“Quando vossa riqueza prospera
Não ponhais nela vosso coração!”.
Salmo 62 (61), 11.
O que é o liberalismo clássico? As primeiras coisas que vêm à cabeça, possivelmente, são a liberdade de mercado, a necessidade do cálculo econômico e análises de sociedades que dependem do comércio e do consumo para se sustentarem. Pois é… Essa primeira vista é, justamente, a mais correta de todas!
Adam Smith, em seu clássico “A Mão Invisível”, argumenta que vale mais um dono do seu próprio negócio saber o que se deve ou não fazer com suas propriedades e mercadorias que um burocrata distante, pregado em seu escritório e sem a interação, conhecimento e vivências necessários para gerir uma economia. Desta forma, os produtores, vendedores e prestadores de serviço saberiam manejar suas ações econômicas com mais habilidade, maestria e seriedade que um servidor público (normalmente) incapaz.
Para o que foi dito acima se concretizar, de forma correta, são necessárias coisas como a propriedade privada, a pouca interferência do Estado na Sociedade e a retirada da intervenção na economia. Pronto, eis o liberalismo. Fácil, simples e movido por uma lógica quase que matemática e de uma análise prática. Isso se configura, porém, em uma ideologia?
O liberalismo de Smith tem como consequência uma mudança legal, judicial e social em uma sociedade que, se for implementado, necessitará dessas mudanças para diminuir o inchaço estatal, a importância dos funcionários públicos e a máquina burocrática; tudo isso além de um suporte cultural que pode, querendo ou não, justificar o Estado grande, impostos altos e intervenção na economia. Até agora, ele parece com uma proposta de futuro, não uma teoria com base analítica… se ela não tivesse sido moldada em condições analíticas.
O liberalismo não se encaixa em uma “ideologia” porque sua base é a observação de competências. Como dito acima, é como uma conta, um dado matemático. É observado que quanto mais longe o burocrata fica dos negócios, mais eles prosperam, mais o capitalista fica rico, mais ele contrata; mais setores de consumo são criados, mais bens barateiam. Isso ocorre em uma sociedade com ou sem uma cultura que favoreça o liberalismo – basta apenas uma seção da política reguladora de um país, qualquer país, ser mais frouxa que a outra e se verá um florescimento de mercado e riquezas proporcional às áreas e ao afrouxamento da regulamentação. Outros exemplos mais claros podem ser dados: em cidades (digamos, de localização próxima, ambiente similar e tamanhos parecidos em população e território) onde a regulamentação é baixa devido à incompetência da sua máquina pública, é mais provável de existirem comércios mais rentáveis que em municípios menos incompetentes.
Isso não se configura em uma ideologia, mas em um fato já dado na realidade. Adam Smith “apenas” coletou informações que poderiam ser facilmente evidenciadas e apontadas em um sistema social já existente. Smith também se mantinha muito atento ás questões morais presentes no “jogo” econômico. Um dos seus argumentos é o da moralidade, onde seria mais justo para o empresário o fato de o burocrata não o impedir, pois membros que compõem a burocracia não sabem o que é viver e se empenhar no mundo do mercado.
Uma ideologia – desde que não se refira ao significado literal de “ideologia”, pois aí qualquer conjunto de ideias poderia ser taxado nesse termo – tem como característica a visão do futuro para determinar o passado e o presente, não o uso do passado para compreender o presente e do presente para tentar determinar o futuro. A inversão temporal e retroativa existente nas ideologias é o que causa o fracasso de todas elas, pois usam de seus próprios tempos e ideias para um futuro que, por fim, iria balizar todo o passado e presente. O fato de esse futuro ideológico jamais ter chegado para nenhuma ideologia não é coincidência. Ideólogos têm deficiências graves para analisarem qualquer realidade por conta da inversão dos tempos referenciais.
