Foi desalentador aguardar, foi difícil tolerar a longa espera, mas finalmente foi reconhecido. Por bastante tempo, colunistas, populares, especialistas de Facebook, Youtubers, os camelôs da esquina, todos disseram o óbvio, mas a chancela oficial, que precisava vir no tempo da Justiça, ainda não tinha vindo. Agora a denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao STF, divulgada ontem, torna oficial: Lula é o chefe.
Contra si, o ex-presidente da República já tinha o sítio em Atibaia, os áudios comprometedores divulgados por Sérgio Moro, o tríplex no Guarujá, as palestras “suspeitas” no exterior, as acusações de tráfico de influência. Investigações repletas de evidências materiais robustas, graves, e quinta-feira passada, o Tribunal de Justiça de São Paulo já havia remetido aos cuidados do mesmo juiz Sérgio Moro um pedido de prisão preventiva de Luiz Inácio. É muita coisa, sem dúvida. Mas não era suficiente.
Lula é uma figura muito mais importante, no pior dos sentidos, do que um parlamentar que recebeu propina, até mesmo se esse parlamentar for o presidente da Câmara ou o presidente do Senado. Lula é mais importante, até, do que Dilma, a criatura que ele projetou. Nisso, os petistas têm razão: todos os ataques que promovemos ao Partido dos Trabalhadores e seus aliados têm um propósito nuclear de atingir Lula. Não porque o admiremos, não porque acreditemos que não podemos vencê-lo; mas porque ele É a DOENÇA, e é preciso desmascará-la perante todos os brasileiros e perante o mundo para que ela seja curada.
Lula roubou muito mais do que recursos monetários, muito mais do que o respeito pela gestão pública. Ele roubou corações, roubou sonhos. Seduziu incautos, devidamente preparados por décadas de distorção de fatos e alimentação de mentiras, e alçou ao estrelato a mediocridade e a ignorância. Perante o mundo, Lula já havia começado a alinhar o Brasil a tudo o que havia de mais opressor, de mais arcaico, de mais primário. Lula já havia despedaçado nossos padrões – que já não andavam bem das pernas -, arruinado nossas referências, cuspido em nossas pretensões civilizacionais. Mais do que nunca, ele nos fez sorrir amarelo para a própria pretensão de sermos melhores. Todos esses crimes são monstruosos, são abomináveis. Infelizmente, não podem, em si mesmos, ser previstos na legislação humana.
No entanto, estar no centro do maior esquema de corrupção da história republicana era uma verdade que precisava ser ratificada, e que não tinha contestação possível – uma verdade que pode e deve ser punida, na sua amplitude correta. Um sítio e um prédio não são suficientes para dar conta do que Lula representou em termos de retardo e traição ao país. Com atraso, mas antes tarde do que nunca, Janot entrou em cena.
O documento diz que “essa organização criminosa jamais poderia ter funcionado por tantos anos e de uma forma tão ampla e agressiva no âmbito do governo federal sem que o ex-presidente Lula dela participasse” e “embora afastado formalmente do governo, o ex-presidente Lula mantém o controle das decisões mais relevantes, inclusive no que concerne às articulações espúrias para influenciar o andamento da Operação Lava Jato, à sua nomeação ao primeiro escalão, à articulação do PT com o PMDB, o que perpassa o próprio relacionamento mantido entre os membros destes partidos no concerto do funcionamento da organização criminosa ora investigada”. Quer pleiteando o “golpe” das novas eleições, quer tentando manipulações nas sombras, Lula permanece, mesmo enfraquecido, um risco de novas confusões. Um risco que precisa ser controlado.
Objetivamente, a peça de Janot envolve Lula, junto com o pecuarista Bumlai, na operação para comprar o silêncio de Nestor Cerveró. Subjetivamente – e um tanto objetivamente também -, ela diz tudo.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seus pruridos de sentimentalismo tucano, continua dizendo em entrevistas por aí que é uma pena que Lula esteja envolvido em tudo isso em virtude do símbolo que ele é, de tudo que representa.
Nós, ao contrário, dizemos: justamente por representar o que representa e ser o que é, é imprescindível para o Brasil que seu mito não permaneça.











