O relator da comissão especial que analisa o processo de impeachment de Dilma, Jovair Arantes (PTB-GO), enfim leu, em sessão que durou quase cinco horas, as 128 páginas de seu parecer, que recomenda a aceitação do pedido pela Câmara dos Deputados e seu consequente processamento pelo Senado Federal.
Jovair fez questão, mesmo diante de colegas que se ofereceram para substituí-lo, de ler seu texto até o fim. Terminou quase sem voz; estava tão rouco que, em gracejo, comentamos àquela altura que, a julgar pela rouquidão, ele terminaria se transformando no ex-presidente Lula e defendendo o governo federal. Podemos compreender a atitude do parlamentar, mesmo sem conhecê-lo bem; diante da oportunidade de ter voz ativa tão considerável em um momento histórico dessa magnitude, também teríamos desejado ler nosso texto na íntegra, apesar do sacrifício.
O relator reconheceu em seu parecer, muito bem escrito, que os governos que não zelam “pela estabilidade financeiro-econômica do País”, isto é, que incorrem nos crimes de responsabilidade fiscal, nas fraudes cometidas pelo governo Dilma, “sacrificarão as possibilidades de escolha das gerações futuras em benefício de seus próprios projetos políticos”. A desordem financeira provocada por essa conduta, filosofa Jovair acertadamente, atenta contra as possibilidades materiais de manuseio de recursos de governos futuros, eleitos pela maioria do povo para executar determinados programas que porventura divirjam dos governos anteriores, e compromete a sociedade anos à frente. Não podem ser vistos, portanto, como desvarios menores, por mais que saibamos que há imoralidades ainda maiores cometidas no ciclo lulopetista.
A leitura transcorreu razoavelmente, embora pessoas conversando tenham incomodado Jovair e o presidente da Comissão, Rogério Rosso, que eventualmente a interrompiam por conta disso. Antes, porém, do começo, e depois de seu término, a algazarra foi geral. Ao final, obviamente, os defensores do impeachment comemoraram e entoaram o hino nacional, enquanto governistas caricatos como Jandira Feghali acusavam a “ilegalidade” da perfeita peça do relator. O momento mais interessante, porém, foi o emblemático “ato falho” do deputado petista do Rio Grande do Sul, Paulo Pimenta.
Procurando “aparecer”, revoltando-se contra as supostas injúrias proferidas pelos opositores contra Lula e Dilma – olvidando convenientemente, como lembrou o tucano Nilson Leitão, os ataques histéricos feitos por seus companheiros a todos que defendem o impeachment, acusando a maioria da população brasileira de golpismo por apoiar um processo constitucionalmente previsto -, Paulo Pimenta disse:
“A alusão feita aqui de maneira injuriosa ao ex-presidente Lula e à ex…”
Ex. O ato falho, na verdade, é de uma correção absoluta. O governo Dilma já acabou para o povo brasileiro, já acabou para a oposição, já acabou para a economia, já acabou para o país. Apenas para os anseios de poder pelo poder de Dilma e seus sequazes e para a gritaria histriônica dos petistas e seus aliados partidários, o (des) governo ainda tem alguma materialidade, e se mantém como zumbi resistindo ao sepultamento.
A tarde-noite histórica mostrou que, se exteriormente isso continua, nem sequer ao inconsciente dos petistas o morto-vivo consegue mais mentir.









