Ao passar da vitória esmagadora – pelas delegações – de Donald Trump nas eleições estadunidenses, várias opiniões contrárias, coléricas e enérgicas (apoiando-o, denegrindo-o, ou até mesmo militando por tolerância, ou indiferença para o fato) surgiram pelo mundo, fosse nas universidades, fosse nos jornais, televisões, e, principalmente, pelas redes sociais. A internet veio, claro, para expor mais amplamente a opinião de qualquer um que tenha acesso a ela e, portanto, o fenômeno das redes online serve, e muito, de fonte para verificar comportamentos variados das massas a respeito de qualquer tema delicado.
Em face dessa relativamente recente querela de poder[1], envolvendo o maior país – em termos econômicos e militares – do globo, é curioso notar certas perspectivas antropológicas existentes na política ocidental. Como a antropologia é um dos estudos que miram no Homem, ainda que esteja aliada à sociologia nesta tarefa, seu uso para analisar e entender o que se passou e como se opera a política (em uma ótica cultural) nas mídias – com total atenção para a internet e sua reflexão nas ruas – é uma possibilidade.
Como referência basilar, a antropologia de Franz Boas (1858-1942), esta que estreia a antropologia cultural em detrimento dos métodos comparativos de sua época, servirá para tratar da cultura política atual, esta que pode ter seus traços definidos, no quadro geral, por ambientes de culturas distintas.
Boas, em seu ensaio chamado “As limitações do método comparativo”, assim diz: “Não se pode dizer que a ocorrência do mesmo fenômeno sempre se deve às mesmas causas, nem que ela prove que a mente humana obedece às mesmas leis em todos os lugares. Temos que exigir que as causas a partir das quais o fenômeno se desenvolveu sejam investigadas, e que as comparações das mesmas se restrinjam àqueles fenômenos que se provem ser efeitos das causas” [2]. Ele assim diz porque os Homens não funcionam como um mecanismo de um relógio, seja em sua psique, ou em sociedade.
A cultura, no entanto, possui um lugar privilegiado na existência humana: “Toda tentativa de deduzir as formas culturais de uma única causa estará fadada a fracassar, pois as diversas expressões da cultura estão intimamente inter-relacionadas, e uma não pode ser alterada sem afetar todas as outras. A cultura é integrada” [3].
Na política, portanto, tal integração afeta a tudo. Havia, por exemplo, no discurso anti-Trump, uma propensão a atribuir, tanto a ele quanto a seus apoiadores, “razões supremas” para a vitória e todo o apoio popular que o atual presidente americano possuiu. Um exemplo dessa interpretação pode vir de Anthony Zucher, correspondente da BBC nos Estados Unidos. Zucher listou apenas cinco razões para explicar a eleição de Trump. A primeira, e a mais virulenta e polêmica, é a da “onda branca”, nos EUA[4]. Outro jornal, desta vez no estrangeiro, o The Guardian, também implica a vitória do republicano para esse lado, acreditando que se deve ao racismo branco, ignorância e discriminação, por parte dos eleitores do vencedor, pela matéria de Dan Roberts, republicada, no Brasil, pela Carta Capital[5]; por último, o exemplo da Rede Globo de Televisão: a apresentadora Denise Perrone afirma que os eleitores de Trump, durante a noite de votação, bradavam palavras racistas xenofóbicas, assim como no restante da campanha – sendo Perrone desmentida pelo jornalista imediatamente após fazer tal pergunta[6].
Ora, seguindo a antropologia cultural, e tendo em vista que uma eleição presidencial do porte da dos EUA, com toda a sua tradição democrática, esta que influi em sua economia, imaginário, mentalidade e comportamento de seu povo, é impossível que apenas o fator do “racismo”, ou o da discriminação, do ódio, tenham feito o povo americano eleger Trump.
Já que a cultura é integral, ela age de maneira retroativa em um povo. A economia, o sexo, a religião, a mídia, a internet, o descontentamento político, afora as propostas de Hillary Clinton e o legado de Obama, além de toda a trajetória política americana, suas tradições e seu modus operandi, influenciam a população. Não foi uma reação mecânica, de um movimento reacionário uniforme, centralizado e bruto, que fez Trump ser eleito, mas sim um amálgama cultural, envolvendo as crenças, valores e o cenário pluralíssimo que são os Estados Unidos da América.
A antropologia de Boas, em seu cerne, defende uma perspectiva antropológica que veja mais do que uma “ação” e uma “reação”, ou uma dicotomia entre retrógrados e progressistas, na sociedade, já que a relatividade cultural existe e, sendo esta integral, tem causas e consequências extremamente plurais.
A própria cólera dos anti e pró-Trump é um dado antropológico, assim como as análises das causas de sua vitória, pois demonstram uma espécie de partidarismo político-ideológico entre a mídia, as universidades e jornais frente às propostas de Trump. O furor dos analistas, o peso das acusações e a paixão que, enfim, as últimas eleições despertaram até janeiro de 2017 (mês em que a Buzzfeed divulgou uma notícia falsa envolvendo Trump e prostitutas na Rússia) marcam a política e os olhares para os EUA atuais.
Sejam contra ou a favor, as opiniões da política estadunidense se devem a uma reação geral à vitória republicana em 2016, às paixões políticas do ano passado que, suscitando verdadeiras ou falsas constatações, enfim, moldam todo o imaginário atual.
A cultura se viu, mais uma vez, retroativa em sua própria integralidade, como bem definiu Boas em 1932.
Mas não é assim que pensam os senhores da esquerda, aqueles que são os primeiros a bradar em nome do relativismo cultural. Essas mesmas universidades que condenaram Trump, com esses mesmos setores de ciências humanas, esses antropólogos e sociólogos faltantes para com suas próprias matérias.
Em nome da ideologia que cega, aqueles que trabalham com as humanidades, as estudam e se dedicam por anos para sua compreensão, no fim, caem em um mecanicismo que tanto odeiam. Acusar o eleitorado de Trump de racista e o fenômeno do racismo em si pela vitória de Trump é, no mínimo, um contrassenso com o relativismo cultural.
Mas vai tentar explicar esse B+A=BA para um esquerdista…
[1] Que tem sua origem na candidatura de Donald Trump para a Casa Branca, mas que se aqueceu na própria disputa dentro do Partido Republicano, nos EUA.
[2] BOAS, Franz. As limitações do método comparativo. IN: CASTRO, Celso (org). Antropologia Cultural. 1ªed., Rio de Janeiro: Zahar, 2004, p. 31-32.
[3] Os objetivos da pesquisa antropológica, idem, p. 105.
[4] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37923743
[5] https://www.cartacapital.com.br/revista/928/bem-vindo-a-america-de-donald-trump

