A esquerda brasileira vive – para a nossa alegria – a sua maior crise de identidade. Desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, os partidos de esquerda não sabem o que fazer diante do crescimento exponencial dos setores conservadores e liberais no Brasil. Por causa deste crescimento e das derrotas expressivas do Partido dos Trabalhadores em pleitos eleitorais, atualmente outras legendas brigam pela hegemonia dentro da esquerda, todavia as lideranças do PT buscam se agarrar no que ainda restou para manter o predomínio.
O péssimo governo de Dilma Rousseff que culminou com o impeachment, a crise econômica, política e moral geradas, além dos casos de corrupção que culminaram com a prisão do quadrilheiro Luiz Inácio Lula da Silva, minaram o PT em desempenhos eleitorais. Para manter a hegemonia dentro da esquerda, o PT segue o caminho de se agarrar na figura de Lula e no que restou de sua popularidade em regiões do país para tentar conservar alguma força política. Para manter este predomínio, lideranças petistas buscaram fazer de tudo para prejudicar a candidatura presidencial do pedetista Ciro Gomes a fim de simplesmente não perder o predomínio na esquerda, como no caso da articulação da neutralidade do PSB no pleito passado, partido que tinha a tendência de caminhar com Ciro durante a eleição.
Ciro desejava ser o herdeiro dos votos do PT após a prisão de Lula, mas foi escanteado pela executiva nacional da legenda petista em favor da candidatura de Fernando Haddad, uma espécie de boneco lulista. Conhecido por seus rompantes, o cearense teve um desempenho digno nas eleições obtendo o terceiro lugar, com 12% dos votos. O ex-governador do Ceará começou a perceber que as condutas do PT e de suas lideranças poderiam abrir um vácuo dentro da esquerda – quando seria o maior beneficiado – e, assim, assumindo a liderança dentro da esquerda.
Parte dos tradicionais eleitores do PT tem se desiludido com a legenda por todos os fatos ocasionados pelo partido e por suas condutas um tanto quanto errôneas. A aproximação do PT com o PSOL, iniciada em 2016 após o bom resultado eleitoral de Marcelo Freixo na eleição para a Prefeitura do Rio, fez com que o petismo começasse a defender pautas defendidas pelos psolistas como a legalização do aborto, a ideologia de gênero e a defesa de criminosos a qualquer custo. O PT acreditava que, com a defesa veemente destas pautas, conseguiria pegar o eleitorado mais jovem que estava votando no PSOL. No entanto, estas pautas são mal vistas por grande parte da sociedade e só dão votos em parcas regiões do Brasil. Na verdade, a defesa destas temáticas apenas afasta o voto de boa parcela da população mais pobre, que, embora defenda as políticas econômicas de intervenção estatal na economia, tem ojeriza pelas pautas sociais de extrema-esquerda tendo em vista sua criação religiosa com grande influência do cristianismo católico e protestante.
Ciro Gomes entendeu como ninguém que defesa apaixonada do PT, ideologia de gênero e aborto não dão votos. Por isso, destila suas barbaridades no campo econômico como a estatização quase geral na economia, a religação da máquina inflacionista e a retirada dos endividados do SPC por meio de mais crédito na busca de pegar os votos daqueles que votam tradicionalmente no PT, mas que estão decepcionados com a conduta petista. Percebendo isto, Ciro articulou uma aliança com PCdoB e PSB na Câmara dos Deputados e no Senado para isolar cada vez mais o PT na esquerda. A legenda petista não demorou a retalhar o seu então parceiro mais fiel e tentou destruir o PCdoB no fim do ano passado, situação esta apresentada em carta publicada por Manuela D’Ávila, candidata a vice na chapa de Haddad no ano passado. O PCdoB não tinha batido a cláusula de barreira nas eleições, obrigando o partido a se fundir com outra legenda para continuar tendo acesso ao horário eleitoral e ao fundo partidário.
Com isto, os comunistas articularam a fusão com o Partido Pátria Livre (PPL) para manter a sua existência. Todavia, como apresentado por Manuela, PT e PSOL tentaram barrar a fusão por meio de requerimento à Câmara dos Deputados para impedir a atuação parlamentar dos parlamentares do PPL e do PCdoB. O PT não engoliu que o seu principal parceiro, desde as eleições de 1989, o abandonou para caminhar ao lado de Ciro Gomes e prepara o PSOL – também chamado de linha auxiliar do petismo – para ser o partido que será o novo parceiro coadjuvante do petismo para os próximos anos. A maior prova disto foi o apoio da bancada do PT à candidatura de Marcelo Freixo para a presidência da Câmara dos Deputados.
A resposta do PCdoB ao PT foi levar Ciro Gomes com todas as pompas para a Bienal da UNE – braço estudantil dos comunistas – em Salvador, na Bahia. No evento, Gomes brigou com militantes petistas e voltou a proferir o famoso “O Lula tá preso, babaca”, frase dita por seu irmão, o Senador Cid Gomes (PDT-CE) durante o segundo turno da campanha eleitoral do ano passado. Tentando se vender como moderado, Ciro enviou o seu ex-coordenador de plano econômico, o Secretário de Planejamento do Ceará e Deputado Federal Mauro Benevides Filho (PDT-CE), para conversar com a equipe econômica do Governo Federal sobre a reforma da previdência.
Como dizia Thomas Jefferson e o lema da antiga União Democrática Nacional, “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. Ciro Gomes tentará se vender como uma pessoa centrada e com bom discurso para tentar enganar a população e se vender como uma nova esquerda, crítica do petismo. Embora o rótulo seja diferente, o conteúdo é o mesmo: corrupção, ingerência estatal, cerceamento das liberdades, assassinato de reputações e inchaço da máquina administrativa para acomodar aliados. E o resultado disso todos nós vivemos atualmente, mesmo que em escala menor que durante os governos do Partido dos Trabalhadores.

