Não há outro modo de dizer isso. As figuras centrais de todo o esquema que mergulhou o país no desastre e no atraso, essas podemos dizer com total clareza que não possuem qualquer caráter. Diante do festival de imbecilidades que fervilham pelas redes sociais por conta dos acontecimentos que se deram nesta segunda-feira (23/05), fica cada vez mais complicado acreditar que tudo se deva a deficiências cognitivas. Cada vez fico mais tentado a quase generalizar o diagnóstico da imoralidade.
Aos fatos. Em áudio divulgado pela Folha de São Paulo, o ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer, o também peemedebista (e até não muito tempo atrás um irritante defensor do regime petista), senador Romero Jucá, foi flagrado conversando com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. O ministro tentou se defender, antes de, no mesmo dia, se licenciar do cargo à espera de um parecer do Ministério Público. Diga-se de passagem, Jucá teve o bom senso – ou foi forçado a ter, não sabemos – que faltou a várias figuras do círculo lulopetista, aos tempos bem próximos de Dilma Rousseff.
Não importa; os áudios e suas transcrições estão eivados de clareza. Representam a expressão cristalina de um projeto para obstruir a justiça. Jucá queria que o governo Temer construísse um pacto nacional, envolvendo até o Supremo, para estancar a Operação Lava Jato – “estancar a sangria”. Expressa seu receio das delações premiadas de empreiteiros. Diz que Renan Calheiros resistiu à “saída Temer” por conta da proximidade do atual presidente em exercício do Brasil com seu desafeto Eduardo Cunha, o que seria, a seu ver (de Jucá), uma tolice, porque “Eduardo Cunha está morto”. Disse que a Lava Jato é um perigo, pois seu objetivo é “acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura”, e que “a ficha caiu” também para o PSDB, sendo Aécio “o primeiro a ser comido”. A conversa teria sido em março, e, portanto, Jucá afirma que o impeachment precisa ocorrer, pois com o clima formado em torno da desaprovação ao então governo, os ministros do Supremo afirmavam que nada poderia ser feito – uma “consultoria” gravíssima, diga-se de passagem. Portanto, para resumir, na opinião de Jucá, “o Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, PROTEGE O LULA (destaque nosso), protege TODO MUNDO. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais”.
Pois muito bem. Que reação se alastrou pela Internet? Depois de já terem contado vantagem após o tropeço tolo de Michel Temer na recriação do Ministério da Cultura – que, qualquer que seja a estratégia que a embase, é uma decisão que passa um recado de fraqueza, de que o governo cede ao grito, e contraria o anseio da população que tornou sua existência possível -, petistas e “isentões” (seus amantes prediletos) começaram a espalhar seu sorriso amarelo triunfante, atestando que o povo brasileiro foi usado como marionete e acreditou estar marchando contra a corrupção, mas ajudou a colocar “golpistas” no poder com o propósito de “melar a Lava Jato”. Vamos tentar devolver a eles um pouco de raciocínio lógico nessa bagaça.
E quanto a Eduardo Cunha? Não era tudo um golpe armado por ele? Conduzido a mão de fogo pelo poderoso presidente da Câmara, afastado pelo STF antes de Dilma ser derrotada no Senado? Então como explicam o áudio deixar claro que “Eduardo Cunha está morto”? Como as duas narrativas podem ser exploradas ao mesmo tempo, seus mentirosos contumazes?
E quanto à divulgação dos áudios, desde quando se tornou “legal”? A presença da delação de Delcídio do Amaral na revista IstoÉ, a divulgação dos áudios de Dilma e Lula com clara demonstração do propósito de obstruir a justiça, irritaram profundamente os petistas. De repente isso não é mais um problema? Romero Jucá é Ministro do atual governo. No caso dele, pode?
E cadê o fim da Lava Jato? Além de Jucá, está previsto “chumbo grosso” contra Renan Calheiros e José Sarney na delação de Sérgio Machado. Sérgio Moro não era um juiz pedante que estava pondo fogo no país? Agora a Lava Jato vale a pena – e são vocês os seus grandes defensores?
E quanto à citação a Lula? Romero Jucá fala literalmente que o plano peemedebista deveria proteger Lula. Nem a Rede Globo, a “poderosa emissora coxinha”, deu destaque a esse trecho – inclusive enaltecendo bastante as passagens que incluem o PSDB no rol de alvos prováveis da investigação policial e jurídica. O que vocês têm a dizer sobre isso?
As manifestações eram pelo impeachment, eram sim “contra o PT” – porque o PT é um partido fascistóide que faz o Brasil se alinhavar com a escória da humanidade e pratica a irresponsabilidade sistêmica; porque o PT pretendia permanecer no poder a qualquer preço, e não teve pudores em divulgar nota na mesma semana que passa em que lamentou não ter dominado a Justiça e as Forças Armadas. Isso não significa que somos contra a corrupção. Queremos cana para todos, doa a quem doer.
Vocês é que não. Vocês é que não deram um pio contra Mercadante, Cardozo ou Jacques Wagner. Vocês é que defenderam apaixonadamente Lula e Dilma Rousseff. Os petistas – aqui, em geral, os autodeclarados – é que ergueram os punhos e fizeram vaquinhas para ajudar “mensaleiros”.
Nós sabemos perfeitamente que a corrupção não foi inventada pelo PT, que o PMDB participou dela, que toda a estrutura político-institucional brasileira da Nova República está indelevelmente contaminada, e que a batalha continuará – e uma grande prova disso é que o governo constitucionalmente empossado se acovardou ao primeiro gritinho de vocês. Nós quisemos apenas nos livrar do mal mais urgente, mas seguimos querendo justiça.
Vocês só queriam manter suas boquinhas, ou fazer valer a tirania que cultivam e na qual estão viciados. A Lava Jato prosseguirá e não permitiremos que ela seja detida. Não tentem se aproveitar para fazer a roda andar para trás.

