Diante da posse de Donald Trump, certas formas de chilique, por ridículas que sejam, já eram esperadas. O comportamento vexatório de artistas e jornalistas materializou-se em analogias do magnata a Hitler em capas de jornais e revistas, mentiras desavergonhadas na televisão, CNN e Globo colocando palavras em sua boca, e até uma grande manifestação “das mulheres” contra Trump e em defesa da diversidade, com a presença da abortista e assassina (o que é redundância) Parent Parenthood. Não adentrarei muito mais na discussão desse tipo de palhaçada internacional por ora, que outros já o fizeram muito bem.
Também não me cabe comentar ainda os aspectos da retórica do recém-empossado 45º presidente dos Estados Unidos que permanecem sensatamente duvidosos, como um certo viés protecionista que precisa ser visto com cuidado na prática. Prefiro esperar para ver. Não sou e jamais serei um “trumpista” cego, o que seria infantil, apesar de o defender muitas vezes nos últimos tempos; faço isso porque entendo o desafio que ele representa a projetos ideológicos muito piores do que qualquer coisa que venha a fazer, e por não compactuar com injustiças e calúnias. Porém, voltarei os dardos contra ele com a mesma facilidade quando entender que ele merece.
O que me chamou a atenção foi a frase mais ressaltada de seu discurso de posse: “America First”. Em outras palavras: como presidente dos EUA, Trump disse que lhe cabe dar aos interesses de seu povo e de seu país a prioridade máxima. Disse ainda que, ao contrário do que se costuma pensar, o patriotismo afasta o preconceito, porque em torno da pátria, todos os seus integrantes merecem igual respeito. O que não causaria estardalhaço vindo do mandatário de algum país visto como “marginalizado”, “latino” ou “subdesenvolvido” foi alvejado por grupos diferentes entre si, mas que, em comum, contam o desprezo por esse sentimento normal que é o patriotismo e pela própria concepção de Estado nacional.
Esses ataques partem de dois principais grupos; um deles é uma “esquerda globalista”, que por hipocrisia passou a falar em “mercado aberto” quando discursos como o de Trump e o Brexit despontaram, mas cujo único real interesse é, insuflando e financiando agendas “progressistas”, relativistas morais e politicamente corretas no bojo, flexibilizar ao máximo as soberanias nacionais e submeter as autoridades locais a entidades supranacionais comandadas por burocratas. Patriotismo, valores nacionais, e, por extensão, sentimentos de afeição cultural ou religiosa são, para essas pessoas, forças “do atraso”, que cumpre eliminar em prol de um projeto mais avançado, de uma utopia miraculosa. O outro grupo, de pouca relevância prática, pois não atua muito diretamente na política e não tem impacto direto no rumo global dos acontecimentos, mas que toma parte em uma corrente de opinião importante e tem voz ativa nas mídias sociais no Brasil hoje, é o dos libertários mais extremados, para quem qualquer concepção de Estado – e, por consequência, de Estado-nação – é uma manifestação de “tirania coletivista” ou, por outra, de “socialismo”.
O projeto nocivo dos primeiros está bem denunciado e explicado. No caso dos libertários extremados, com os quais, nessa e noutras questões, não me alinho, permanece uma confusão retórica conveniente entre “socialismo”, uma doutrina moderna do século XIX (apesar de seus antecedentes, que todo sistema de algum modo tem, posto que não brota do nada, mas não são a mesma coisa que ele), e qualquer vestígio de pensamento que apreenda um coletivo como valor. Para certas alas, qualquer mínimo distanciamento do anarquismo capitalista se converte, em geral, em “socialismo”. Isto se dá por que, de maneira quase tão artificial quanto aquela com que socialistas e fascistas procuram levar ao culto do coletivo, esse tipo de pensamento caminha ancorado em um racionalismo dogmático, confessadamente pretendendo reconstruir a realidade a partir de um indivíduo atomizado que, na prática social, não existe e jamais existiu.
Como patriota confesso, alinho-me, neste particular, ao pensamento que o filósofo britânico Roger Scruton, baseado no Whig irlandês Edmund Burke, expõe em seu livro Como ser um conservador, no capítulo que aborda o nacionalismo. Este último pode, encarado e vivido como uma ideologia totalizante, assumindo a prioridade número um, senão a totalidade de importância, perante a religião, a filosofia ou o sentimento humanitário, se tornar um dogma fanático e relativista moral tão terrível quanto os adversários que se propuser a combater. Argumentos socialistas e nacionalistas, por vezes, podem mesmo caminhar juntos, ainda que provenham de árvores distintas, e nesse ponto as críticas libertárias teriam razão. A nação ou o Estado-nação não podem estar acima de certos valores fundamentais, a ponto de alguém se cegar às desvantagens ou imoralidades existentes em seu meio apenas por pertencer a ele.
