Nossos governantes e representantes há muito se julgam verdadeiras sumidades, mensageiros irretocáveis dos nossos anseios e das nossas expectativas de futuro. Sua arrogância e sua conversão a todos os tipos de causas infames e degradantes já penetraram em novo nível de imoralidade: a manipulação da História. A Organização das Nações Unidas e sua agência especializada, a Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), existem, em tese, desde a falência da Liga das Nações, para promover a cooperação internacional. Foram, porém, contaminadas pela mesma doença.
Acham os membros da ONU e da UNESCO que podem não apenas propagandear e alastrar todo tipo de agenda hipócrita e deformadora da sociedade, fazer comentários contra este ou aquele candidato de uma eleição de um país soberano (tal como fizeram em relação a Donald Trump nos Estados Unidos), abrir suas vastas asas para encobrir o mundo em um purulento mar de politicamente correto e “progressismo” político vazio; não; eles agora podem também apagar o passado, mudar os fatos, reconstruir o mundo desde o Jardim do Éden como eles acham que deveria ser, ou deveria ter sido. Podem a ONU e a UNESCO estabelecer que os portugueses não têm ligação alguma com o Brasil, e, portanto, nossa colonização foi uma miragem? Podem eles dizer que a Torre Eiffel nada tem a ver com Paris? Ou que a Estátua da Liberdade é um emblema islâmico? A julgar pelo que acabaram de fazer em relação a Israel, podem.
Em resolução aprovada na quinta-feira, dia 13 de outubro, os países da UNESCO que tomam parte na deliberação simplesmente definiram, com 24 votos a favor, 26 abstenções e apenas 6 votos contra, que o Muro das Lamentações e o Monte do Templo, em Jerusalém, são sagrados “apenas para os muçulmanos”, e que os judeus não teriam, por conseguinte, qualquer “conexão” com eles. O local onde estaria o templo de Salomão, onde estava o templo de Herodes, inegavelmente relacionado ao patrimônio cultural do Judaísmo, simplesmente, pelo poder da caneta, não tem “nada a ver” com os judeus. Em discurso inflamado e oportuno, o premiê israelense Benjamin Netanyahu denunciou a má vontade para com Israel e a fraude moral da ONU e da UNESCO que, politizando uma discussão histórica e cultural apenas para castigarem ainda mais a pequena nação – alvo de tanto ódio e inveja ao redor do mundo -, agem como se pudessem, por exemplo, alegar que a muralha da China nada tem a ver com a China, ou as pirâmides nada têm a ver com o Egito.
Você não precisa sequer ter um lado nas polêmicas sociais e políticas que têm lugar naquela complicada região do Oriente Médio, mas é uma questão de mínima honestidade intelectual reconhecer que a conexão dos judeus com a região não deveria ser passível de discussão. O que mais causa espécie é que, ao lado dos palestinos, com apoio de nações islâmicas como Egito (enquanto não lhe retiram a conexão com as pirâmides!), Argélia, Marrocos, Líbano, Catar, Sudão e Omã (uma monarquia absolutista!), está, vejam só, o Brasil. O BRASIL! Vínhamos elogiando com justiça o nosso “chanceler” José Serra, mas o Brasil aqui mandou mal de tal maneira que nos obriga a questionar em que pé estamos nesse aspecto, qual a posição que queremos ocupar no mundo. A nação que abraçou o PT, que por muito tempo acreditou que Lula havia descoberto o país, se livrou do governo Dilma, mas segue acreditando que a verdade dos fatos é fluida a ponto de estar tão-somente ao alcance da caneta!
De certo, apenas que, em um mundo em que as esferas institucionais mais abrangentes e “respeitadas” – pelos tolos – estão sequestradas pela bizarrice, pela mentira e pelo destrambelho, nossa sanidade mental e social há de depender da união de vozes isoladas, a clamar pelo razoável e exigir o respeito ao óbvio.

