Créditos da imagem: R7
Agora é oficial. Em votação simbólica por aclamação, cumprindo acordo previamente estabelecido, sob gritos de “Brasil pra frente, Temer presidente” e “Fora, Dilma”, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro abandonou o governo Dilma Rousseff.
O impacto da medida dispensa maiores explicações. O PMDB é o maior partido do país, sustentado basicamente em lideranças regionais poderosas e caciques fisiológicos que costumam se desentender bastante, mas agora chegaram a um acordo decisivo. Detêm, nas figuras investigadas de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, as presidências da Câmara e do Senado. Restam ainda seis partidos na base aliada do governo, sendo o maior deles o Partido Progressista, mas isso não é definitivo. Além de algumas dessas legendas terem liberado seus parlamentares a votar como desejassem, desenha-se, a partir da opção histórica do PMDB, uma debandada geral, que deverá deixar o governo dependendo exclusivamente do PT e de alguns partidos de esquerda que defendem Dilma mais ardorosamente e deverão preferir afundar junto com ela. Para piorar tudo para a presidente, os ministros peemedebistas não estão autorizados a manter seus cargos em nome do partido.
Diante do iminente apocalipse para a presidente ex-guerrilheira, alguns comentários pitorescos começaram a pipocar na imprensa, especialmente na Globo News, velha conhecida por observações irritantes. Alguns repórteres, ecoando o discurso oportunista de Marinas Silvas e Lucianas Genros – e que seria talvez do agrado de alguns tucanos também -, “insinuaram” a possibilidade de Dilma renunciar e convocar novas eleições. Interessante notar que as esquerdas radicais apontam para um processo de impeachment conduzido rigorosamente de acordo com a Constituição e o declaram um “golpe”, mas algumas vozes “formadoras de opinião” consideram normal o que seria, efetivamente, rasgar as leis. O impeachment torna Michel Temer presidente da República; tudo o mais além disso é que seria um golpe. Não olvidem os petistas engraçadinhos que Temer foi eleito junto com a presidente!
“O PMDB está sendo apenas oportunista e quer tomar o poder”, dizem outros. Naturalmente; e qual partido político não o quer? O PMDB é, repetimos, a maior legenda do país, apesar de não ter qualquer traço ideológico bem definido; já governou o Brasil logo depois do regime militar, quando tinha um perfil diferente do atual, com lideranças mais carismáticas como Ulisses Guimarães, através de José Sarney (que assumiu depois da morte de Tancredo Neves, por ser o vice). O governo Sarney foi péssimo – o que tinha consequências bastante desagradáveis em uma economia pré-Plano Real -, mas se efetivou em condições de normalidade, ou tanto quanto era possível depois de um longo regime de exceção e o falecimento de um líder popular eleito pós-Diretas Já. Da mesma forma nos dias de hoje. O PMDB não está aplicando golpe algum.
Então devemos bater palmas para eles? É claro que não. O PMDB, como velha raposa, outrora apoiou o governo Fernando Henrique, e depois, por 13 anos, compôs o esquema de poder criminoso do regime lulopetista e participou da corrupção na Petrobrás. Não se trata de um abrigo para santidades políticas; ao contrário, nasceu a partir do MDB, a força de oposição ao regime militar no seu sistema bipartidário, mas se afastou da sua pregação de viés nacional-desenvolvimentista e ufanista para se tornar um partido camaleônico, que se “anula” para se alojar no arranjo dos diferentes governos e se encastelar em posições administrativas e cargos públicos, sem qualquer projeto maior. O desastre petista mudou as disposições e fez o PMDB ambicionar a posição de protagonista; a ideia era disputá-la em 2018. Deverá tê-la já.
Desejamos que a Operação Lava Jato avance e que a lei seja aplicada também sobre os corruptos peemedebistas e sobre todos os partidos da base aliada, ainda que resolvam, agora, muito convenientemente, zarpar do naufrágio. Todos eles são culpados e cúmplices de tudo que aconteceu, quando não diretamente, ao menos por assinar embaixo. A Justiça, e também os eleitores, devem puni-los por isso. Não esqueceremos. Porém, ao contrário dos negadores das instituições, defenderemos o cumprimento da lei, e sabemos que o governo Dilma não pode continuar.
Não pode continuar porque isso seria imoral, e não pode continuar, porque não tem mais legitimidade e condições de resolver a crise do país e recuperar a confiança dos investidores, nem sequer a intenção. É impossível um país seguir em frente e travar suas batalhas, sem destroçar por inteiro a vida de sua população, sendo conduzido por um governo que não toma qualquer outra medida senão tentar sobreviver. O período petista deve terminar. O PMDB seria pior que o PT? Já nos manifestamos no sentido contrário. Exatamente por seu fisiologismo e sua natureza camaleônica, o PMDB não tem o perfil ideológico radical e beligerante do PT, não raciocina em seus termos destrutivos. O documento do Instituto Ulisses Guimarães, apelidado de “Plano Temer”, somado a algumas declarações do próprio vice-presidente, sinalizam, aliás, que os peemedebistas caminharão em direção a reformas mais liberais, até mais do que as da plataforma eleitoral do PSDB em 2014, com o pusilânime Aécio Neves. Farão isso, é claro, se Temer conseguir governar, pois enfrentará dificuldades para formar um governo de união nacional e estará, em teoria, “sub judice”, pois o processo que julga a cassação da chapa no TSE deverá prosseguir.
Para além de tudo isso, justamente por ser um dos grandes culpados, caberá ao PMDB sustentar, em suas costas, o ônus de sua responsabilidade, e sofrer na carne o peso da urgência de promover medidas provavelmente impopulares e enfrentar um desafio duro para permitir que o país respire. É justo, e nos parece, guardada a nossa reprovação ao partido, a melhor solução para o momento. Que Temer assuma, e que as investigações da Lava Jato prossigam.