Scruton, contudo, destaca que, “para as pessoas comuns, (…) ‘nação’ significa simplesmente a identidade histórica e a lealdade que as une no corpo político”. Nesse sentido, em um estado normal, refletindo o que o intelectual católico brasileiro Gustavo Corção preferiria chamar “patriotismo” em vez de nacionalismo, o sentimento nacional é importante até para a própria paz entre vizinhos. Ele alega que “é porque somos capazes de definir a nossa condição de membro de uma sociedade em termos territoriais que, nos países ocidentais, desfrutamos das liberdades elementares que são, para nós, o fundamento da ordem política”; afinal, “nos países baseados em obediência religiosa e não secular, a liberdade de consciência é um ativo escasso e ameaçado”.
Em analogia interessante com a família, Scruton sinaliza que as diferenças de opinião só não dilaceram completamente as boas famílias porque elas entendem haver algo que as deve manter unidas, que elas pertencem a um conjunto. “A família é parte da identidade; é aquilo que não muda enquanto as diversas opiniões se modificam e entram em choque”. Assim, contrariando certo atomismo libertário, Scruton entende que “tem de haver uma primeira pessoa do plural, um ‘nós’, se os muitos indivíduos existem para ficar juntos, aceitando as opiniões e os desejos dos demais, independentemente das divergências”. Para atingir esse objetivo – que, ainda que discordando do método, os críticos do Estado-nação também pretendem desejar -, é preciso, segundo o britânico, que haja então um “nós” nacional, e não um “nós” religioso ou étnico, o que não serviria à acomodação das divergências. “O Estado-nação, como o concebemos, é o subproduto da sociabilidade moldada pela ‘mão invisível’ dos incontáveis acordos firmados entre as pessoas que falam a mesma língua e vivem próximas”, resultando de “soluções conciliatórias obtidas após muitos conflitos” e expressando “a concordância construída vagarosamente entre vizinhos, tanto para garantir o espaço do outro quanto para proteger essa área como um território comum”.
O sucesso dos Estados Unidos, que Scruton enaltece como exemplo, se dá muito em função de aquela experiência social tão admirável se ter criado sob a forma de “um Estado de Direito secular, uma jurisdição territorial e um idioma comum em um lugar em que as pessoas reivindicavam como sendo a sua pátria (lar)”. A isso ele opõe a União Europeia, um construto supranacional burocrático ao qual os países aderiram baseados em suas “lealdades pré-políticas” nacionais e não a um sentimento “continental”, simulando o continente como sendo a nação; tal fato ajuda a explicar a crise atual do bloco, e sugere em parte os empecilhos a um projeto de absoluta governança mundial.
O sentimento de pertença nacional e a ideia de que os líderes escolhidos por um povo valorizem esse sentimento como aquilo que permite aos concidadãos se situarem em seu lugar, entre eles e perante o mundo, visando à convivência mais pacífica possível, perfazem, a meus olhos – como aparentemente aos olhos de Donald Trump –, um valor. Por isso, não veria contradição alguma em me preocupar com as liberdades individuais e a economia de mercado e dizer “Brasil primeiro”, e, portanto, não vejo equívoco algum no posicionamento do novo chefe de governo americano.









O zika vírus era também uma preocupação àquela altura, bem como as Olimpíadas no Rio de Janeiro, o maior evento esportivo da história brasileira; com todos os pesares, com os jogos se avizinhando de uma agonia que ainda teria novos capítulos, mais adiante, com a exposição da calamidade financeira desse estado em que nasci e cresci; com a violência que infelizmente nos acua; com a cerimônia de abertura dando pouca importância aos nossos ancestrais italianos e alemães; as competições, ao fim das contas, transcorreram bem. Sob diversos pontos de vista, as Olimpíadas foram um sucesso, depois de terem sido alvo de todo gênero de zombaria. Afinal de contas, de festa, nós entendemos; isso não apaga os investimentos financeiros em momento inoportuno e todo o cenário de terra arrasada com que o espetáculo de cores e alegria esfuziante acabou contrastando. Por outro lado, no campo simbólico, podemos capturar a intensidade desse sucesso e entusiasmo para as esferas em que manifestamos nossas mais profundas carências; podemos ver nesses jogos a prova de que, com tudo parecendo perdido, somos capazes de ir mais longe e fazer melhor. Basta efetivamente querermos e agirmos, como sociedade, como nação.
