(Imagem retirada da página do Movimento Brasil Livre no Facebook, usada aqui em reconhecimento a O Estado de São Paulo, jornal que sustentou com propriedade, ainda que mais recentemente, o impeachment de Dilma)
Senhoras e senhores, a esta altura já não é mais novidade: por 367 votos a favor contra 137, além de 7 abstenções e 2 ausências, a admissibilidade do processo de impeachment triunfou na Câmara dos Deputados. Entregue pelo presidente Eduardo Cunha a Renan Calheiros, que preside o Senado, o processo agora se dará naquela casa, onde um julgamento inicial de admissibilidade – que não deveria existir, mas como foi imposto pelo STF, segue o jogo – definirá, se ratificar a decisão da Câmara, o afastamento imediato de Dilma Rousseff da presidência e o início, ainda que teoricamente provisório, de um governo Michel Temer.
Os brasileiros assistiram ansiosos, nervosos, nas ruas e casas, em telões instalados em locais públicos ou no conforto de casa, até o deputado tucano Bruno Araújo de Pernambuco soltar o grito da garganta daqueles que estavam ao lado da vontade da maioria e da libertação nacional: “Quanta honra o destino me reservou de poder, na minha voz, sair o grito de esperança de milhões de brasileiros. Senhoras e senhores, Pernambuco nunca faltou ao Brasil. Carrego comigo nossas histórias de luta pela liberdade e pela democracia. Por isso digo ao Brasil: SIM PELO FUTURO! ”.
Foi uma sessão que durou longas horas, e roemos as unhas desde cedo até o fim da noite. O resultado, desnecessário frisar, é uma vitória colossal da pátria contra os seus traidores vermelhos, da verdade contra a mentira, da justiça contra a impunidade. É um recado aos governos – em especial dos presidentes da República, que dispõem de poderes bastante exagerados no nosso infeliz e ineficiente sistema presidencialista – para que se obriguem a respeitar o orçamento e entendam que prostituir o uso das finanças para vender ilusões é desprezar a saúde nacional e as futuras gerações. É um crime, como crime deve ser tratado, e como crime deve ser punido. Um governo sem sustentação, sem condições de exercer sua autoridade, sem nenhuma credibilidade, que semeou o ódio e a segregação dos brasileiros em “categorias”, que agiu como cúmplice das tiranias e ditaduras mais despudoradas do planeta e que se enquadra perfeitamente nas contestações técnicas feitas por juristas abalizados, não pode continuar. O que aconteceu foi nobre e legítimo. Tanto quanto o impeachment do ex-presidente Collor, mas desta vez com muito mais razão, porque o que começa a desmoronar não é um governo baseado na “sensação midiática” que ficou sem qualquer alicerce de sustentação política, mas um sistema de poder de mais de uma década baseado em populismo, em um esquema gigantesco de corrupção e em alicerces ideológicos nefastos e “anti-brasileiros”, endossados por uma militância fascistóide e uma intelectualidade vendida.
Inevitável, no entanto, que ao ver seu “sonho” – para a maior parte das pessoas decentes, um concreto pesadelo – ruir, os esquerdistas que defendem o regime lulopetista usem ainda de todo tipo de argumento estúpido para posar de democratas golpeados pelos “dinossauros da bala, da Igreja Evangélica e da ditadura militar”. Diante do baixíssimo nível do nosso Congresso – que nos obrigamos a reconhecer -, consideram todo o processo um teatro baixo. Pelo fato de Eduardo Cunha e o PMDB não serem santos em qualquer sentido da palavra, querem convencer no grito de que tudo foi um circo e não há nada a comemorar.
Por mais corruptos que sejam os outros partidos, por mais que o sistema da Nova República como um todo demande reformas fundamentais, por mais que a luta deva continuar – e deva continuar sempre -, a EXCEPCIONALIDADE do projeto petista de poder já foi exaustivamente demonstrada. Detê-lo era o passo prioritário; o país jamais suportaria se esse passo fosse adiado. Os hipócritas escarnecem do fato de que deputados como Tiririca, do PR, votaram a favor do impeachment, mas não esboçam comentário acerca de figuras deploráveis como Vicentino, Benedita da Silva, Erundina e José Guimarães… Tiririca, ao menos, tem algum talento.
