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“Do ponto de vista do método é esta, provavelmente, a descoberta mais conspícua da filosofia antiga: as supremas verdades irrenunciáveis são aquelas que, no momento mesmo em que alguém as nega, é constrangido a fazer delas o uso sub-reptício no ato de negá-las e, portanto, reafirmá-las ao negá-las”.
Giovanni Reale, História da Filosofia Grega e Romana, Vol. II, p. 231.
O relativismo cultural, que nega as noções de progresso e regresso em análises antropológicas e sociais, foi formulado como resposta para a antiga antropologia, que concebia ideias como as de primitivo e moderno, ou de arcaico e avançado. A justificativa, como já foi dito no texto anterior, não tem carência em lucidez e coesão.
Não faria sentido analisar o uso da lança em uma sociedade tribal em comparação com o uso do revólver em algum país ocidental; no entanto, sociedades não são fechadas e envoltas em uma espécie de invólucro impermeável para outros prismas. Decerto uma análise de uma tribo baseada, totalmente, na comparação com sociedades exteriores, é deficiente e insatisfatória, em termos de coesão e crivo teórico e metodológico para o estudo; tentar praticar uma análise totalmente voltada para o exterior, em Humanidades, é negar a própria particularidade da cultura, ou do povo, estudados, mas isso não implica a total barragem de uma comparação externa, o que inclui os conceitos de melhor e pior.
A “cultura melhor” existe? Tentemos, para elucidar melhor tal questão, aplicar tais teorias relativistas nas próprias culturas em que foram formuladas: para que servem se não melhorar o estudo e o entendimento de certos povos humanos ou, até mesmo, do humano? Se não existem culturas melhores ou piores, e se o relativismo cultural é tão absoluto para a pesquisa e o juízo nas pesquisas etnográficas e teóricas, então por que ele sequer existe? Uma vez que as teorias racistas também se enquadram em culturas diferentes, por que julgá-las e condenar um trabalho antropológico ou sociológico embasado em uma concepção racista? Todos os antropólogos caem no erro de se esquecer de que suas teorias têm aplicabilidade em seus próprios povos e culturas.
Se não existe nenhum progresso cultural, ou um regresso, não existe, em absoluto, nenhum problema em resgatar argumentos racistas e etnocêntricos numa tese acadêmica, por exemplo. Ocorre que o próprio postulado relativista não funciona para si mesmo, ou, por conveniência, não é aplicado na própria sociedade ou cultura antropológica do pesquisador relativista.
Se existe um disparate[1] tão grande na concepção relativista, a tal ponto de suas premissas admitirem uma pesquisa com bases racistas, é porque ela é falha ao tratar da pesquisa para com grupos humanos. É necessário um prisma que não ignore conceitos já alcançados por outra cultura para pesquisar, aprender, observar e examinar, de modo mais digno e proveitoso, outras sociedades. Pela lógica, negar a existência de certo avanço nas culturas implica a inutilidade de compor melhores teorias[2], toda e qualquer teoria, por mais absurda que fosse, deveria obedecer a tal princípio, o que poria em dúvida a própria utilidade da academia para validar teses sociológicas, filosóficas, filológicas, antropológicas, históricas, etc., uma vez que a própria concepção de validade cairia por terra.
Defensores mais ousados do relativismo afirmam que todas as sociedades e culturas deveriam ser examinadas e apreendidas apenas de acordo com si próprias, isto é, relativas a si mesmas, porém tal tentativa também cai, pois sociedades são plurais em suas entranhas, ou seja, sua cultura geral é formada por outras culturas diferentes. Se a cultura antropológica, isto é, os hábitos acadêmicos da faculdade de antropologia, faz parte da cultura geral do Ocidente, então a regra vale apenas para ela; todavia, até mesmo a antropologia é fracionada em vários outros seguimentos e hábitos, isto é, culturas.
O universalismo existente no relativismo cultural, em suma, impediria qualquer tentativa de crítica, pois evitaria o próprio ato de comparação. Mas existem outras vias para demonstrar o disparate do relativismo.
Dentro de uma sociedade tribal, por exemplo, a análise do revólver e da lança não faria sentido, pois o uso e a existência da arma de fogo em questão não são relativos para aquela cultura de tal sociedade, e tal nível de relativização, como foi dito acima, é muito proveitoso, porém essa regra não pode abarcar todos os prismas de pesquisa e observação. O revólver é mais avançado que uma lança de arremesso, pois a percepção de melhor e pior, assim como proveitoso e danoso, ou até mesmo de prático e supérfluo, é corrente em toda a humanidade. Exacerbar o relativismo é, também, negar sua própria pretensão[3] humana de melhorar.
