Comentávamos não faz muito tempo que o predomínio do chamado “bloco bolivariano” se encontrava nos braços da crise, acuado por forças de oposição que despertavam as consciências políticas para o respiro de ares mais saudáveis. O triunfo de Macri na Argentina, o crescimento de ideias liberais e conservadoras e o andamento do impeachment da presidente brasileira Dilma Rousseff indicavam essa mudança de pêndulo.
Os acontecimentos, para nossa tristeza, estão constantemente a nos chamar à realidade e mostrar que males que fincaram fortes raízes não são tão fáceis de extirpar. Não é que estivéssemos enganados no diagnóstico; realmente, alguma coisa mudou. Pode ser, esperamos que não, apenas mais uma oscilação cíclica, após a qual o continente mergulhará novamente em seu arcaísmo autoritário e estatizante. Mas ocorreu. Porém, as forças bolivarianas não estão mortas, e em alguns lugares elas resistem com bastante fôlego.
Na Venezuela dominada pela tirania chavista de Nicolas Maduro, em que a oposição tenta de qualquer maneira levar a efeito o referendo revogatório de seu espúrio mandato, o genuíno desastre social e econômico instiga o truculento mandatário a tomar medidas absurdas. Diante da flagrante falta de alimentos, Maduro assinou um decreto obrigando as empresas do país a enviar seus funcionários para trabalhar no campo, a serviço do governo, por um prazo de 60 dias. As imagens de multidões correndo atrás de parcos recursos em filas e saindo do país não permitem mentir e essa novidade revoltante as torna ainda mais justificáveis.
Maduro pretende supostamente retirar a Venezuela do sufoco, mas o “faz”, depois de adquirir grandes poderes mediante a determinação do “estado de emergência”, estabelecendo nada menos do que o “trabalho forçado”, intervindo nas decisões dos agentes econômicos da maneira mais radical possível e controlando diretamente a força de trabalho. Trata-se de uma interferência inteiramente abusiva e descabida, que nos faz rir dos pândegos que debocham de nós quando falamos palavras como “comunismo” e “socialismo” em “pleno século XXI”. Pois é, aí está. Que nome vocês dão para isso? Inspira-se Maduro no capitalismo liberal para estabelecer medida tão asquerosa?
Para além da miséria venezuelana, a Nicarágua também enfrenta dias de apreensão. Em seu terceiro mandato, o presidente Daniel Ortega – assim como Dilma, ex-guerrilheiro, e líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional – tomou uma atitude temerária. Na última eleição, acusado de fraude – um discurso que aparece com frequência por estas bandas, quase sempre com boas razões para tal -, Ortega recebeu do Tribunal Eleitoral amplo controle do Parlamento, para retirar cargos dos deputados oposicionistas. O Tribunal determinou que a diretoria da Assembleia Nacional retirasse os cargos dos deputados eleitos em 2011 pela principal legenda de oposição, o Partido Liberal Independente.
Confirmando-se isso, Ortega praticamente concorreria sozinho, sem nenhum adversário de expressão, nas próximas eleições. Os filhos do presidente já chefiam empresas estatais, segundo a bacharel em Relações Internacionais Jamile Calheiros, e ele deve apontar nos próximos dias seu vice, já esquematizando a geração de um sucessor. Na prática, através de suas manobras, Ortega está concentrando os poderes do país nas mãos de um único partido soberano, o que é a receita para um desastre ditatorial.
Essas figuras foram as mesmas que, afetando a mais expressiva “tendência democrática”, acusaram o Brasil de estar promovendo um “golpe de Estado” ao depor Dilma Rousseff. Durante todo o período lulopetista, nosso país, hoje atacado por esses diminutos trogloditas, patrocinou suas loucuras, protegeu e rendeu loas aos seus delírios e aos seus horrores.
Denunciar as atrocidades desses maníacos e enxotar Dilma do posto, o que deve acontecer definitivamente até o fim deste mês, não é mais do que o prólogo de um longo livro de medidas, atitudes e reformas que precisamos fazer para reparar os compromissos e responsabilidades que assumimos ao acobertar, sob nossas asas, o pranto dos nossos vizinhos, e capitanear o atraso da nossa própria terra e de todo o continente.

