(Créditos: Alan Marques/Folhapress)
A palavra impeachment finalmente começou a se tornar uma realidade concreta no Senado Federal, a casa que promove o julgamento e formula a sentença. Em fase de audições, a Comissão Especial no Senado realizou nesta quinta-feira (28/04), em sessão que penetrou o dia seguinte e terminou pouco antes do momento em que encerro estas linhas, um encontro entre os senadores e os denunciantes.
Primeiro, o jurista Miguel Reale Jr. discursou, iniciando sua fala com uma censura ao comentário do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que na Câmara enalteceu o coronel Brilhante Ustra. Com todos os respeitos a ele, como bom tucano, não se deu ao trabalho de comentar os enaltecimentos a Marighellas e Lamarcas da vida, por parte de outros parlamentares. De todo modo, conduziu a sustentação de sua tese, foi desafiado pelo senador Cristovam Buarque (PPS-DF) por avisar que precisaria se retirar em razão de um exame, e encarou um dos muitos comentários toscos da enorme sessão: o do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que disse que a denúncia pede, na verdade, o “impeachment de John Maynard Keynes”, o economista ícone dos intervencionistas, por censurar uma mera “política econômica anticíclica”. O governo, a seu ver, deve, sim, “gastar mais”, em momento de “aceleração econômica” – onde está essa aceleração, já há uns bons meses ninguém sabe, ninguém viu. O comentário não poderia vir mais a calhar para que o público liberal, em coro, concordasse com o senador cara-pintada.
No entanto, o auge se deu quando a também jurista Janaína Paschoal assumiu o lugar de Reale. Que façamos jus, é claro, aos predicados intelectuais deste último; mas ele não tem o perfil de independência da advogada para apresentar o espetáculo de virulência, constância, firmeza e coragem que ela apresentou. Janaína não se expressou sem ser alvejada, de todos os lados, pelos senadores torpes do setor governista; torpedearam suas atividades junto a seus clientes em seu ofício, pentelharam, vasculharam seu passado – eles mesmos que acusam a oposição, a todo instante, de estar se afastando do mérito da questão. Espinafraram, pressionaram, fizeram analogias estapafúrdias, tacaram pedras nada sutis – e a mulher, “arretada”, bravíssima, ciente de seu papel e de sua importância histórica, não se curvou em nenhum momento! Apontou para o PT como sendo o legítimo cultista do ódio, lembrou que os petistas apoiam todos os tipos de ditaduras do mundo atualmente, lembrou que os mesmos petistas que jamais aceitaram a Constituição Federal são os que hoje se proclamam seus defensores, deixou os governistas em total constrangimento por desnudar seus paradoxos e suas incongruências. Acusaram-na com a mesma ladainha de que teria que ter pedido o impeachment de toda e qualquer figura pública que tenha sido alvo de qualquer suspeição em toda a história recente nacional; com presença arguta de espírito e sarcasmo, ela respondeu que não é a “Pedidora de impeachment Geral da União”. Sem demagogia alguma, dizemos hoje que Janaína Paschoal teve uma performance magistral e essa longa sessão, sobretudo graças a ela, merece ficar na história do nosso Parlamento.
Porém, de todos os brilhantes momentos, nada se supera ao enquadramento da oposição. Janaína foi acusada, previsivelmente, de ser uma militante tucana; toda e qualquer oposição, toda e qualquer divergência, no pensamento binário dos petistas e dos comunistas que os apoiam, está embasada nos interesses partidários do Partido da Social Democracia Brasileira. Quem ouviu a sessão e ainda pensa assim é louco ou mal-intencionado. Independentemente do seu posicionamento em relação a quaisquer outras questões, independentemente do grau de conhecimento e de percepção que ela tenha acerca do que está em jogo no cenário político-cultural brasileiro, Janaína apontou com perspicácia e franqueza a responsabilidade do PSDB em tudo que está acontecendo.
Mesmo sem cerrar fileiras conosco, Janaína disse o que conservadores e liberais, bem como imensa parcela da população brasileira, têm vontade de dizer: que o PSDB é frouxo. Deixou claro, em outras palavras, que o partido tem sido, ao longo destes 13 anos, completamente “bunda mole”. Disse que guarda mágoa de Fernando Henrique Cardoso porque fez o trabalho sujo de defender o governo por muito tempo, somente admitindo o impeachment aos 45 do segundo tempo. Ressalvando honrosas exceções, disse que o PSDB só muito tardiamente encampou a bandeira, e que bastava comparar a sua personalidade com a personalidade FRACA do partido para constatar que ela não é tucana.
Janaína está certa. A omissão do PSDB e da oposição partidária em geral ao longo de anos, intimidada – quer por conivências circunstanciais, quer por contenções ideológicas murchas – diante da degradação do país, caracteriza RESPONSABILIDADE, CULPA e PARTICIPAÇÃO. Não a ser julgada pela Justiça, mas a ser condenada pelo povo e alardeada por todas as vozes conscientes. Fazendo-se as devidas reverências a quem já está atacando esse estado de coisas desde a primeira hora, os estridentes dos últimos tempos, por mais bem-vinda que seja a sua contribuição – e necessária, dado que o impeachment passa pelas instituições legislativas -, NÃO SÃO HERÓIS e não estamos identificados com eles.
Nem nós, nem Janaína Paschoal. O impeachment não pertence ao PSDB, como não pertence a Eduardo Cunha, nem mesmo ao PPS e ao DEM – partidos que, segundo Janaína, se aproximaram dela e dos seus companheiros de denúncia antes dos tucanos. Pertence a nós. Pertence ao povo brasileiro.
Por defender a nossa voz e escancarar essa verdade, padecendo de crise alérgica, sendo agredida das mais diversas maneiras, mas mantendo sua posição, é que Janaína Paschoal merece de nossa parte os mais efusivos parabéns e o mais sincero agradecimento. Quando protocolou a denúncia e quando a sustentou bravamente, na Câmara e, espetacularmente desta vez, no Senado, ela nos representa.

