“Anteontem, meu filho estava andando ouvindo música brasileira no fone de ouvido – está com mania de Seu Jorge, creio eu – e uma pessoa parou ao lado dele e o olhou, incomodada. O sujeito simplesmente puxou o fone de ouvido dele, o empurrou e falou assim: ‘volta pro seu país, sua bicha’.” Segundo a repórter da Globo News, Sandra Coutinho, em comentário ao vivo no programa Em Pauta, esse fato ocorreu com seu filho Gabriel em Nova York. Ela tem absoluta certeza de que tal hostilidade é um prenúncio do que chamou de “Era Trump”. A ideia, tanto dela quanto dos demais realizadores do programa, era “discutir” se o “discurso controverso do presidente eleito influencia comportamento do americano comum”.
Não me cabe, nem jamais caberá, decretar a verdade ou a falsidade de um relato sem evidências cabíveis para bater martelo nessa ou naquela direção. Por mais estranha que a história me pareça, e confesso que me parece, nos termos em que está apresentada. Tem todos os ingredientes daquilo que o escritor e analista político Flávio Morgenstern chamou de “fanfics de esquerda” – historietas de uma conveniência beirando o caricatural para as narrativas da turminha “do lado de lá”.
Sandra nos está pedindo para acreditar que, em uma das cidades mais cosmopolitas – e, inclusive, de ampla maioria Democrata – dos Estados Unidos, o fone de ouvido de seu filho estava ligado em um volume alto o suficiente para um troglodita xenófobo reconhecer a música brasileira e exigir que ele retornasse ao seu país, além de insultá-lo com uma referência pejorativa a uma presumida homossexualidade. Impossível? Talvez não. Provável? Tampouco.
O que podemos atacar, qualquer que seja o caso, é a inferência da repórter. Nossa esquerda – e deve ser desnecessário frisar que a mentalidade do grosso da classe jornalística merece, sem nenhuma reserva, figurar sob esse rótulo – é especialista em misturar alhos com bugalhos e atribuir responsabilidades a terceiros por atos de segundos ou primeiros.
Ora, verdadeira, falsa ou exagerada, o que essa história revela? Longe de mim menosprezar o poder das ideias ou discursos; se assim pensasse, cessaria de escrever imediatamente. No entanto, o que temos – em tese – é o ato isolado de um antissocial contra um rapaz estrangeiro. O que Donald Trump, magnata com negócios lucrativos em diversos países, precisando dialogar constantemente com estrangeiros, tem a ver com isso? Qual a responsabilidade que lhe cabe?
Outro detalhe: temos aqui um insulto de viés homofóbico. Ora bolas, onde a homofobia de Donald Trump? Onde o Republicano se portou de alguma maneira em afronta à própria comunidade LGBT? Sob esse aspecto, aliás, não receio dizer que somos mais conservadores do que ele; Trump já se manifestou favorável a que transexuais frequentem banheiros femininos, se assim preferirem, o que em nossa modesta opinião é um franco absurdo.
Então, como taxá-lo de inimigo dos gays? Com base em que argumento um magnata do entretenimento, dono de redes de hotéis e cassinos, showman, que não tem absolutamente nenhum resquício de qualquer coisa que poderia ser rotulada como “moralidade pudica”, vai ser gratuitamente considerado responsável por ofensas a orientação sexual?
Expandindo o questionamento: afinal, por que um presidente eleito que sequer foi empossado é responsável por todos os males sociais de um país? A esquerda americana – e, pelo visto, a brasileira – se especializou em um exercício criminoso e retórico de projeção futurológica. Se algum dos seus desafetos tem a perspectiva de assumir o poder, ele não é responsável apenas pelo que será, mas também pelo que é e pelo que foi. Não me surpreenderei em vê-los associando Donald Trump à segregação racial do século XIX ou à Guerra Civil americana (!).
A história estranha ligando o fone de ouvido, o filho de Sandra Coutinho e o presidente eleito Donald Trump é estranha, e é tudo que posso dizer de forma categórica sobre ela. A inferência da repórter, no entanto, é explicitamente absurda, ainda mais digna da nossa reprovação por vir de uma jornalista que é correspondente internacional. Não satisfeita em alimentar a velha confusão entre a oposição à imigração ilegal e a xenofobia gratuita, Sandra inventa agora um homofóbico que não existe, e dilui a responsabilidade individual em um fenômeno coletivo vago e sem qualquer sustentação científica, suposta e etereamente embasado nas palavras de um homem que foi legitimamente escolhido pelo povo americano para presidir aquele país.

