O mundo parece clamar para que adotemos posições claras diante dos contundentes fatos sociais cuja jurisdição nos escapa, mas cujo retorno, na forma de atitudes beligerantes, de algum modo nos afeta. O que dizer acerca do quadro de tensão social a que foi alçado o nosso país? Há quem esteja imune a isso? Há quem não se sinta instigado em suas ínfimas reflexões pelo processo político em curso? Por distantes que estejamos das chantagens do Palácio, por longe que estejamos das artimanhas audaciosas dos que tentam impor ao país um destino, somos todos afetados por tais decisões. Apenas por isso, por um sentido de responsabilidade social e até pessoal, julgamos pertinente continuar questionando os valores que regem essa classe de pessoas cujo ofício de servir ao bem comum encontra-se deturpado pela sede de poder e pela ânsia de fazer valer a sua ideologia a qualquer preço.
O povo pensa? O povo sente? O povo pulsa? O povo clama? Pouco lhes importa! Para eles o que está em jogo é o seu reflexo naquele espelho de que trata Machado de Assis em seu conto, no qual um indivíduo altamente vaidoso se confronta com a imagem projetada de si quando veste seu uniforme e o vazio que sente ao ver-se desprovido de sua “alma exterior”, que é a função que exerce. Todos estamos sujeitos a isso, mas os políticos, ah! Esses esqueceram-se já da sua verdadeira face e polemizam com discursos que mais refletem suas fraquezas morais quando tentam escondê-las do que o fariam se as escancarassem ao público! Julgam-se ainda capazes de ludibriar uma população que anseia por mudança, por respeito, por consideração!
Os estudantes que somos, as donas de casa que somos, os profissionais liberais que somos, todos estamos saturados, esgotados, enervados com a forma de se fazer política nesse país. Conhecedores ou não das artimanhas pútridas do poder, estamos absorvidos pelos acontecimentos e somos sim capazes de discernir a novidade que vem, a liberdade que surge, a criação que se desdobra em meio à própria lama que emerge de todo esse esforço malbaratado que se faz para que tudo permaneça como era. Tudo em vão! A mudança vai acontecer. Não porque este ou aquele indivíduo tomou tal ou qual atitude, mas porque a vida não para e a história não tem freios. O imperativo é a mudança e as nações evoluem a passos lentos, como se se ressentissem do peso de seus próprios hábitos. Sim, elas progridem, também pelo impulso de suas tradições, e é nesse tatear de fatos, de interpretações e de acontecimentos que se dá o despertar político no sentido mais alto da palavra.
Não mais teses arrancadas de décadas, de séculos atrás; não mais teorias revolucionárias que querem nos desabrigar de nossos valores mais caros; não mais a balbúrdia seleta de movimentos ultrapassados pelas suas próprias reivindicações, mas a voz gutural do instante que advém como um raio que corta o tecido social, fazendo-nos crer que é possível crer, que talvez haja razão em tentar e que o grito bravio da alma desperta nem sempre devolve instantaneamente a saúde àquele que o libera, mas faz ecoar algo no fundo calado de cada alma pensante. E o pensamento desafia como o sopro da ventania que quer fazer o barco avançar. Esse barco é o Brasil, esse sopro é uma ideia que se anuncia.
Não me venham com arengas ideológicas! Não deturpem a ousadia de uma nova geração! O que se quer é justiça e, mesmo que se não a encontre absolutamente sob a forma de uma única interpretação, sabe-se exatamente quais são as personagens perversas que a querem deliberadamente obstruir. Um corpo de leis que se guia por um ideal de justiça é um dos lados desse campo de batalha. O outro é uma ideologia comezinha, baixa e servil. Mas as máscaras cairão e cá estaremos, em frente ao nosso próprio espelho, contemplando a verdade ou a falsidade de nossas próprias posições. Pensemos! O Brasil precisa de nós.

