentar um projeto de poder. Esse projeto de poder, até agora bem-sucedido, foi mantido pelos partidos da base aliada – o PT, o PMDB e o PP, basicamente -, e seria difícil esperar que os partidos de oposição tivessem exatamente o mesmo nível de participação quando não as têm sob controle e não tomam a mesma parte na ocupação da máquina do Estado. Isso não quer dizer que todos os tucanos sejam inocentes e que todas as citações contra eles não tenham fundamento; o popular “rabo preso”, isto é, a existência de alguma participação de seus figurões em atividades ilícitas no trato com recursos das empreiteiras e das estatais, faria até bastante sentido, porque poderia ajudar a explicar a pusilanimidade estúpida e a covardia com que pretendem estar fazendo oposição ao governo.
Entretanto, a culpa de tucanos não tornaria, por milagre, abolida a responsabilidade, por exemplo, do acusado Eduardo Cunha – um peemedebista que, como presidente da Câmara, voltou-se contra o PT, aprovou a abertura do pedido de impeachment contra Dilma Rousseff, criou enormes problemas para os antigos aliados, chegou a soar mais oposicionista que a própria “oposição”, e, não obstante isso, é hoje réu da Lava Jato, e provavelmente o mais atacado pela imprensa. A possível culpa dos tucanos não faz desaparecerem o sítio em Atibaia com pedalinhos exibindo os nomes dos netos de Lula, o tríplex do Guarujá reformado por empreiteira ligada à Lava Jato, as “palestras” suspeitas que vinham “acontecendo” até pouco tempo, a compra das medidas provisórias e o tráfico de influências. A possível culpa dos tucanos não faz sumir do mapa a delação de Delcídio do Amaral; a possível culpa dos tucanos não faz sumirem as irregularidades descobertas na conta de João Santana, o marqueteiro que ajudou a fabricar a hegemonia petista.
Parem com essa verborragia que se destina a justificar a cultura do “todos roubam, também posso” e procura minimizar os próprios feitos com os malfeitos alheios. Se os tucanos cometem crimes, devem ser punidos e, se os dados forem claros e evidenciados, não haverá razão para não fazê-lo; ninguém aqui derramará uma lágrima por um político sequer do PSDB que seja incriminado. Fundamental, porém, é demolir o regime no qual ainda estamos submersos, e que contou com um gigantesco arranjo de corrupção para estabelecer seus ícones como “monarcas impolutos” que se acreditaram pairando sobre a lei, mas que hoje tem sua ferida aberta pelo valoroso trabalho do juiz de Curitiba, dos procuradores e da Polícia Federal.

