Os políticos brasileiros têm sistematicamente entretido o público com suas contravenções. A taberna do congresso e do planalto está cheia de mentes brilhantes e perdidas. Podemos esperar algo de bom desse lugar? Desejaríamos tecer comentários engajados e republicanos, soltar o verbo contra a bandalheira instalada. Mas de que adiantaria? O de que precisamos é que a lei se afirme apesar de todos os desvarios. A questão em jogo, já o dissemos, é a tentativa de cercear, de desmerecer, desqualificar e tornar inútil todo o esforço que se fez para que a corrupção viesse à tona, escancarando aos brasileiros a covardia com a qual nos roubaram descaradamente, usurpando o dinheiro que deveria ser utilizado para bem servir.
O Estado, esse ente corpulento e abstrato, essa enorme maquina burocrática, não é um ser autônomo. Suas engrenagens são iniciadas por mãos reais, por consciências que sabem o poder de suas decisões. O Estado é apenas um nome. Isso significa que a burocracia precisa ser imediatamente reconfigurada, remodelada, rearranjada para que possa funcionar a contento. As trocas de cargos constantes por apoio político, as alterações partidárias, as legendas de aluguel, tudo isso também precisaria ser revisto. Mas não se faz isso. Nem mesmo se estranha que haja um conúbio entre as partes políticas em busca de favores.
O Brasil está podre. É triste dizer. Não é a nossa nação enquanto entidade soberana que está a se putrefazer. É a ideologia que aqui grassou, que vicejou entre a classe política e intelectual. Uma ideologia pedante e infantil que provê alimento para intelectos débeis que se julgam fortes por terem um pensamento “crítico”. A crítica superficial é bem essa que se esgueira no conceito sem aprofundá-lo, que se alastra como pólvora sem efetivamente vibrar. A crítica política pressupõe mais que um fanatismo juvenil sustentado em histórias distorcidas de fatos já consumados; pressupõe mais que a loucura que busca reverter os quadros sociais de ponta à cabeça revelando um gênero que seria social e um sexismo que ainda estaria por resolver quando já se tem uma mulher mais culta e um homem mais sensível; pressupõe mais que a tentativa de resolver através de regras, cotas e estímulo ao embate um preconceito racial que de fato existiu, mas que está a se dissolver.
A sociedade é composta por muitas camadas. Todas elas recobrem determinados indivíduos e o indivíduo é o elemento incontornável dessa questão. Reforma social que não pressupõe reforma íntima é apenas um teatro de ressignificações, de imposições linguísticas, de desvarios estéticos e vulgarização coletiva. O social só se reforma pela reforma daqueles que o compõem e esse lugar de trabalho, qual seja, a mente humana – a psiquê, seus valores, suas crenças -, é de uma sutileza que afugenta aqueles que não são dados ao autoconhecimento. O que queremos dizer é que o maquinário governamental que está destroçado, aquele partido que está desmoralizado, este âmbito político que está contaminado, são apenas reflexos de indivíduos que se encontram em alienação constante. E o que temos com isso? Se o social remete ao individual e a coletividade não é uma entidade autônoma, qual o nosso papel político?
O que é a política? Política é a arte de bem gerir o patrimônio comum. Comecemos então gerindo bem a nós mesmos. Ocultemos menos as nossas pulsões, nossas afetações, loucuras e ambições. Tentemos efetivamente averiguar a quais valores nos atemos, o que nos faz sermos aquilo que somos, o que nos move e o que nos faz viver. Se acharmos essas respostas, poderemos olhar em torno e verificar que seremos úteis de algum modo. Exercendo a política ou não, denunciando a indecência ou não, posicionando-nos ideologicamente ou não. Os papéis sociais estão dados e cada um tem o seu papel a exercer. Exerçamo-lo bem, honrando nossos ideais, extraindo de nós a melhor parte daquilo que possuímos. Nada mais podemos fazer senão aquilo que sabemos que nos compete. Calar? Divergir? Hastear bandeiras? Lutar? Cada um sabe a sua função. Cada qual sabe a que veio. Apenas cumpramos o nosso dever.