Em toda e qualquer sociedade, a concepção de melhora existe. Em um crivo relativista exacerbado, ignora-se o fato de tribos preferirem armas de fogo para se defenderem ou atacarem por conta do seu óbvio efetivo em comparação a lanças e flechas; o relativismo, por fim, é um perigo para a própria capacidade de mudança do homem. Uma vez que tribos preferem certos elementos da cultura ocidental[4] que os seus próprios, é porque existe uma evidência básica do que é melhor ou pior para tais sociedades. Melhor e pior existem, e não há como objetar uma evidência.
Uma vez já demonstrada a existência da possibilidade de melhora dentro do aspecto cultural, é preciso voltar para as características que são necessárias para a possiblidade de mudanças, sejam ruins ou boas em uma sociedade: os elementos-chave e as Constantes humanas.
O primitivo também pode ser analisado. Longe de desqualificar; como já foi insistido, o homem primitivo, ou até mesmo características primitivas, são de total importância para toda a humanidade até hoje, que transcendem a evolução técnica e cultural, pois fazem parte do ser humano. Porém, o que significa primitivo? Usada de forma pejorativa, tal palavra realmente não serve para qualificar nenhum povo, uma vez que se pode tornar uma agressão ao próprio humano, contudo, se utilizada de maneira que respeite sua etimologia, primitivus, isto é, o primeiro, no sentido de mais antigo, é um bom termo para classificar sociedades que se parecem mais com os povos do paleolítico, mesolítico e neolítico que outras. Negar a existência de mais características primitivas em povos contemporâneos que em outros é, ao mesmo tempo, recusar a própria observação, pois torna-se o equivalente a afirmar que a sociedade de Nova York é tão culturalmente distante das do mesolítico quanto às sociedades do Mali, onde existem resquícios do culto “telúrico” relacionado ao misticismo em torno dos ferreiros – característica da Idade do Ferro –; alegar tal coisa é, no mínimo, delirante e sinal de que não há mais bases sólidas em uma série de observações, mas sim em um absoluto abstrato, exacerbado e cultuado: o relativismo cultural.
O mesmo absoluto do relativo quando aceito cegamente, ou ainda com um sorriso de confirmação no rosto de seus defensores, felizes com suas contradições e impotências[5], é bem mais perigoso quando, finalmente, se aplica para além de um campo de estudos específico e vai para a prática. Em política e jurídica tais relativismos existem e não são raros na atualidade.
Partindo de uma argumentação mais “eleata” [6], o perigo que, não apenas pode, como decorrerá de relativizações ancoradas na ciência política, é alarmante. Se não existem culturas melhores ou piores que as outras, então características culturais antigas e medievais, tais como a Ordália (“famosa” nas sociedades bárbaras; em julgamentos que consistiam em provar a inocência, ou a culpa, do acusado por resistência à dor; uma ordália famosa era a de entregar ferros incandescentes para o acusado segurar; caso ele soltasse e demonstrasse dor… era culpado; totalmente igual, em valor, aos julgamentos contemporâneos, claro, apenas na mente de um relativista), são tão confiáveis, relevantes e prestativos quanto o Direito Canônico, o Romano e até mesmo o contemporâneo. Para os amantes e defensores do relativismo cultural, se suas crenças forem realmente levadas a sério – como, aliás, nunca são; nenhum relativista vive de relativismos em todo seu cotidiano, então também não existem sistemas políticos melhores ou piores –, os parâmetros da ordem social são desabados, ou como gostam de dizer: desconstruídos.
Ditaduras, monarquias parlamentares, democracias, oligarquias, aristocracias, monarquias feudais, absolutistas; sistemas tribais, de clãs, federações, repúblicas, tiranias…. Todas são, em absoluto, iguais em seus valores, pois, caso contrário, todo o relativismo exacerbado cairia por terra. Então não nos espantaremos se, dadas as premissas de que não é possível existir uma melhora positiva na cultura, um regime fascista esteja em pé de igualdade com uma democracia, ou que políticas que prendem homossexuais sejam da mesma valia daquelas que os protegem…
George Orwell, em sua magna obra, 1984, denunciou uma tática das esquerdas revolucionárias, que existe até hoje, chamada de duplipensar. O duplipensapento consiste em dar cargas de significado diferente e divergentes, não apenas na língua, mas também na essência dos pensamentos existentes em frases, palavras e discursos. O duplipensar é, em seu cerne, um relativismo; não existiria um pensamento concreto, apenas o fluido e maleável, duplo: a técnica adotada pelo Partido foi criada para rachar toda a tradição intelectual e filosófica da Europa. Lógica, premissas e até mesmo a intuição foram substituídas por uma retórica pura, pela indução extremada.
