Photo: By Benjamin Olivo, For MySA
Nós até entendemos o estado de nervos dos nossos coleguinhas vermelhos. Talvez eles não se recordem de um ano em que tenham apanhado tanto da opinião popular, em que tenham fracassado de maneira tão retumbante as suas tentativas de seduzir o público com narrativas abstratas e incongruentes. 2016 nunca descerá bem para eles. Isso não torna as reações destrambelhadas mais admissíveis.
No Brasil, em 2014, em eleição em que o ministro Dias Toffoli destinou a uma equipe restrita de técnicos, sem muita transparência e fiscalização, a contagem dos votos, e em que as urnas eletrônicas mais uma vez estiveram sob merecidas suspeitas, as marteladas de ódio dos petistas se saíram triunfantes e Dilma Rousseff, a presidente mais incapaz da nossa história, foi bizarramente reeleita. Não se viram tanques nas ruas, não se disparou um único tiro. Mesmo com bons motivos para questionar a legitimidade da própria eleição em si (aliás, com a chapa PT-PMDB ainda hoje em julgamento no TSE por uso de recursos da corrupção da Petrobrás), o resultado, a princípio, do voto da maioria foi respeitado. Ocorre que, conquanto já então evidentes para os analistas mais argutos, os efeitos do delírio irresponsável e da gigantesca fraude fiscal se revelaram em uma profunda crise da qual ainda não saímos, e mais e mais escândalos vieram à tona.
Seguindo todas as regras constitucionais, a presidente foi deposta em um processo de impeachment e seu vice Michel Temer assumiu, iniciando um programa de altos e baixos, mas que vem se destacando por propostas no mínimo razoáveis, como a PEC do teto de gastos públicos e a reforma do Ensino Médio. Como sempre, as esquerdas radicais e os rescaldos do petismo não querem nem saber: de manifestações de rua contra o governo, dos gritos histéricos contra o “golpe de Estado”, eles passaram a uma sucessão de invasões de colégios claramente orquestradas, buscando o brado desrespeitoso do capital político que lhes restou. Prejudicaram o ENEM, as eleições municipais e o direito dos estudantes de, naturalmente, estudar. Não se importam com isso: o que aconteceu e acontece é, dentro da narrativa deles, um “golpe permanente”, que justifica uma rebelião imatura de meninos mimados.
Nos Estados Unidos, não houve impeachment. Houve uma eleição e, como largamente alardeado, Donald Trump derrotou Hillary Clinton no colégio eleitoral – embora tenha perdido no voto popular geral. O sistema americano é assim desde a origem da pátria, forjada pelos memoráveis pais fundadores que a esquerda mais pronunciada daquele país parece querer ignorar: George Washington, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e cia. O vencedor em um estado leva todos os delegados daquele estado, e o que importa mais para a definição do presidente é o número de delegados conquistados e não o montante geral de votos no país. Cada sistema tem suas vantagens e desvantagens, mas esse em particular, que dá importância especial a cada estado e leva os candidatos a realmente se esforçarem por fazer campanha em todos os locais decisivos, é a tradição institucional da admirável potência do Norte, que trouxe os americanos até este seu 45º presidente.
Contudo, a partir da choradeira vergonhosa da imprensa esquerdista e de “luminares” oriundos da cultura pop, como Miley Cirys (justiça seja feita, esta cantora juvenil disse que “aceita” Trump como presidente; ele deve agradecer, afinal sem isso, jamais tomaria posse!) e Lady Gaga, começou um bafafá pedindo mudança urgente no sistema eleitoral e até uma autêntica “virada de mesa” – isto é, um golpe de Estado – para esta eleição. Paralelamente a esse coro e a sessões ridículas de choradeira – confira alguns exemplos comoventes abaixo -, manifestações de rua começaram em algumas regiões americanas para atacar o presidente eleito.
O dedo do bilionário George Soros, um verdadeiro câncer moral que financia, em nome das abstratas ambições globalistas, tudo quanto é escória política mundo afora, está também por trás de boa parte desses eventos em que vemos bandeiras comunistas e imagens de Che Guevara pululando em plena terra da liberdade. Isso não é nada, porém, perto da concordância de BRASILEIROS a esse respeito! A jornalista Miriam Leitão, moradora de um país que presenciou golpes militares, estados de sítio e Constituições fajutas, um país que elegeu Lula e Dilma, acha que os EUA precisam “rever sua democracia”! Isto porque, elementar, venceu um candidato que a desagrada.
Por mais que se questione o seu sucesso eventual, apesar das tensões que se verificam entre seus vértices – tal como dizia o economista e pensador austríaco Hayek -. ainda estamos entre os que defendem os moldes da democracia liberal como um ideal de tolerância e modéstia nas pretensões sociais. Representativa por excelência, essa democracia demanda a participação da vontade popular, mas condicionada a regulamentos e legislações, funcionando dentro de uma estrutura pré-definida. Dos Estados Unidos ao Brasil (onde, particularmente no Rio, a esperança da fina flor da esquerda carioca, Marcelo Freixo, foi derrotada pelo evangélico Marcelo Crivella, e o PT foi massacrado país afora nas eleições municipais), passando pela Colômbia – que rejeitou popularmente o acordo de paz com as FARC, insistência de seu atual governo – e a Inglaterra – que cerrou os ouvidos para o pânico dos idólatras dos burocratas de Bruxelas ao aprovar o Brexit -, a esquerda vem assistindo à democracia golpeando os seus objetivos, seus delírios e pretensões. Sua resposta é o esperneio infantil.
Seja perante o impeachment, inerentemente constitucional, seja perante um presidente que não lhes cai bem, as esquerdas reagem da mesma forma: lançando descrédito às regras do jogo. Este ano, mais do que as regras do jogo, elas se enojaram também com a “vontade popular” que tanto se põem a exaltar. Pelos dois vértices, o ditame da maioria e o arcabouço do Estado de Direito e dos dispositivos constitucionais, a esquerda, em sua arrogância, levou uma surra inesquecível. Oxalá isso a faça amadurecer. Difícil.

