A Europa, nosso Velho Mundo, berço de nossa civilização, vem sendo sacudida por dois grandes debates, centrais para o seu futuro. O primeiro deles, relacionado aos conflitos e tensões do mundo islâmico, que descambam na ameaça mundial do terrorismo fanático, é a grande crise migratória de refugiados, levantando discussões e dissensões. O segundo, diretamente conectado com o primeiro, é a divisão entre as correntes políticas acerca dos limites das relações entre os países europeus no grande bloco chamado União Europeia. Por razões óbvias, particularmente o carinhosamente apelidado Brexit – a discussão sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia – chama a atenção da imprensa dos Estados Unidos.
Margaret Thatcher, a saudosa líder conservadora britânica, já antecipava os riscos representados pelo projeto da União, uma construção artificial que se justificava, em parte de seus idealizadores, mais do que em bases econômicas, em um vago sentimento de “comunidade”, de pertencimento conjunto, que nunca dialogou muito diretamente com as realidades culturais e nacionais dos diferentes países europeus. Havia o receio de que a União Europeia, como construto artificial sobre tecidos sociais alheios, ultrapassasse os limites saudáveis e razoáveis e se tornasse um peso intervencionista. Intervindo em decisões de política pública dos países membros, o centro internacional poderia se tornar um elemento a mais em um jogo de dados que, diante de crises econômicas, países endividados, estragos simbólicos provocados por governos relativistas e esquerdistas que desprezariam todo o patrimônio da civilização ocidental, tensões étnicas históricas e sentimentos reprimidos pouco felizes, poderia explodir em convulsão.
Essa questão se junta à crise migratória na medida em que os parlamentares da União tentam definir o que os governos locais deveriam fazer quanto a esse problema. Nesse grande debate, posições dogmáticas dividem o palco e simplificam o que é complexo. É claro que as guerras no mundo árabe, na Síria, o conflito contra o aterrador Estado Islâmico, enchem páginas de tragédia humanitária, e existem mesmo milhares de famílias em sofrimento, que desejam escapar dessas cenas de horror. Não nos é possível simplesmente fechar os olhos para isso. É fato também, ao contrário do que dizem os politicamente corretos, que a questão islâmica na Europa não se reduz a um problema de xenofobia, mas a uma preocupação legítima com a segurança pública e a uma militância islâmica radical e sem qualquer pudor em tentar se sobrepor à cultura local, combalida e desvalorizada, é verdade, pelos próprios europeus; também ao contrário do que eles dizem, a atração desmedida para países de maior potência econômica, ou que ofereçam generosidades extremas na forma de políticas de bem-estar social, é um problema que demanda critério na mobilização dos contingentes de imigrantes.
Da mesma forma, negar que existem partidos nacionalistas na Europa que abraçam o populismo, que defendem um modelo de Estado fechado e protecionista que não deixaria a dever a legendas de esquerda, que flertam com a personalidade despótica do mandatário russo Vladimir Putin e se aproveitam de um problema real para, combatendo a União Europeia, fazer valerem seus próprios projetos de poder não muito felizes, não parece compatível com a realidade. Porém, taxar de “extrema direita”, “fascista” ou outras bobagens qualquer legenda que se oponha à existência do bloco é de uma má fé absurda.
As implicações que esse debate apresenta poucas vezes ficaram tão perigosamente claras quanto em uma pequena matéria em que pusemos os olhos, publicada pelo The Times no último dia 24 de maio, por ocasião das eleições na Áustria. Dias antes, Alexander Van der Bellen, o esquerdista independente que veio do Green Party – um partido que, como lembra o publicitário e colunista político Alexandre Borges em sua página no Facebook, detesta a própria identidade nacional de seu país -, havia derrotado Norbert Hofer, do Freedom Party, um desses partidos nacionalistas que defendem a separação do bloco europeu.
De acordo com o The Times, a União Europeia “isolará e usará sanções contra quaisquer governos de extrema direita ou populistas” que supostamente alimentarem ondas de “ódio” popular contra a imigração. Jean Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, disse que, se Norbert Hofer tivesse sido eleito, ficaria de fora das decisões importantes e que “não há debate ou diálogo com a extrema direita”.
Reparemos: o presidente do órgão que representa os interesses da União Europeia, supostamente um bloco que congrega civilizadamente diferentes países em acordo comum, voluntariamente unidos, formalizou ameaças de atitudes contra um governo de um dos seus países-membros com base em critérios vagos que, em outras palavras, poderiam significar qualquer movimento ou decisão soberana em política pública que contrariasse as suas diretrizes.
Não estamos dizendo que a União Europeia seja a União Soviética; no entanto, está claro que alguma coisa saiu muito dos eixos. Pensemos o que quisermos, concordemos ou não quanto a essa ou aquela política migratória, essa decisão compete aos governos dos países e seus respectivos povos. Se uma estrutura “internacional”, estrangeira, desconectada da sua realidade e da sua soberania, se intromete, faz ameaças e quer ir além do que deveria ter sido projetada para fazer, alguma coisa está muito errada – perigosamente errada.
Cada vez parece mais que Margaret Thatcher tinha sua dose de razão.