Na trama o autor credita a esse artifício – além de outros, como as mudanças drásticas na linguagem, a nova fala – o poder de modelar a mente de todo um povo, de toda uma classe de serviçais a serviço da Oceania, para o hiper-Estado que se vê como detentor de todo o poder e em todos os meios, que possui o propósito simples e cristalino de ter poder, puro e simples poder. Se a Verdade é relativa, então seguimos padrões morais apenas por hábito social, sendo as convenções sociais validadas apenas pelo poder que tal sociedade tem para punir ou prevenir certos deslizes ou faltas graves de seus integrantes. Assim o Partido, que controla a Oceania, agia.
A lógica de Orwell é impecável. Se não há Verdade, mas pensamentos duplos e “líquidos”, então quem detém a Verdade, é quem tem o poder. Se o Partido disser que 2 + 2 são 5… quem é o indivíduo para dizer o oposto? E de que valeria dizer o oposto, que são 4, não 5, se as convenções sociais são imperativas?
A tradição cultural que, no romance, o Partido destruiu com seu relativismo, a que assegura verdades além da soma de 2 com 2 jamais será 5, só pode ser uma tradição intelectual que conseguiu alcançar a Verdade. A mesma tradição, aliás, que consegue prever e dar motivos morais, sólidos e inquebráveis – absolutos, ouso dizer – para não colocar a Verdade nas mãos de meros arranjos sociais, mas sim fora da sociedade, fora até mesmo do mundo físico. Essa cultura é a ocidental.
Sem o Ocidente, sem seu racionalismo e sua espiritualidade, onde estariam as ciências políticas, a Filosofia, sociologia e antropologia? Onde estariam os métodos, meios e teoria que abarcam e lastram os Direitos Humanos? Onde estaria a noção de igualdade, liberdade, ordem metafísica, teoria matemática, separação do natural e do sobrenatural? Não estariam. O que os próprios filhos do Ocidente, certos historiadores, sociólogos e antropólogos, destroem – com a doce palavra “desconstrução”, que é sinônima de destruição – é a ordem lógica e as bases da Verdade que a cultura ocidental desenvolveu com os séculos. As consequências para a desconstrução do quinhão que o Ocidente efetivamente tem no mundo… talvez possam ser vistas, em parte, nos princípios das ditaduras no romance de Orwell.
[1] Ou seja: uma completa contradição embutida no próprio princípio. Qualquer trabalho embasado em tal princípio cai em um turbilhão de autonegação.
[2] Se o relativismo cultural for rigorosamente aplicado, vale lembrar que: se o melhor não existe, buscar o diferente pelo diferente se torna irrelevante. Toda a antropologia se tornaria irrelevante, uma vez que uma sociedade que é capaz de produzir antropólogos não é melhor que uma que produz saqueadores. Diferenças entre povos que saqueiam, estupram e matam outros para enriquecer, e outros que plantam, constroem e estudam para criar suas fortunas são nulas em termos de valor.
[3] E, de certa forma, também é negar parte das características do homem. As pessoas preferem vantagens à desvantagem, e qualquer cultura esboça tal fato.
[4] Por motivos cronológicos, mas também de formação civilizacional, as características (melhorias) culturais absorvidas precedem, isto é, precisam existir antes das que foram deixadas de lado ou postas em concorrência; uma vez que no exemplo citado, o revólver existiu (assim como os avanços necessários para produzir tal arma) antes do contato cultural na comparação de culturas fossem efetuados entre as sociedades do revólver e da lança. O avanço existia sem nem mesmo ambas as culturas se conhecerem necessariamente.
[5] Mas sempre odiosos e ferozes para com seus rebatedores mais audazes e sérios – uma vez que epítetos como “racista”, “etnocêntrico” e “eurocêntrico” abundam em direção a seus adversários, quando são devidamente confrontados.
[6] Eleatas eram aqueles que seguiam as premissas da Escola Eleática, um dos ramos da filosofia pré-socrática; não acreditavam no movimento e que tudo era uno. Uma das características de eleatas em debates era atacar as consequências derivadas dos argumentos do adversário.

