Em sua participação no programa Altas Horas, da Rede Globo, o cantor e compositor Caetano Veloso, como costumam fazer os artistas de sua geração, emitiu seus “iluminados pareceres” acerca das manifestações de rua, em especial a do último 13 de março, a MAIOR da história do país.
Ele começou dizendo que é velho e viu “muita coisa da história do Brasil”, e observa que os “acontecimentos estão se atropelando” e sendo “olhados com muita rapidez”; em outras palavras, Caetano diz que estamos irritados e precisamos ter mais calma para apreciar os fatos, para “refletir”. Segundo ele, o Brasil é um país “desumanamente desigual” e “toda movimentação no sentido de libertar-se dessa estrutura desumana, injusta, desequilibrada, insuportável, sempre tem encontrado uma reação dos privilegiados de maneira a não deixar que nada aconteça”. Portanto, ele é “desconfiado”, porque, ao ver o evento do dia 13, não “reconheceu” a “Passeata dos Cem Mil contra a ditadura” – nem poderia, afinal houve entre 4 e 6 milhões no país inteiro -, e também não achou “suficientemente diferente da passeata da Família com Deus pela Liberdade (…) que incentivou e encorajou o golpe de 64”. “O buraco é mais embaixo nesse quadro complexo”, diz ele, e não é simples escolher lados.
Caetano tem razão em apenas uma coisa: realmente, o buraco é mais embaixo. Segundo o cantor e cientista político (só que não), precisamos parar um pouco, respirar, “refletir” sobre o que está acontecendo no país, precisamos ter “calma” – calma com quem nos odeia, calma com quem nos enxerga como o mal encarnado sobre a Terra, calma com quem derreteu nossa economia e retirou nossos empregos, calma com quem quer aumentar os impostos criminosos do país, calma com quem instituiu o Petrolão e elaborou o mensalão, calma com quem ataca as instituições quando elas atuam para operar a justiça, calma com quem debocha de nossa inteligência em rede nacional e nos insulta para jornais estrangeiros acusando-nos de golpistas, calma com uma palhaçada moral e política que já dura 13 anos e leva o Brasil na pior direção possível. Aí então, se tivermos essa “calma”, ponderaremos, veremos que todos os partidos e políticos são iguais na criminalidade e geram exatamente o mesmo tipo de mal, ou até que furar fila é um crime tão grande quanto assaltar uma empresa estatal; depois de vermos isso, relaxaremos, “curtiremos” uma MPB, continuaremos a encher os bolsos de músicos como Caetano de dinheiro, e então deixaremos os “companheiros” seguirem roubando em paz. Deixaremos os ânimos esfriarem, e tudo volta a ser como “dantes no quartel de Abrantes” – aliás, “quartel” não, porque qualquer coisa que lembre militarismo dá alergia nessas pessoas.
Com todo respeito, Caetano Veloso, PARA O INFERNO a sua sugestão! Sua posição para falar é muito confortável; deve ser dos que menos sentem os efeitos da crise em que mergulhamos. Caetano Veloso pertence ao grupo de artistas, notadamente músicos, que fizeram a cabeça de toda uma geração formada no regime militar que decidiu que o sonho do esquerdismo “paz e amor” seria a esperança para o Brasil, e depois resolveram – aqueles que conseguiram – tirar uma casquinha desse esquerdismo, quando ele tomou proporções vastas e assumiu o controle do país, desde a intelectualidade acadêmica até a política.
Caetano Veloso deve acreditar que os milhões que estavam nas ruas representam a revolta contra o governo popular que combate a injustiça e a desigualdade, mas não sabe – ou prefere fingir que não sabe – o que realmente passa o POVÃO. O estadista britânico Edmund Burke dizia que “aqueles que tentam nivelar nunca igualam”; existe, de fato, no pensamento político conservador, uma certa esfera de concepção filosoficamente “elitista”. Quando conservadores como Carlos Lacerda clamavam às “elites” para que educassem, esclarecessem e veiculassem as boas ideias ao povo, reconheciam que as pessoas não são iguais em formação, trajetórias e pensamentos, e de fato algumas mais “ilustradas” – não necessariamente “superiores” em termos absolutos, nem mesmo em termos econômicos, mas em determinados campos intelectuais – se encarregam de oferecer nortes a partir dos quais devem influenciar as demais, não diminuindo sua responsabilidade individual e suas potencialidades, mas ajudando-as a ampliá-los e construir seus próprios caminhos.
No entanto, os esquerdistas levaram essa concepção, na prática, a uma aplicação pedante que faz de determinados artistas e atores sociais “intelectuais orgânicos”, agentes da “revolução”, agentes do “valor superior”, porque por serem, que seja verdade, bons em compor canções, automaticamente se tornam iluminados intérpretes da sociedade. Quando esta se revolta contra tudo que eles sempre defenderam, então ela é apenas gado. A direita tem muito mais respeito pelo povo e pelo “senso comum”, que muitas vezes está mais saudavelmente correto que as “mentes superiores” dos Chicos Buarques e Caetanos Velosos, ou das Marilenas Chauís (que odeiam a “classe média”).
Depois de terem sido diretamente responsáveis pela exaltação cega a esse gênero de proposta de sociedade, figuras como Caetano Veloso ostentam a postura que foi genialmente apelidada, não sei bem por quem, de “isencionismo”. É o tipo de gente iluminada que quer que estejamos “acima do bem e do mal”, que enxerguemos como analistas e historiadores argutos e sem paixões o quanto a realidade é “complexa”, e olhemos para disputas ideológicas e partidárias como brigas de animais selvagens – enquanto, é claro, dizemos tudo o que interessa ao PT. Os “isentões” são cúmplices diretos do esquema de poder, e ajudaram a construí-lo.
Pois digo: NÃO tenhamos calma! Indignemo-nos! Não deixemos que passe em brancas nuvens a desonra que essas pessoas fizeram ao Brasil, e corrijamos os rumos para que o roubo do nosso futuro não gere um prejuízo ainda maior que o inevitável.


1 comentário
Incrível como essa gente gosta de falar em 1964? O momento é outro. Estamos passando pelo ápice da democracia. Corruptos estão sendo investigados e presos. E essa gente rançosa vem falar em ditadura…
Aliás, de ditadura Caetano não conhece muito, pois exilou-se em Londres, vivendo como um príncipe inglês. Apenas embarcou na onda cool de “lutar pela democracia” para fazer sucesso como cantor e compositor. Isso era muito comum na época. Vários artistas aproveitaram a situação para ganhar fãs entre os mais jovens.
Não fosse isso, talvez hoje seria mais um músico frustrado.