(créditos da imagem: Giuseppe Lami/ANSA/AP)
Em janeiro de 2015, o mundo parou para ver as ironias do Charlie Hebdo serem castigadas pelos obscurantistas do terror islâmico. Enquanto vozes tímidas se levantavam em defesa da liberdade de imprensa, os líderes europeus e americanos caminharam em ato solene, no melhor estilo “pombinhas brancas da paz para combater a violência”; ao seu lado, em seu próprio território, lunáticos como o britânico Anjem Choudary justificavam todos os tipos de atrocidades contra o modo de vida do “homem ocidental, branco, cristão, capitalista e de olhos azuis” em nome da lei de Alá. O Estado Islâmico recrudescia suas atividades, e era essa a postura apontada como solução.
Meses depois, em novembro, adormecida, Paris foi despertada do torpor para o pesadelo. O terror manchou a cidade-luz de sangue, premiando um governo de esquerda que seguia investindo no desarmamento civil e não organizou suas forças de inteligência para não incomodar os guetos muçulmanos que se multiplicam na Europa e o eleitorado esquerdista – que se apieda acriticamente dos imigrantes de fé islâmica, mas não nutre qualquer amor pelo horizonte cultural no qual nasceu e que lhe permite a existência. Explosões, um desastre na casa de shows Bataclan, em torno de 140 mortos. Um dos corações do Velho Mundo, sempre cintilante, naquele dia apagou seu brilho, afogando-se em tristeza e luto.
22 de março de 2016, poucos meses depois, é a vez da Bélgica. Logo a Bélgica, país que possui percentualmente uma notável quantidade de muçulmanos no seio da Europa; a esse lar que os acolhe, que os recebe, que permite que sigam suas vidas, um grupelho de fanáticos responde com ódio e matança. Explosões novamente atingiram a alma da Europa, desta vez no aeroporto de Zaventem e na estação de metrô. Mais de três dezenas de mortos, ao menos duas centenas de feridos. Um saldo menor que o de Paris; que importa? Lamentamos o horror da mesma forma. O Estado Islâmico assumiu a autoria da tragédia, perpetrada quatro dias após a prisão, em Bruxelas, de Salah Abdeslam, suspeito pelos ataques anteriores em Paris.
Esses são exemplos mais emblemáticos de um horror que já teve muitas manifestações e muitas faces. Uma vez mais, a Europa fica em estado de alerta. O que está errado? O que é preciso fazer? O que nos falta? Deixemos de lado, por agora, aquelas vozes mais cínicas, que apontam o dedo para o fato de não nos preocuparmos com as mortes por conflitos na África – eventualmente provocadas também por terroristas islâmicos, como os do Boko Haram – tanto quanto prestamos atenção a incidentes na “rica Europa”. Esses não apreendem o significado simbólico e civilizacional desses incidentes e, na verdade, seu choramingo politicamente correto é parte do problema. Nossa abordagem, ao fim das contas, é movida pela preocupação com todas as vidas humanas, em qualquer continente; a preocupação é verdadeiramente humanitária, sem hipocrisia, porque questiona o cerne do problema.
Uma pista para entender tudo isso pode ser encontrada ali perto, na Itália, alguns meses atrás. Mais especificamente em janeiro. O presidente do Irã, Hassan Rohani, acompanhado de uma delegação, esteve visitando os italianos, e também a França; pretendeu passar pelos museus e preciosidades artísticas e arquitetônicas do Império Romano que ainda podem ser encontradas entre as maravilhas históricas e visuais daquele país. No entanto, queriam uma Itália amordaçada, modificada, ao seu gosto; tinham “nojinho” das obras de arte. Solicitaram que, em sua visita, “em respeito à sua cultura”, as estátuas clássicas com figuras desnudas fossem escondidas por tapumes horrorosos. À época, estupefatos com a falta de consideração – ora, eles que não fossem até lá! -, pensamos: pior do que a demonstração de que não entendem o que seja respeito e só querem “conversar” se nós, os ocidentais, maquiarmos a nossa identidade e o nosso patrimônio ao agrado deles, apenas a falta de RESPEITO PRÓPRIO dos italianos e dos europeus ao aceitar humilhações como essa para agradar os palhaços do politicamente correto. Exclamamos naquele dia, diante da notícia vergonhosa: “Para o Inferno a exigência do Irã! ”. Exclamamos; mas os italianos não exclamaram. Eles se curvaram. Apagaram-se perante os iranianos como estes últimos jamais fariam por eles, em situação oposta.
