Passado o impeachment na Câmara dos Deputados e, em primeira fase, no Senado Federal, Dilma Rousseff não consegue ter um terço de apoio do Legislativo do país, mas não para por aí: ela não tem apoio no judiciário, pois o STF não se prontificou a justificar juridicamente o discurso de “golpe contra a democracia” feito por Dilma; não há apoio também nas Forças Armadas, onde os Generais e comandantes se mantiveram sabiamente longe da política atual. Acima de todas as Instituições citadas, Dilma caiu na opinião majoritária do povo, e não me refiro apenas à famigerada “classe média”, ou à “classe alta”. Os números dados no próprio Planalto mostram que menos de 10% da população aprovava seu governo.
O que restou para Dilma é um pouco – na verdade, muito – deprimente: um bando de militantes filiados a movimentos violentos, meia dúzia de pobres (ainda dependentes dos subornos chamados “programas sociais”), um pouco mais de indivíduos da odiada – mas convenientemente a origem social não é lembrada quando se torce para o lado deles – “classe média” e menos ainda da “classe artística”, que de arte só entendem quando o dinheiro vem da iniciativa pública. Eis o exército de Dilmãe.
E o que há “do lado de cá”? Aqui temos, basicamente, a internet e um punhado de deputados e um ou outro senador. O “lado de cá” é o lado do povo brasileiro, o lado de uma população que não é representada em suas tradições e valores na política, de uma sociedade cansada, há tempos, da corrupção endêmica na República. O “lado de cá” não é tão poderoso assim, não quando uma cleptocracia vigora na maior parte dos esquemas políticos em Brasília.
É uma questão de cenário. O quadro geral aponta uma possibilidade altíssima de Dilma afundar – mas também há a alta probabilidade de o PT não ir para as profundezas também –, porém, o mesmo quadro mostra como funciona realmente o sistema de interações políticas do país. Não é um cenário agradável. O nome de quase todos está sujo; barganham interesses, desviam verbas como se fosse a coisa mais normal do mundo, abusam da imunidade parlamentar; não produzem, não administram e as discussões no Legislativo são – a exceção de casos pontuais – baixas, com retórica pobre ou pura, sem conteúdo e praticamente marginais nas grandes querelas e questões na Nação.
Nesse quadro geral doentio e problemático do país se encontra uma disputa entre os interesses gerais do povo e os de grupos políticos de poder. No poder há os cleptocratas e um esquema de controle absurdo, uma tentativa e vontade de implementar um governo socialista aos poucos, seja nos moldes fabianos, ou nos do comunismo bolivariano – ambas formas mais atuais e dinâmicas do comunismo mais clássico.
O PT se enquadra mais no molde bolivariano, mais ácido e forte que o Fabiano, porém ainda assim significativamente mais leve que o clássico, aos conformes soviéticos. Dadas essas informações, a pergunta vem à tona: e se Dilma não cair?
Se a mais débil líder que este país já teve não for ao chão, se o partido que ela representa e sustenta não tomar esse grande “baque” que é a retirada do poder, então devemos esperar uma retaliação grande e totalmente inconsequente. O PT não vai querer deixar pontas soltas, não irá ser misericordioso ou qualquer coisa do tipo. Se levarem adiante a ideia da “tentativa de golpe” e forem corroborados por seus aliados no STF e no Legislativo, pode haver uma grande chance de quererem usar poderes extraordinários, previstos na Constituição, para se vingar dos movimentos que fizeram o PT tremer nas bases.
O uso da democracia e do aparelho burocrático para implantar regimes autoritários ou totalitários não só é possível como tem histórico: Hitler foi eleito democraticamente e usou de prerrogativas constitucionais para dar seu golpe de Estado, a Revolução Mexicana do início do século XX, da mesma forma e, por fim, a Venezuela, nas últimas décadas, cooptou o sistema estatal para seus interesses e culmina com Maduro dando um golpe neste ano… Dadas as ligações e os namoros que o PT tem com o regime venezuelano (que possui “excesso de democracia”, como afirmou o próprio Lula), não é difícil somar 2 + 2 – a não ser que “o Partido mande”, não? Aí a soma dará 5, o bolivarianismo comunista será teoria da conspiração olavette e Donald Trump é o culpado final pelos atentados terroristas.
Michel Temer prometeu que não haveria “caça às bruxas” durante seu governo… Não é inteligente esperar que o PT não faça o mesmo. Caçarão membros do judiciário, da Polícia Federal, do Legislativo e aqueles que os traíram. O PMDB será um dos mais afetados, logo depois do PSDB, DEM, etc…
O PT não tem em seu controle as forças policiais ou as três Forças Armadas do país – como Chaves e Maduro tinham –, mas ele usará de todo o malabarismo que pode ser feito dentro das leis e da jurisprudência para acelerar essa tomada de poder. As leis e os poderes do Judiciário não são absolutos, não têm imunidade perpétua a um golpe gradual e que jogue de acordo com as regras do jogo; não há como ter uma defesa 100% efetiva contra o autoritarismo e a “legitimação” que o PT teria se Dilma voltasse: quem fosse contra estaria legalmente desmoralizado, pois o processo de impeachment não daria em nada.