Quem aparentemente também não se importa em ficar “mal na fita” é o ministro do STF, Teori Zavascki. Em decisão incômoda, Teori fez críticas para lá de respondidas à divulgação de áudios do ex-presidente Lula por parte do juiz Sérgio Moro e concedeu a este último um prazo de dez dias para se explicar, bem como determinou o envio do material (que envolve a presidente Dilma como efeito colateral) para que o tribunal defina se ele deve ser apreciado por Moro ou pelo próprio STF. Como bem analisa o jornalista de Veja, Reinaldo Azevedo, o juiz toma uma posição que contraria pareceres dele próprio anteriormente, como aqueles em que considerou que Eduardo Cunha, tendo foro privilegiado, não estendia à sua esposa e filha a prerrogativa de serem investigadas pelo Supremo. De qualquer maneira, embora seja desagradável e incômoda, a decisão de Teori não retirou ainda das mãos de Moro o poder de investigação sobre Lula; devemos continuar de olho, é claro, mas a disseminação de interpretações forçadas e aterrorizadas dessa atitude, facultada pelo erro de alguns colegas da imprensa, não nos parece um bom serviço à sociedade. Indignemo-nos e mostremos nossa irritação sim, mas entendendo bem o porquê de estarmos fazendo isso.
Na contramão da decisão de Teori, a terça-feira também abrigou uma revelação potencialmente bombástica: toda a equipe da empreiteira Odebrecht anunciou que proporia um acordo de delação premiada. Como a Lava Jato chegou longe e novos acordos precisam entregar informações ainda mais importantes que as já disponíveis aos investigadores, o teor de uma delação coletiva da empresa tenderia a ser devastador sobre a política nacional. O MPF, hoje, negou a tramitação de um acordo com a Odebrecht e disse que divulgar esse tipo de informação fere as regras de sigilo envolvidas na delação premiada; uma negação que a princípio soa como mais do mesmo, já que a posição de oficializar previamente a intenção de realizar esse tipo de acordo não seria mesmo permitida na lei. Mas o MPF acrescentou que houve uma “contínua ação” da Odebrecht no sentido contrário, isto é, de obstruir as investigações.
Uma negação protocolar, um “pito”, uma tática psicológica? O tempo responderá. O tempo também responderá sobre a divulgação de uma lista apreendida pela Polícia Federal que aponta 200 nomes, de 18 partidos políticos diferentes, que receberam doações da Odebrecht; Moro questionou e devolveu a lista ao sigilo, uma vez que há nomes protegidos por foro privilegiado. A situação como um todo é muito estranha; em primeiro lugar, não se pode dizer com certeza que as doações constantes da lista são legais ou ilegais. Aqueles que estão “condenando” políticos sem pensar com base apenas nessa lista podem estar incorrendo em grave erro; a prudência manda esperar. Em segundo lugar, esse vazamento parece conveniente a duas teses problemáticas: a do ministro da Justiça recém-empossado e devidamente notificado pelo STJ, Eugênio Aragão, que havia declarado que trocaria os diretores da PF ao menor “cheiro” de vazamentos – exatamente como este -, e os petistas, que poderiam inventar que a decisão correta de Moro de exigir o sigilo da lista representaria “proteção” aos políticos de oposição que ali também são mencionados. Convém acompanhar para ter certeza se essas “teorias da conspiração” têm fundo de verdade.
As cerejas do bolo desses dois dias intensos ficaram por conta do Itamaraty e de uma publicação do senador do Democratas, Ronaldo Caiado, nas redes sociais. Este último comunicou que recebeu notícias dando conta de que o governo estaria pretendendo dar uma de Getúlio Vargas – a princípio sem imitar o seu final, naturalmente – e decretar Estado de Defesa, uma medida excepcional que quebra sigilo de correspondências e linhas telefônicas e o direito à reunião, a partir de um suposto estado de tensão no país. Queremos crer que as fontes do senador estão exageradas; se não estiverem, o povo precisará lembrar ao PT que a maior tensão que vivenciamos, de fato considerável, é ainda tê-los no poder.
Quanto ao órgão de diplomacia de nosso país, no passado um motivo de legítimo orgulho nacional, a quarta-feira revelou mais um triste capítulo na história recente de arranhões que o lulopetismo lhe provocou. Segundo O Globo, no final de semana passado, o ministro Milton Rondó Filho enviou mensagens de e-mail para todas as embaixadas com a acusação de que um “golpe está em curso” no Brasil e precisamos resistir “pela democracia”. Uma excrescência que comprova que os petistas não sabem diferenciar entre o país e o partido.