Isso quer dizer muita coisa. Nas últimas décadas, disseminou-se no seio do Ocidente uma poderosa retórica que nos ensina a ter vergonha do que nós somos. Disseminaram-se todas as formas de concepção ideológica que desvitalizam o Ocidente, que torpedeiam a herança judaico-cristã ocidental; a herança da filosofia grega clássica, da moral cristã e do Direito romano; a herança de autonomia individual e pensamento livre que recebemos, e se sedimentou paulatinamente ao lado de todas as nossas grandes conquistas, como sendo o mal supremo deste mundo. Ensinaram-nos a acariciar as outras culturas, a baixar a cabeça toda vez em que elas se tentam impor, em que fazem pouco caso de nossas leis e de nosso modo de vida. Ensinaram-nos a diminuir o nosso valor, a nos envergonharmos dele, a adotarmos uma miríade de agendas que agigantam o Estado em prol da “justiça social” para, ao fim das contas, apenas domesticar e apequenar nossos espíritos; e aí, como Cavalo de Troia, abrigamos alegremente em nosso seio a besta que nos vai devorar.
Repetimos o que sempre dissemos: não estamos defendendo uma nova Cruzada ou a erradicação dos muçulmanos em países ocidentais. Não é possível reverenciar o nosso patrimônio abjurando-o, agindo em oposição aos seus alicerces. No entanto, precisamos reconhecer, em primeiro lugar, a veracidade de uma força assassina, gerada no coração da cultura islâmica – com alguma influência de doutrinas socialistas nascidas do Ocidente envergonhado -, que se nega a admitir os valores essenciais, imperativos à convivência em nosso meio. Apaixonadamente, eles cometem as maiores atrocidades em nome de seu deus, e, com um vigor insaciável, cospem em nossas instituições e querem vê-las sobrepostas pela sua Sharia, com a conivência de parte da imprensa e da intelectualidade ocidentais, que minimizam suas propostas indecentes.
Já dissemos naquela oportunidade em que Paris sangrou, dizemos de novo: os últimos filhos de Cíceros e Platãos, as últimas crias do Ocidente, declararam guerra aos seus pais. Declararam guerra através da covardia, da “breguice” pusilânime da contracultura; do suposto “amor” distribuído a tudo que é diferente, a todas as outras culturas, menos a sua própria. Em um mundo que se põe a gritar contra a homofobia, contra a islamofobia, contra a “não-sei-mais-o-que-fobia”, é a OCIDENTOFOBIA, é o horror a nós mesmos, a maior de todas as pragas. É a praga que mais mata, a que mais assassina; a que nos leva a fazer lobbies irracionais contra o preconceito em uma terra que abriga, respeita e até, ingenuamente e criminosamente, SE CURVA ao diferente, enquanto nos cegamos aos cristãos mortos nos países árabes. A praga que nos leva ao imobilismo e ao silêncio, que levam à morte. A praga que vai matar o Ocidente, se nós não voltarmos a respeitá-lo e amá-lo.
O século XX teve Churchills e Thatchers que defenderam o Ocidente das escuridões mais tempestuosas; precisaremos desse espírito renovado no século XXI, ou muito mais lágrimas ainda serão derramadas sem que se lhes faça justiça, em tributo a um relativismo paralisante e imoral.