Seja como for, por mais destacada que tenha sido a atuação de alguns parlamentares, esta vitória não pertence ao PSDB, ao PSC, ao DEM, ao PPS ou ao Solidariedade. Não é uma vitória de Eduardo Cunha, de Michel Temer, do PMDB. Muito menos de Aécio Neves, Serra (aliás, onde eles estão?). Essa vitória pertence ao Movimento Brasil Livre, ao Vem Pra Rua, ao Revoltados Online. Essa vitória, sim, claro, pertence também a Janaína Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr. Pertence ao site O Antagonista, que acompanha diariamente e com informações de bastidores a podridão do Congresso e do Planalto, lutando para romper o silêncio nefasto. Pertence a Joice Hasselmann, Olavo de Carvalho, a todos que defenderam ideias para sacudir este país. Pertence aos milhões de brasileiros nas ruas nos dias 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto, 13 de dezembro de 2015, e 13 de março de 2016. Pertence a NÓS.
Não deixem que o esperneio diminua o seu orgulho de ter participado, a sua convicção de estar do lado certo. Não deixe que te convençam a esquecer que essa vitória é sua. Nós pressionamos, nós construímos a possibilidade. Nós fizemos a História. Viva o Brasil!
Notas sobre as votações de ontem

Créditos: G1
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, é acusado de fazer parte do esquema de corrupção da Petrobrás. Foi atacado por diversas vezes nos votos de ontem, em especial por governistas que queriam fazer todo o processo parecer um jogo manipulado por ele em nome de sua vingança pessoal. Não podemos deixar de reconhecer, no entanto, e que se danem os queixumes, que ele conduziu os trabalhos muito bem, com autoridade e celeridade, e fez a gestão mais independente de uma casa legislativa em relação ao Executivo em anos. Que seja punido pelos seus crimes, mas que por isso não se deixe de reconhecer uma verdade alvissareira para nosso doentio sistema político, e não se considere que ele, Cunha, seja o autor da História.

Alfredo Nascimento (Créditos: Rondonotícias)
Em cálculos do G1, São Paulo, em números absolutos, foi o estado com a maior quantidade de deputados favoráveis ao impeachment, com 53 votos a favor e 13 contra. Em seguida estariam Minas Gerais e Rio de Janeiro. A Bahia foi o estado com maior número de parlamentares governistas, com 22 contra 15. Amazonas e Rondônia votaram em sua totalidade a favor do impeachment. Percentualmente, os menores índices se deram no Amapá, na Bahia e no Ceará. PMDB, PSDB, PP, PSB e DEM, nessa ordem, deram mais votos ao impeachment; nenhuma surpresa nisso. Percentualmente, PSDB, DEM, PRB e SD votaram 100 % pelo impeachment e PCdoB, PSOL e PT votaram 100 % contra, enquanto o PDT teve seus desertores.
O presidente do PR, Alfredo Nascimento, deputado pelo Amazonas, protagonizou momento inusitado ao renunciar ao seu posto durante a votação por ter decidido contrariar a orientação de seu partido e votado “sim” ao impeachment.

Clarissa Garotinho (Créditos: O Dia)
Aníbal Gomes, do PMDB cearense, e Clarissa Garotinho, do PR carioca, foram os ausentes. A jovem do clã Garotinho alegou sua gravidez para faltar; no impeachment de Collor, Roberto Campos foi votar de cadeira de rodas. Que a História e o eleitorado não perdoem a covardia desses dois parlamentares.
Também se acovardaram os que estiveram presentes, mas optaram pela abstenção. Alguns alegaram a proteção de seus mandatos e filiações partidárias; colocar esses benefícios acima do destino de um país e dos ditames da própria consciência não é digno de um homem público – embora, infelizmente, seja isso que vejamos prevalecer no Brasil.
