Em primeiro lugar, aos fatos: batizado em 1971 de Elevado Castelo Branco em homenagem ao primeiro presidente do regime militar, o viaduto que liga o centro da capital mineira à Região Noroeste teve seu nome “cancelado”, apesar de o povo já se ter acostumado a ele, em 2012, e, por sugestão do vereador petista Tarcísio Caixeta, foi rebatizado, em 2014, como Elevado Helena Greco. Dois anos depois, o movimento Direita Minas realizou protestos no sábado, 18 de junho, reivindicando que o nome original seja restaurado.
Os fatos se somam a outros casos como o colégio Médici, da Bahia, renomeado como Carlos Marighella em homenagem ao terrorista comunista, e a tentativa malsucedida de mudar o nome oficial da Ponte Rio-Niterói, chamada Ponte Presidente Costa e Silva – ao contrário da homônima no Distrito Federal, chamada agora Honestino Gomes. Políticos e ativistas de esquerda, desejosos de impor as consequências de sua hegemonia cultural mesmo sobre a verdade da História, tentam de todas as formas modificar os nomes de monumentos para eliminar quaisquer vestígios do passado histórico, notadamente os tempos do regime militar – conquanto manifestem seu desprezo por qualquer realização de algum momento anterior à era PT, ou, no mínimo, a 1988.
Vejamos o mérito; a ideia de modificar designações de monumentos em homenagem a personagens do passado não é, em si, de todo desprovida de razão de ser, universalmente falando. Seria difícil, por exemplo, tolerar a presença de uma Ponte Adolf Hitler na Alemanha; quando um regime comete atrocidades de níveis extremos contra todo um povo ou toda a humanidade, é natural que, por aspiração popular, pelos anseios do próprio sentimento do povo, certos vestígios em sua homenagem sejam removidos.
Não é o caso de Castelo Branco. Apesar de governar no tempo do auge da linha dura do regime, também não seria, a nosso ver, o caso de Médici. Uma reação como essa, para que pese mais do que o fato histórico – o de que tais obras foram erguidas pela gestão dos personagens a quem elas se referem, ou em época em que eles eram fortemente prestigiados -, deve ser entranhada na sociedade, e não é o caso. Muita gente, com ou sem razão, tem afinidade ou nutre até certa dose de saudosismo em relação ao regime militar dos anos 60 a 80; outros, ao menos, não se incomodam com a presença do nome. Poucos, além dos ativistas e militantes de esquerda, manifestam grandes reservas a essas presenças. Getúlio Vargas, nome de avenida importantíssima do centro do Rio, foi um verdadeiro ditador, mil vezes mais poderoso que os militares em questão, e não há qualquer intenção de mudar o nome. Mesmo eu, um lacerdista tardio, com todas as razões para ter asco de Vargas e tudo que lhe diga respeito, não me incomodo em chamar a avenida pelo nome que tem, assim como em cantarolar sambas-enredo feitos na época em sua homenagem (e que acho particularmente bons, apesar dos defeitos do personagem).
A coisa ganha mais peso se analisarmos mais detidamente os dois nomes no caso em Minas Gerais. Helena Greco, falecida em 2011, foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores e recebeu o prêmio Che Guevara (?) em 2002, entre outras comendas, por sua militância a favor dos “Direitos Humanos”. Fundar o PT e não ver incongruência em receber um prêmio com o nome de um guerrilheiro assassino comunista por serviços prestados aos Direitos Humanos, convenhamos, não são bons indicadores sobre sua personalidade.
E Castelo Branco? Algumas análises minimizam a importância de Castelo nas articulações para a deposição de João Goulart em 64; inclusive, em 55, quando a UDN questionou a posse de Juscelino Kubitschek, Castelo favoreceu o “golpe preventivo” do marechal Lott para garantir que ele assumisse. Parece que sua adesão foi tardia, comparada a outras lideranças do “movimento de 31 de março”; porém, foi escolhido pelos principais nomes políticos e militares do Brasil como o presidente unificador em eleições indiretas, por sua fama de “legalista” – o que prova que recebia o respeito de todos. Sua equipe econômica conseguiu conter a inflação. Apesar dos desentendimentos que tiveram, que não é o caso de abordar aqui, Castelo gostaria, no início, de ver em Carlos Lacerda, o grande tribuno conservador e governador da Guanabara, o seu sucessor; nunca quis que o regime se prolongasse. Era, ao que tudo indica, um homem decente. Infelizmente, cometeu muitos erros; entre eles, ser fraco em permitir uma série de atos institucionais que reforçaram o poder do aparato político de emergência, abrindo portas para que seus colegas menos lúcidos baixassem anos depois o AI-5 e implantassem integralmente um regime de exceção. Não olvidamos isso; Castelo foi o começo de um período que desvitalizou a política na sociedade civil e provocou a gênese de um drama que até hoje tentamos corrigir.
Mas, como pouca gente lembra, Castelo Branco também foi combatente na Segunda Guerra Mundial. Liderou tropas de pracinhas brasileiros na Itália. Ajudou a combater a ameaça nazifascista e fazer a bandeira brasileira se erguer em batalhas no Velho Mundo. Com todas as suas ambiguidades, com todos os seus problemas, será lícito esquecer isso? Será justo achar que Castelo Branco, que desafiou o totalitarismo europeu, se compara a alguma espécie de Hitler ou Mussolini brasileiro? Muito mais decente que Getúlio Vargas, com resultados melhores em seu governo, Castelo Branco pode sim ser o nome de uma avenida no Brasil. Pode e deve. O elevado recebeu seu nome em 71, quando eram os militares a governar o país. A Câmara Municipal da época o aprovou. Rebatizá-lo com o nome de uma petista é uma vergonha.
Frisamos: salvo em casos de extrema necessidade, quando as entranhas de uma sociedade não se conseguem pacificar de seus traumas horripilantes perante os nomes de genocidas, mudanças de nomes de ruas e construções podem fazer sentido. Uma simples observação dos efeitos que os nomes de figuras como Castelo Branco causam no grosso da sociedade brasileira prova que não é o caso. Tal investida não passa de um projeto de engenheiros sociais que desejam recriar o país à sua imagem, e com isso, desprezam a verdade histórica. Seus defensores devem demonstrar que a liberdade não pode ser entronizada em uma sociedade com base na mentira.
Esta última, a mentira, torna-se, cedo ou tarde, ela própria, a algema para uma nova escravidão, uma nova tirania, potencialmente muito pior que as anteriores.

