Com as eleições municipais batendo à porta – eleições essas que, realizadas no coração de uma fase conturbada e polarizada do mundo político no Brasil, são de importância decisiva para o futuro próximo -, os debates já começam a exibir suas pérolas. Na tentativa de se destruírem uns aos outros, os candidatos manipulam a História e lutam para mascarar a verdade. Ontem, no debate para a Prefeitura do Rio, isso ficou evidente em discussão entre Pedro Paulo (PMDB) e Jandira Feghali (PCdoB).
Pedro Paulo, naturalmente atacado de todos os lados por representar a situação, lembrou Jandira de que ela está se aliando ao Partido dos Trabalhadores, de Dilma Rousseff, contando, inclusive, com os ilustres apoios diretos de Dilma e Lula, presentes em sua campanha e seus comícios. Disse ele: “Quem quebrou o país? A aliança que você está construindo”, ou seja, o PT. Pedro Paulo tem toda a razão. Realmente, Jandira, que já deveria ser rejeitada pelo simples fato de representar uma legenda de origem maoísta, ostentando o emblema de uma ideologia intrinsecamente totalitária e assassina, está construindo um acordo com o partido mais importante da Nova República até o momento – importante na mesma medida em que destrutivo. O PT devastou a economia, construiu uma engenharia de corrupção extremamente complexa, sustentou esteticamente a ode à ignorância e a demolição de todas as melhores bases culturais e as mais elevadas referências simbólicas. É um bastião da mediocridade, que atrasou em muito tempo as possibilidades do Brasil. É com esse legado que Jandira se une, é a essa herança maldita que ela se alia, é essa vergonha nacional que ela quer tornar protagonista, ainda mais, no Rio de Janeiro.
Muito que bem. Mas teria o senhor Pedro Paulo o direito de dizer alguma coisa a respeito? Sentimo-nos no dever de dizer que não. A verdade precisa ser dita: o PMDB de Pedro Paulo, hoje acusado pelos petistas e seus sequazes remanescentes de “golpista” e “reacionário” por conta da “traição” de Eduardo Cunha e Michel Temer, foi CÚMPLICE DO PT durante todos esses anos. A Lava Jato demonstra que o PMDB e o PP, sobretudo, compondo com o PT a base aliada do governo – o PMDB, particularmente, desde a posse de Lula em seu hoje já distante primeiro governo e suas negociações para costurar a “governabilidade” -, foram fundamentais para a sedimentação do regime lulopetista. O sistema como um todo não seria viável se apenas o PT participasse dele.
É preciso chamar o PMDB a reconhecer as suas responsabilidades históricas. No passado, nos estertores do regime militar, quando se delineava o edifício atabalhoado da Nova República, foram eles, principalmente, pelas suas dimensões, que, na configuração da Constituição de 1988, fizeram-na revestida, como bem salientava o saudoso Roberto Campos, de uma aura nacional-populista, de confiança irrefletida no potencial do Estado de espalhar benesses e de depreciação crônica da iniciativa privada – a despeito da previsão, em artigo isolado e paradoxal, do respeito à “livre iniciativa”. Havia homens de notório talento, apesar das ideias equivocadas, em seus quadros, como o tão lembrado Ulysses Guimarães; mas a coisa toda já nasceu errada.
Os caminhos que seguiu só a deixaram mais torta. Primeiro ao lado do PSDB – que, pondo de lado a consolidação meritória do Plano Real e da Lei de Responsabilidade Fiscal, conquistas forçadas muito mais pelas necessidades que por convicção, representou uma fase do que alguns sabiamente chamam “consenso social democrata”. Depois, ao lado do PT, arrebatando cargos e polpudas “esmolas” das verbas públicas e de empresas estatais. O PMDB se tornou a casa do fisiologismo “doutrinário” – isto é, o fisiologismo como regra. Jactando-se de seu suposto passado como “representação partidária da restauração democrática”, o PMDB contribuiu para manter a democracia brasileira uma estrutura disfuncional, e para fazer da Nova República uma concepção demagógica e baseada nas coalizões questionáveis e no sistema proporcional decadente. Impediu uma radicalização ainda maior do projeto bolivariano, serviu como uma espécie de “moderador” do país, e acabou detonando institucionalmente o impeachment de Dilma, é verdade – mas apenas porque viu seu próprio calo pisado. Desenhou seu poderio à base de caciques e oligarquias regionais que o mantiveram como o maior partido do país, e venderam a alma ao líder carismático que arrebatou o poder federal – a ponto de Eduardo Paes, o criador de Pedro Paulo e prefeito atual do Rio, se dizer um “soldado de Lula”.
Considerando que Michel Temer não seja cassado pelo TSE e que a Lava Jato não o complique, eu torço por que ele faça um governo de competência histórica e realize as reformas emergenciais de que o Brasil necessita. Caso Pedro Paulo acabe vencendo as eleições no Rio, através do poderoso marketing e do uso da máquina que sua campanha vem empregando, também esperarei que de seu governo consigamos extrair o melhor possível para nossa cidade. Torcer pelo melhor não me fará oferecer a eles o direito, porém, de apagar a História. O PMDB não pode fugir às suas responsabilidades históricas, e qualquer coisa positiva que consiga realizar será apenas um ensaio de pagamento das suas enormes dívidas para com o Brasil.

