

O post acima levanta algumas interessantes reflexões sobre o atual estado de debate público presente na direita mundial, sobretudo àquela que se notabilizou recentemente, a Alt Right.
Muito se fala e discute entre a Alt Right, e também entre os conservadores cristãos mais tradicionalistas, sobre a necessidade de uma guerra cultural contra o politicamente correto, propagandeado pela establishment cultural, acadêmico e midiático globalista. A Alt Right, em contraponto a este establishment idólatra do poder estatal, vê a necessidade de defesa e promoção dos valores ocidentais, sobre os quais estão ameaçados. Valores ocidentais estes caracterizados pela síntese entre a civilização greco-romana da Antiguidade e a civilização cristã-católica da Idade Média.
Considero, como conservador e crítico deste projeto de Leviatã global, que é de fato fundamental a defesa dos valores ocidentais e de seus pilares de síntese greco-romana e cristã, tão propagada pelos conservadores tradicionalistas e pela Alt Right. Contudo, devemos ter cuidado de não resumir tudo a somente estes. Como se o século XII a XV significasse o ápice e esplendor cultural, político, econômico e moral do Ocidente, e tudo o que veio após seria modernismo, revolução, desordem e anarquia, a ser descartado no lixo da história.
Os tradicionalistas e a Alt Right são inimigos da modernidade. Rejeitam-na visceralmente e culpam tudo o que veio após o humanismo e o século XV como precursores da tirania globalista e politicamente correta dos tempos atuais.
É inegável que o cristianismo e da filosofia grega foram as bases sobre as quais se assentaram a civilização e cultura ocidental. Mas isso não exclui o fato de que outros importantes elementos também compõem o legado ocidental, e que vieram muito depois do período antigo e medieval.
Entre estes elementos que compõem o legado ocidental estão a economia liberal e a democracia representativa. E elas eram inexistentes na mentalidade ocidental, ao menos em grande parte dos países ocidentais, antes do século XVIII.
Devemos à antiguidade e a Idade Média a formação do Ocidente, assim como também devemos ao mundo moderno, pós-medieval, aquilo que é mais intrínseco ao caráter do homem ocidental. Um mundo do qual não podemos nos alienar, e do qual fazemos parte.
As liberdades antigas, pré-modernas, de fato fazem sentido serem defendidas em nações historicamente abertas às liberdades civis e individuais, como Inglaterra e Suíça. Por exemplo, defender as liberdades antigas em contraponto às modernas não faz o menor sentido nos países ibéricos e continentais, pois nunca tivemos liberdades antigas arraigadas como na Inglaterra. Inventar um mito fundador de um passado de liberdades antigas, com parlamentos liberais e direitos civis em plena idade média portuguesa, seria algo muito forçado e que beira uma romantização do passado. Somente no século XVIII e XIX que foi possível isso ocorrer nestes países. Foi a modernidade, portanto, com o seu racionalismo contratualista, que permitiu a liberdade nesses países. E devemos ser gratos a elas.
A modernidade deve ser sim, abraçada no campo da filosofia política conservadora. O próprio Burke abraçou o pensamento moderno e contratualista de Hobbes e Locke, ao incorporá-lo na tese de que a sociedade é um contrato entre as gerações do passado, presente e futuro. Nesse sentido, Locke foi um Burke avant la lettre.
Não há nada de revolucionário afirmar que a modernidade, com as suas instituições políticas montadas no século XVIII e XIX, é parte da tradição e legado da civilização ocidental. É ignorar um importante período histórico, e justamente o mais importante, que levou ao ápice de poder ocidental. Um período de expansão do Ocidente sobre o mundo, exportando os seus valores e instituições aos quatro cantos do mundo.
Eu pessoalmente tendo a ter uma postura favorável a este papel civilizador do Ocidente no mundo, exportador de modelos de instituições políticas liberais e democráticas. Me coloco em uma postura neoconservadora, contra uma Alt Right que com o seu espírito cruzadista, prega o retorno a um ocidente tribal e na transformação da Europa em uma grande reserva indígena isolada do restante do mundo.