Motivo de orgulho nacional já era, também, a Operação Lava Jato. Ao longo do ano, aterrorizando com o fervor da justiça as maiores autoridades do país, as investigações, que vão bem além da figura admirável de Sérgio Moro, já de há muito desmontaram as narrativas que, àquela altura, insistiam em taxá-las de seletivas. Estamos nos despedindo de 2016 tendo assistido à queda de uma presidente da República e de um presidente da Câmara dos Deputados, à queda de vários ministros indicados pelo governo interino e definitivo do peemedebista Michel Temer, e com um acordo de delação com a poderosa empreiteira Odebrecht que periga atingir figuras proeminentes de todos os partidos, avançando sobre todas as lideranças típicas da nossa assim chamada Nova República.
Embora em um cenário de legítima tensão e contestação ao nosso sistema político, com figuras de relevo nos poderes republicanos, notadamente agora do Legislativo e do Judiciário, se digladiando, e lideranças do sistema tentando golpear a Lava Jato – e com o STF, a instância máxima da nossa Justiça, procurando, em diversas circunstâncias, legislar perigosamente como uma espécie de “vanguarda iluminista” a passar como trator por cima dos poderes representativos –, o naturalmente impopular governo Temer tenta ao menos, ainda que forçado pelas circunstâncias (como o foram, aliás, a maioria das melhores coisas que o Brasil já logrou estabelecer, a exemplo do Plano Real) e com aspectos questionáveis, pautar reformas estruturais que podem aliviar nossa realidade ainda desestimulante e de altíssimo desemprego. A PEC do teto dos gastos públicos triunfou sobre o barulho das esquerdas – mas precisa vir acompanhada de uma redução efetiva do gasto atual. Já se tentam ventilar a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista. Ouve-se falar em tentativas dos parlamentares, em comissões legislativas, de colocar em discussão temas como o voto facultativo e até, pasmem, o fim do imposto sindical obrigatório. Estará o Brasil finalmente pretendendo abandonar o Estado Novo de Getúlio Vargas? O governo atual sobrevive às reviravoltas que virão? Se não sobreviver, essas reformas persistirão? É o que queremos conferir nos meses por vir, que prometem muitas emoções.
E quanto ao mundo? 2016 foi o ano em que uma elite midiática e intelectual, que vinha cultivando agendas politicamente corretas e louvando um “globalismo artificial”, proponente de um liberalismo fingido – em verdade, um intervencionismo utópico de perigosas consequências -, viu suas certezas absolutas golpeadas diante da crise europeia de refugiados, da guerra polarizada na Síria e dos atentados terroristas constantes a acirrar os ânimos. Depois de muito tempo de domínio desse tipo de projeto covarde e pusilânime, sem disposição de sustentar a herança ocidental, a resposta veio em figuras que abdicaram dos protocolos e falaram grosso contra esse estado de coisas – nem sempre, talvez, na dose certa, mas falaram. Foi o ano da ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Na Europa, desenha-se cada vez mais a ascensão de movimentos e partidos – alguns mais liberais, outros de um nacionalismo populista que costuma flertar com o autoritário mandatário russo Vladimir Putin – que questionam as determinações da União Europeia. O Reino Unido iniciou o Brexit – a saída do bloco. Há quem, na França e em outros países, deseje o mesmo. Há uma razão para tudo isso estar acontecendo, e somos os primeiros a comemorar que o “mundinho cor de rosa” das esquerdas e do Partido Democrata americano feneça; mas, pessoalmente, também me alinho às incertezas, pois a reação a uma força maligna nem sempre é, por isto apenas, benigna em si mesma. Acompanharemos as transformações na Ordem Mundial, a essa altura aparentemente irresistíveis, com bastante atenção e ansiedade. Teremos uma revivescência de patriotismos saudáveis, ou uma derrogação das relações eficazes de mercado e uma atração perigosa por autocracias populistas “a la” Putin? E a ONU? Continuará a depreciar Israel com decisões esdrúxulas? Que fim terá o derramamento de sangue em Aleppo e na Síria, que, dividindo as grandes potências, levou alguns a destemperadamente aventar uma possível guerra mundial no ano que vai terminando? Mais para perto de nós, e a tirania venezuelana de Nicolás Maduro, agarrado a um socialismo tacanho, por quanto tempo ainda se conseguirá impor em um quadro de verdadeiro desastre humanitário, quando o até então bem-sucedido Foro de São Paulo vai sofrendo sucessivas reações continente afora? O que aguarda Cuba após a morte do icônico ditador assassino Fidel Castro? E o Mercosul, que importância terá em um mundo de variáveis tão nebulosas, depois de todas as merecidas contestações que vem sofrendo?
