Aqueles que acompanham a movimentação no longo processo eleitoral dos Estados Unidos percebem um intenso acirramento dos ânimos. Do lado Republicano, apenas o magnata Donald Trump, com seus arroubos entusiasmados e polêmicos e seu passado de distanciamento em relação aos valores marcantes do partido – o que gera resistência singular dentro da cúpula da própria legenda ao seu nome -, segue aguardando seu anúncio como candidato nas eleições de novembro. Manifestações similares àquelas que vemos no Brasil, com direito a fogo e confronto com a polícia, têm acontecido graças a grupos de esquerda que consideram Trump “misógino, racista, xenófobo” ou quaisquer outros daqueles xingamentos que se costumam fazer à direita. Do lado Democrata, o socialista Bernie Sanders e a discípula de intelectuais radicais Hillary Clinton seguem trocando farpas, embora esta última seja franca favorita ao posto.
No meio do furacão e diante da tendência de rejeição aos grupos políticos tradicionais, existe um interesse, por parte de muitos – embora, sabe-se, sem qualquer chance de derrotar os dois maiores partidos -, de eleger uma alternativa. O Partido Libertário é o maior entre os partidos menores, conhecido por sua defesa de uma redução substancial da máquina do Estado e por alimentar visões que, no seu entender, maximizam a liberdade em oposição aos valores conservadores dos Republicanos e ao controle da economia dos Democratas. “Nem esquerda, nem direita”, eles diriam, ecoando a tese de Murray Rothbard (1926-1995), economista da Escola Austríaca que sistematizou um Manifesto Libertário – embora, naturalmente, o Partido Libertário não avance em direção ao completo anarquismo, isto é, à completa extinção do Estado, como ele.
Nos Estados Unidos e no movimento libertário brasileiro, interessado no que acontece na gigante nação ao norte, o nome de Gary Johnson, candidato da legenda, despertou o interesse. Tudo bem. Todos têm direito a nutrir suas identificações ideológicas e de princípios. No entanto, o ideal é que tenhamos acesso a todas as informações possíveis para assumirmos uma posição. O retrato de Johnson não fica completo sem algumas pequenas informações que, dependendo das suas posições pessoais, podem ser importantes.
Em entrevista para o Washington Journal, Gary Johnson disse que, ao responder a um quizz, descobriu que, em 73% das questões apresentadas, suas posições são coincidentes às do socialista Bernie Sanders – isso mesmo. O afastamento, diz ele, vem com as questões econômicas. No entanto, “that’s the side of Bernie that has to do with pro-choice, pro-marriage equality, let’s stop with the military interventions, that there is crony capitalism, that government isn’t fair when it comes to this level playing field, legalize marijuana”. Traduzindo, Johnson se põe ao lado de Sanders quando se trata de defender ideias como o casamento gay, a cessação de intervenções militares no estrangeiro (uma bandeira tipicamente libertária que me parece um tanto dogmática e perigosa) ou a legalização da maconha. Não discutirei essas bandeiras; o que me chama a atenção é uma: “pro-choice”.
Os “pro-choice”, ou pró-escolha, são justamente aqueles que defendem o suposto direito da mulher de interromper a vida em gestação através do recurso assassino do aborto. Não é exatamente uma novidade que Johnson defenda isso; em outras oportunidades, ele declarou que era a favor de que os estados decidissem como deveriam deliberar sobre o assunto, e em outras ainda já havia declarado sua defesa da decisão da mulher em resolver como lhe aprouvesse. Ao mesmo tempo, Johnson é contrário à pena de morte, embora entenda igualmente que os estados devam decidir sobre isso. Por que a tendência em reprovar a morte de criminosos imposta pelo Estado – diga-se de passagem, também sou contra -, mas a despreocupação, sequer estética, com a morte de crianças no ventre da mãe, declarando-se enfaticamente “pro-choice” sem qualquer cerimônia?
Se você é um libertário que defende o direito ao aborto, simplesmente vai ignorar isso, e age com coerência ao fazê-lo. Mas se você é um liberal ou conservador que, sobre esse ponto específico, acredita que o direito à vida se sobrepõe a qualquer outra argumentação na matéria – como eu -, então pense duas vezes antes de elogiar Gary Johnson, como tenho visto muitos fazendo.
No fim das contas, vejamos o que os americanos decidirão.