Adam Smith não era um “ideólogo”, não criou nenhuma ideologia, mas um sistema de ideias concreto, com o “pé no chão”, baseado no real e no que era tangível e verificável. Por isso que, querendo ou não, o liberalismo não possui uma solução final.
Não existe teoria verdadeiramente liberal que proponha uma “sociedade melhor”, um futuro cor-de-rosa totalmente perfeito e sem mazelas para o Homem. Trata-se de uma proposta “meramente” econômica, tratando exclusivamente das relações existentes no mercado e de como melhorá-las para o enriquecimento geral da população. Não há projeto de futuro, não há promessas de paz mundial, fim da discriminação, da corrupção, dos maus-tratos e das injustiças da sociedade. Nada disso tem relação com o liberalismo econômico.
Não que a proposta liberal não preveja bens gerais para o futuro. Uma população mais rica é uma população sem problemas nutricionais – no que tange à falta de alimentação –, mas não significa que será uma população saudável ou com hábitos alimentares corretos; num mundo totalmente liberal, a discriminação racial não faria sentido, uma vez que o mercado de trabalho exigiria uma cooperação e entendimento para a melhor otimização dos serviços; mas ocorre que coisas como discriminações e preconceitos não são total e diretamente ligadas a relações de trabalho ou tratos econômicos. Uma população mais rica não é sinônimo de uma população mais tolerante.
O liberalismo não propõe uma solução para todas as mazelas do Homem pelo fato de ser embasado e sustentado pelo Homem. Basta uma análise simples do pensamento liberal e se chegará à conclusão de que ele não resolve nenhum mal do Homem, não possui o interesse de resolver e não resolverá. Tudo de bom e justo que o liberalismo traz não termina por solucionar nada em totalidade. Mesmo mais rico em si, o mundo continua mau, as pessoas ainda são azedas e a sociedade injusta.
E aqueles que tentam acoplar ao liberalismo uma solução desse nível? Uma solução final, buscando uma escada para a justiça absoluta no mundo do futuro? Quem assim pensa, ou pior, age, perderá o que há de essencial no liberalismo: sua base no real, no Homem. Creditar aos bens econômicos e materiais o futuro humano é crer que apenas a economia rege a vida humana; porém, se assim fosse, por que ainda estaríamos diante de tantos males?
Se a riqueza pessoal resolvesse todos os problemas de um indivíduo, por que os países com mais riquezas são aqueles, também, com altos índices de depressões e suicídios? Se a riqueza traz felicidade, se é nela que devemos depositar nossos corações com total confiança, então por que prezar pelo bem do outro, por fazer a coisa certa, caso isso nos empobreça? Embasar-se na ascensão monetária para nortear a humanidade toda, ou mesmo um indivíduo, é acabar por dar fim ao que é necessário para preceder uma economia liberal: uma boa moral pública, um bom convívio, valores perenes e absolutos.
O liberalismo não nasceu de si mesmo, mas de sociedades humanas especificas e com culturas já delineadas. Ele é um “produto cultural”, digamos. Mesmo que ele seja praticável em qualquer sociedade, a formulação e a sistematização de uma teoria liberal dependeram de conceitos e teses teológicas e filosóficas[1] formuladas antes de uma tese liberal exercer influência na sociedade, ou seja, em sociedades não-liberais.
Colocar nos “ombros” do liberalismo toda a marcha humana para um pretenso futuro é se esquecer dos princípios que o fundamentam; é como querer que a liberdade econômica resolvesse os assuntos e se desvinculasse totalmente daquilo que a precedeu, é colocar o futuro na frente do passado, a carroça na frente dos bois. Nesse caso o liberalismo é corrompido, pervertido e, aí sim, transformado em uma vazia e inócua ideologia.
[1] Apesar de me concentrar em Adam Smith e, portanto, na sociedade inglesa do século XVIII – que é o foco de Smith –, vale lembrar que, cronologicamente, as primeiras teorias liberais nasceram de discussões sobre teologia moral por padres espanhóis na universidade de Salamanca, no Reino da Espanha.