O deputado federal pelo PSC, Jair Bolsonaro, e o deputado federal pelo PSOL, Jean Wyllys, conhecidos por suas desavenças de longa data, cometeram erros significativos na hora de proferirem seus votos. Este último, um socialista intolerante, cuspiu no rosto do primeiro depois de votar; alegou que havia sido ofendido, embora os vídeos não pareçam confirmar sua versão histérica. Nada, absolutamente, justifica sua atitude. Agora, algumas linhas sobre a questão Bolsonaro; já o defendemos noutras oportunidades das distorções realizadas pela esquerda e pela mídia, e continuaremos a fazê-lo. Trata-se de um parlamentar que sempre fez discurso de oposição, enfrentou duramente o petismo, teve coragem de dizer verdades nas fuças dos seus próceres vermelhos, combateu o conluio do regime com ditaduras socialistas, combateu o conteúdo sexual precoce em aulas para crianças nas escolas, a doutrinação ideológica nos colégios, etc. – bandeiras em que é seguido por seus filhos. Apesar disso, Bolsonaro, em parte pela sua formação militar e pelo apoio eleitoral que teve, ao começo de sua carreira, sobretudo nesse grupo social, adota algumas posturas que, se guardam algum mérito em si mesmas, também assumem as raias do caricato, a respeito do regime militar e do movimento de 1964. Em oportunidade histórica que não tinha absolutamente nada a ver com esses fatos distantes no tempo, Bolsonaro lembrou que a esquerda radical foi derrotada em 64 e “perderá de novo”, e exaltou a memória do militar Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de torturas durante o período. Já ao começo, Bolsonaro elogiou Cunha pela condução do processo de impeachment. Reparemos que duas das afirmações de Bolsonaro são simplesmente verdadeiras: de fato, em um cenário extremo e polarizado de Guerra Fria, o movimento de 64 representou, apesar do atalho ilegal de que fez uso para isso – Auro de Moura Andrade cassou João Goulart enquanto ele ainda estava no país, embora distante da capital -, uma reação e um desmonte de um governo que atacou os mandatos estaduais de oposição, perturbou o Congresso, permitiu a movimentação dos comunistas (dentro e fora de sua máquina pública) e emitiu, sim, sinais muito preocupantes de inflexão rumo a um esquerdismo autoritário (embora não fosse, ele próprio, comunista). De fato, em 64, a extrema esquerda foi detida; infelizmente, os militares depois acabaram traindo sua promessa e não convocaram novas eleições – e afirmamos: um país governado por um Carlos Lacerda ou até um Juscelino Kubitschek poderia perfeitamente combater o terrorismo socialista sem precisar de um regime de exceção prolongado. Esse problema não anula a verdade anterior. Da mesma forma, parabenizar Cunha pela condução do processo é nada mais do que justo; isso não significa dizer que ele é inocente ou que é um grande homem. Bolsonaro falou verdades; a única coisa que realmente podemos julgar imoral é enaltecer Brilhante Ustra, muito embora pouco conheça de sua biografia e, até onde eu saiba, as acusações contra ele ainda sejam passíveis de discussão. O grande erro de Bolsonaro, isto sim, é um erro político; Cunha e o regime militar ocupam posição negativa no imaginário de boa parcela da população, e, em boa medida, por razões justas. Evocar seus pontos positivos, com ou sem razão, na hora de manifestar um voto decisivo em um contexto democrático, quando toda a esquerda se esforça por associar o impeachment de Dilma à tão “temida e odiada ditadura”, é uma falha grosseira. Se o PSC e Bolsonaro esperam fazer de sua aliança uma alternativa à direita com chances reais em uma eleição majoritária, é forçoso reconhecer que terão muito trabalho. Os cacoetes militaristas de Bolsonaro são marcas de sua autenticidade e espontaneidade, mas têm se mostrado obstáculos para um objetivo maior. Isso não significa que devamos desprezar a aproximação que ele tem promovido com ideias e círculos mais liberais, no que também é seguido por seus filhos. Mas verdades devem ser ditas, erros são erros, problemas são problemas, e ele os comete.
Não obstante, vale frisar que inúmeros parlamentares de esquerda, petistas e comunistas, enalteceram líderes de causas totalitárias e assassinas, como Luiz Carlos Prestes e Carlos Marighella. O próprio Jean Wyllys já homenageou o assassino de gays Che Guevara. No entanto, ninguém cuspiu em suas caras ou fez escarcéu sobre isso. Ponto para Merval Pereira, que, em debate na Globo News, mencionou esse fato quando Renata Lo Prete abordou o discurso de Bolsonaro.


2 comentários
Lucas Berlanza, estás de parabéns. Não conhecia o portal Sentinela Lacerdista, tampouco seus textos. Nunca vi tamanho jornalismo cristalino, fiel e honesto ao posicionamento do jornalista, sem manobras textuais para tentar ludibriar o leitor, com sentidos mais sublimes, como o Sakamoto faz, por exemplo. Afinal mídia imparcial é um mito. Espero que você vá longe. Bolsonaro está tendo seus flertes com o liberalismo e se quer sinceramente se tornar um político melhor deveria ler seus artigos, são críticas altamente construtivas. Mandarei os links para o deputado.
Muito obrigado pelo incentivo, Matheus! Grande abraço.