Créditos da imagem: Agência O Dia
Enfim chegou o ano de 2017, 2016 já ficou para trás e, com ele, as gestões municipais se encerram e novos prefeitos assumem. Um filme que tem novas cenas e novas características, já que poderes até então enraizados, como o PT, levaram surras nas urnas. Algumas cenas, porém, lamentavelmente se repetem. Foi o que constatamos nas reações de parte da imprensa e de alguns “mimizentos” ao discurso de posse de Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro.
Não tanto pelas medidas anunciadas por Crivella, que não trazem grandes novidades ao que já se havia revelado. Retórica de austeridade, “é proibido gastar”, corte de secretarias pela metade, demissão de comissionados, parcerias público-privadas, e um sem-número de prazos para a realização de estudos sobre diversas áreas de atuação da Prefeitura – sobre as quais, portanto, não há qualquer detalhe mais específico ou qualquer medida concreta anunciada. Nas secretarias, já se sabia: realmente pesaram indicações políticas e não técnicas, mas o poderoso PMDB do Rio ficou totalmente de fora – o que não deixa nem a esquerda, nem a direita infelizes, mas pode complicar a governabilidade do prefeito do PRB.
Não é de nada disso, porém, que queremos falar. O que será de Crivella, ele vai decidir; a partir de agora, depois que a sombra do extremismo psolista foi afastada, ele, até segunda ordem, precisa mostrar a que veio e provar, contra todo o nosso ceticismo, que não é mais uma liderança de estirpe medíocre e provinciana das que temos tido em nossa cidade e nosso estado. O que nos chama a atenção são as manchetes ressalvando que, em seu discurso de posse, o evangélico falou em Deus. Isso porque Crivella agradeceu a Deus, aos evangélicos de diversas denominações que o apoiaram, e também fez menção aos católicos, dos quais conseguiu se aproximar. Atenção: não houve qualquer declaração atentatória à dignidade de outros cultos ou crenças, não houve qualquer incitação ao ódio, não houve o anúncio de qualquer medida de censura ou perseguição. Um evangélico simplesmente assumiu um cargo para o qual foi eleito e agradeceu à divindade em que acredita.
Pronto! É o bastante para aqueles que enxergam extremismo em cada manifestação cristã alardearem o quanto tinham razão, o quanto espíritas e afro-cultistas serão perseguidos, o quanto a teocracia se aproxima de se abater sobre nós… Este espírita que vos escreve não tem qualquer constrangimento em apontar a bobagem nesse tipo de desespero, matraqueado em nome da paz e da tolerância religiosa, mas, na mais vulgar distorção orwelliana, veiculando a mais explícita das intolerâncias. Afinal, o evangélico ou o católico são os únicos que não têm o direito de expressar suas fés no espaço público sem a ânsia da censura. Onde o escândalo quando a Câmara dos Deputados sedia sessões solenes, por exemplo, em homenagem ao dia da Umbanda? Onde o horror das esquerdas radicais, “prafrentex” e multiculturalistas, na mesma estridência com que condenam o pastor que faz críticas a outras religiões do seu púlpito, perante o terror islâmico que nega o direito à vida àqueles que as praticam? Onde há mais amor à liberdade: da parte daquele que critica ou da parte daquele que quer calar? Falar em Deus na posse é inaceitável; falasse Crivella em Alá, em Oxalá ou, quem sabe até, em Karl Marx (profeta de uma autêntica “religião política”), ouviríamos, das mesmas pessoas, o mesmo barulho?
Aqueles que gostam de se julgar a vanguarda do mundo apelam para a autoridade do ano, como se o “avançado” fosse sempre um mero reflexo das suas mentes tortas. Então proclamam: “Em pleno 2017… Em pleno século 21… Em pleno Estado laico…” Pois, fazendo o jogo deles, questionamo-nos por nossa vez: em pleno século 21, como podem não entender a diferença entre um Estado laico, na acepção respeitável do termo, e um Estado ateu? Não obstante seja verdade que existe uma raiz religiosa em basicamente todas as culturas, e que em boa medida nossos melhores valores de tolerância se devem às bases cristãs do Ocidente, o ideal para garantir essas liberdades e essa tolerância é que nenhuma religião disponha de proteção especial do Estado ou privilégios em relação às outras, e que todas gozem da mesma liberdade para se expressarem e, por que não, criticarem umas às outras – porque o respeito não implica concordância, nem silenciar sobre as oposições inevitáveis de princípios entre elas. No momento em que esse estado de coisas estiver sob ameaça, no interesse das minhas próprias convicções, tenham certeza de que serei o primeiro a me insurgir. Não o farei, porém, para parecer antenado às modinhas esclerosadas e destemperadas de hoje.
Os cargos públicos são ocupados por representantes da sociedade, que se confundem com ela e são parte dela, boa ou ruim. Tem suas crenças, suas opiniões, suas adesões religiosas, seus times de futebol. Expressar o que pensam, “contaminar” esteticamente suas declarações públicas com parte do “material” simbólico e teórico que faz deles o que são, é nada mais do que natural e só constituirá problema à liberdade caso se transforme em um ativismo censor. Ativismo censor, precisamente, do gênero praticado por aqueles que enxergam nisso uma ameaça teocrática. Os verdadeiros defensores da liberdade e da ordem não se escandalizarão, por ateus que sejam, com a menção ao nome de Deus. Que Crivella, se for o caso, seja contestado pelo que fizer e não fizer, não pelo que disse neste primeiro de janeiro.