O deputado federal pelo PSC, Jair Bolsonaro, e o deputado federal pelo PSOL, Jean Wyllys, conhecidos por suas desavenças de longa data, cometeram erros significativos na hora de proferirem seus votos. Este último, um socialista intolerante, cuspiu no rosto do primeiro depois de votar; alegou que havia sido ofendido, embora os vídeos não pareçam confirmar sua versão histérica. Nada, absolutamente, justifica sua atitude. Agora, algumas linhas sobre a questão Bolsonaro; já o defendemos noutras oportunidades das distorções realizadas pela esquerda e pela mídia, e continuaremos a fazê-lo. Trata-se de um parlamentar que sempre fez discurso de oposição, enfrentou duramente o petismo, teve coragem de dizer verdades nas fuças dos seus próceres vermelhos, combateu o conluio do regime com ditaduras socialistas, combateu o conteúdo sexual precoce em aulas para crianças nas escolas, a doutrinação ideológica nos colégios, etc. – bandeiras em que é seguido por seus filhos. Apesar disso, Bolsonaro, em parte pela sua formação militar e pelo apoio eleitoral que teve, ao começo de sua carreira, sobretudo nesse grupo social, adota algumas posturas que, se guardam algum mérito em si mesmas, também assumem as raias do caricato, a respeito do regime militar e do movimento de 1964. Em oportunidade histórica que não tinha absolutamente nada a ver com esses fatos distantes no tempo, Bolsonaro lembrou que a esquerda radical foi derrotada em 64 e “perderá de novo”, e exaltou a memória do militar Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de torturas durante o período. Já ao começo, Bolsonaro elogiou Cunha pela condução do processo de impeachment. Reparemos que duas das afirmações de Bolsonaro são simplesmente verdadeiras: de fato, em um cenário extremo e polarizado de Guerra Fria, o movimento de 64 representou, apesar do atalho ilegal de que fez uso para isso – Auro de Moura Andrade cassou João Goulart enquanto ele ainda estava no país, embora distante da capital -, uma reação e um desmonte de um governo que atacou os mandatos estaduais de oposição, perturbou o Congresso, permitiu a movimentação dos comunistas (dentro e fora de sua máquina pública) e emitiu, sim, sinais muito preocupantes de inflexão rumo a um esquerdismo autoritário (embora não fosse, ele próprio, comunista). De fato, em 64, a extrema esquerda foi detida; infelizmente, os militares depois acabaram traindo sua promessa e não convocaram novas eleições – e afirmamos: um país governado por um Carlos Lacerda ou até um Juscelino Kubitschek poderia perfeitamente combater o terrorismo socialista sem precisar de um regime de exceção prolongado. Esse problema não anula a verdade anterior. Da mesma forma, parabenizar Cunha pela condução do processo é nada mais do que justo; isso não significa dizer que ele é inocente ou que é um grande homem. Bolsonaro falou verdades; a única coisa que realmente podemos julgar imoral é enaltecer Brilhante Ustra, muito embora pouco conheça de sua biografia e, até onde eu saiba, as acusações contra ele ainda sejam passíveis de discussão. O grande erro de Bolsonaro, isto sim, é um erro político; Cunha e o regime militar ocupam posição negativa no imaginário de boa parcela da população, e, em boa medida, por razões justas. Evocar seus pontos positivos, com ou sem razão, na hora de manifestar um voto decisivo em um contexto democrático, quando toda a esquerda se esforça por associar o impeachment de Dilma à tão “temida e odiada ditadura”, é uma falha grosseira. Se o PSC e Bolsonaro esperam fazer de sua aliança uma alternativa à direita com chances reais em uma eleição majoritária, é forçoso reconhecer que terão muito trabalho. Os cacoetes militaristas de Bolsonaro são marcas de sua autenticidade e espontaneidade, mas têm se mostrado obstáculos para um objetivo maior. Isso não significa que devamos desprezar a aproximação que ele tem promovido com ideias e círculos mais liberais, no que também é seguido por seus filhos. Mas verdades devem ser ditas, erros são erros, problemas são problemas, e ele os comete.
Não obstante, vale frisar que inúmeros parlamentares de esquerda, petistas e comunistas, enalteceram líderes de causas totalitárias e assassinas, como Luiz Carlos Prestes e Carlos Marighella. 






O deputado tucano, Carlos Sampaio, se portou com extrema firmeza tanto quando teve que tomar a palavra para opinar, quanto quando precisou substituir o presidente da comissão. Ele seria nosso destaque positivo pessoal nessa comissão. Outros deputados fizeram discursos muito bons, como Marcos Feliciano (PSC), que fez referência a todo o contexto geral da ameaça que enfrentamos na América Latina e situou o PT em seu devido lugar (com o senão de um elogio um tanto exagerado a Fernando Henrique Cardoso); a também tucana Marcela Carvalho, que apelou à sensibilidade dos brasileiros; e o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA),
Ary Fontoura espinafrando Dilma no Faustão: A atitude corajosa do consagrado ator Ary Fontoura é digna de nota. Contrariando uma considerável maioria da classe artística que se acostumou às benesses do Estado e se tornou cúmplice do regime lulopetista, Ary, com mais de 80 anos, se disse feliz com o interesse dos brasileiros pela política e fez questão de lembrar que estamos na semana mais importante de nossa história recente em razão do desfecho do processo de impeachment na Câmara. Disse que a presidente Dilma se equivoca ao falar que o impeachment seria um golpe, pois golpe, de fato, foi a mentira que martelou para seus eleitores em campanha. Merece os parabéns; sua declaração veio em excelente hora e nas condições ideais para atingir a média do povo.
Áudio de Michel Temer vazado: Supostamente por acidente, “vazou” um áudio do vice-presidente Michel Temer em que ele estaria “ensaiando” um discurso a ser proferido em caso de vitória do impeachment na Câmara dos Deputados. O discurso, diga-se de passagem, está muito bem estruturado para quem estaria apenas fazendo um ensaio. Seja como for, é politicamente muito equilibrado; sinaliza para a necessidade de reformas que podem ser impopulares, ao mesmo tempo em que não avança na sugestão de cortar os “programas sociais”, o que jogaria mais lenha na fogueira no atual momento de impasse e tensões (embora especule que em algum momento esses programas podem deixar de ser necessários). Afaga os estados, envolvidos em dificuldades profundas e grandes dívidas, e enaltece a importância do setor produtivo. Defende um governo unido de salvação nacional e uma articulação para encerrar a fase de crise. Postos de lado os defeitos do PMDB e do próprio Temer, o discurso deixa transparecer que, como já imaginávamos, seu governo tende a ser bastante superior ao governo Dilma (o que, diga-se de passagem, não é exatamente difícil).