O Estadão, o bom e velho O Estado de São Paulo, é uma presença relevantíssima da história política e jornalística do Brasil. Uma trajetória que começa ainda em plena monarquia, em 1875, e atinge seu auge quando, sob comando da família Mesquita, cujos ícones eram admiradores e amigos pessoais do grande Carlos Lacerda, sua marca se aproximou das principais bandeiras udenistas. Já elogiamos o jornal, não apenas por identificação ideológica com essas bandeiras, mas pelo bom senso que recentemente manifestou ao não fazer pouco caso das multidões que tomaram as ruas para protestar contra o governo Dilma.
Todas essas qualidades só tornam mais triste e incompreensível o que aconteceu neste domingo, primeiro de maio de 2016. Desagrada-me roubar o discurso dos ambientalistas extremados de plantão, mas não posso ignorar que me machuca a ideia de que agredimos árvores, mesmo que de áreas de reflorestamento, para colocar no papel lixos como a última coluna do humorista Fabio Porchat. Páginas que já conheceram peças de refinamento peculiar, que já cerraram fileiras decisivas – goste-se delas ou não – em encruzilhadas históricas da pátria, páginas que já foram marcadas por monstros sagrados da imprensa e da intelectualidade nacionais – estão hoje ocupadas por contratados como Porchat, que as maltratam da forma mais insensível.
O comediante, que sabe-se lá por que cargas d’água é considerado, como seu amigo Gregório Duvivier, um profundo intérprete da realidade sócio-política do país, decidiu redigir um texto exigindo a saída do cargo de presidente da Câmara do deputado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro. Até aí, nada a questionar. Acreditar que um investigado por denúncias significativas de envolvimento com corrupção não deve comandar uma das instituições mais importantes do país é uma postura bastante razoável – não obstante pensemos que seu trabalho conduzindo as sessões tenha sido memorável e trazido ares de independência em relação ao Executivo que são salutares à divisão de poderes republicanos. Nada disso apaga as evidências contra ele, as provas de que se envolveu, como pequena célula, no gigantesco esquema de corrupção nas estatais que beneficiou o sistema de poder, convém sempre lembrar, do Partido dos Trabalhadores, ao qual ele hoje se opõe. E, portanto, nada mais justo que desejar vê-lo punido.
Porém, Porchat acreditou, por algum insight original de brilhantismo ou estupidez, que bastaria gastar suas linhas reproduzindo centenas de vezes o título. Sua intenção talvez fosse reforçar a mensagem. Entupiu seu espaço com repetições da exclamação “Fora, Cunha!”. Confiram com os próprios olhos na imagem acima.
Estou certo de que, em não muito tempo, alguém em alguma faculdade de Jornalismo no Brasil estará dizendo aos alunos que sua coluna foi uma obra de arte que promoveu uma “estilizada e genial desconstrução pós-moderna do discurso para questionar as estruturas de poder tradicionais, tal como Foucault as criticava”.
Já nós, que só queremos recuperar um pouco da sanidade mental que este país já deve ter tido algum dia, só podemos lamentar que uma marca tão tradicional quanto O Estado de São Paulo ceda seu espaço para tamanho lixo e ofenda o Jornalismo dessa maneira.


3 comentários
Que saudades de João Ubaldo Ribeiro
Esse moleque já perdeu a graça há muito tempo.
Enfim, a Dilma fazendo escola…tal qual ela, seus seguidores e defensores não se cansam de fazer insanidades e passar vergonha!