O que é a Democracia? Sabemos, de antemão, que é originária da Grécia Antiga, com um fundador mítico (ou quase isso, já que é possível que tenha existido), Sólon, além de Clístenes, que concretiza o projeto de Sólon para formar a democracia ateniense.
Δημοκρατία está como antônimo – em seu significado etimológico – de ἀριστοκρατία, isto é, Democracia e Aristocracia: esta, em sua etimologia, significa “poder dos excelentes”, ou seja, de poucos na sociedade. Aristocratas, em um círculo seleto de poderosos, determinariam os rumos da política, em um grupo que justificaria seu poder por sua excelência, seja pela posse de terras, poder militar, prestígio social, um passado glorioso da família, etc. Já a democracia dava poder ao povo, ou o que se entendia como “cidadão”, na Atenas antiga.
Com o passar dos milênios, pelas políticas republicanas de Roma, as ideias de direito do Império Romano, a problematização do poder leigo e do poder eclesiástico na Idade Média, a divisão dos Três Poderes, de Montesquieu, e com, por fim, a ideia de sufrágio universal, temos a contemporânea democracia: um conceito político, um regime de fato, que possui uma genealogia milenar e que, agora, está em moda; contudo o conceito de democracia ainda se aproxima da sua etimologia, ainda que o que fosse considerado esse “demos”, do qual o poder se deriva, variasse com os tempos e as culturas.
Em relação exclusivamente à concepção atual do termo, mas também levando em conta seu significado etimológico constante, a democracia brasileira detém toda uma tradição que a fundamenta como tal. Retirando os ideais republicanos de Roma (como a noção de Senado), ou seu direito, nosso regime democrático seria capenga, ou retiradas as influências medievais (como o Parlamento, ou a Carta Magna), nossa democracia se veria sem pé nem cabeça; portanto, fica claro que as instituições garantidoras da democracia são essenciais para sua concretização efetiva. Mas e quando o termo “democracia” se torna uma palavra-chave, ou seja, se deforma?
Não raro, nos focos de debate “público”, os detentores da salvação social esbravejam que o país precisa “democratizar” mais as coisas. O que seria essa democratização que tanto pedem? O sufrágio universal já existe, a cidadania é para todos os que nascem no Brasil, então, em termos concretos, cada cidadão acima de dezesseis anos tem o poder de votar em seu candidato preferido. Mais democracia? Não querem um sufrágio literalmente universal, onde até as crianças poderiam exercer seu poder de cidadania – isso mesmo: democracia nunca foi para todos –, mas sim algo que transcende o caráter político e governamental. Querem democracia para o âmbito privado.
Em sua casa, você não vive uma democracia. Famílias não são democratas, assim como as empresas não são. Se pensar bem, nem mesmo os setores públicos são democracias, pois obedecem a uma hierarquia e há postos dependentes de contratos e indicações para serem preenchidos, como os ministérios, as secretarias ou quando alguém é contratado para dar aula em uma universidade pública. As democracias não podem ser absolutas sem ferir as próprias instituições que as erguem, mas isso não passa pela alta cognição dos nossos amigos salvadores do mundo.
Tomados por um sentimento que movimenta atos salvíficos, nossos justiceiros sociais de plantão gritam: “tem que democratizar a educação, democratizar a saúde, o transporte, a comida, produção, o entretenimento”; boas palavras, sem dúvida, mas todas imbuídas de péssimo entendimento da realidade.
Ponha a democracia como um absoluto universal para os grupos humanos, para cenários onde ela não cabe, e as próprias instituições que a sustentam falham, como demonstrei. Tenha uma predileção fanática pelos mais pobres, e aí exigirá que o Estado abocanhe dos mais ricos para dar aos mais necessitados. Então as instituições privadas serão depenadas por membros ungidos dos justiceiros sociais para dividir os bens dos outros, para pessoas que supostamente têm o direito de ter tudo do bom e do melhor.
A partir daí, a palavra “democracia” se torna um vício de linguagem. Ela não é mais referente à participação política, onde um povo tem o poder de escolher seus líderes, mas sim um sistema de cima para baixo, onde ungidos, salvadores do social, detentores das definições de certo e errado, escolhem e apontam seus burocratas para determinar o democrático. Os salvadores do mundo tornam-se os excelentes e expoliam os bens de outros para dar as migalhas para seus escolhidos, ou melhor: seu gado.
É o poder público sugando e expropriando o bem privado. Escolas privadas sendo obrigadas a aceitar alunos que não têm condições de permanecer lá, hospitais gastando fortunas com medicamentos e tratamentos para pessoas que não irão pagar, produtores industriais e agrícolas vendo suas terras roubadas para dar a pessoas com a capacidade de plantar três pés de bananas…
Uma concepção errada do que seja democracia, somada a um romantismo social, leva os justiceiros não a raciocinarem, mas a sentirem. Ao extrapolar o sentido de democracia, cometem o mesmo erro de um rei que extrapola sua própria majestade, quando expropria os bens de seus súditos de modo arbitrário apenas por ter a coroa: o princípio da agressão é o mesmo.
Ao viciar o termo, o conceito se deforma na mente pueril dos salvadores do Homem, incapacitando-os de discernir, ou problematizar, o uso ou desuso da terminologia democrática para tratar de problemas sociais. Têm a ânsia de abocanhar tudo de acordo com seus projetos, não se importando com os reveses e contradições que enfrentam ao longo do termo, ou seja, desabilitam a autocrítica com um voluntarismo doentio em nome dos mais pobres.
O nome de um regime “democratizado”, no entender desses iluminados sociais, deve ser outro: um regime ditado por operadores políticos que acham por bem perverter o conceito de democracia.






O terror é o gênero mais conhecido pelos amantes do trabalho de Poe que, mesmo não sendo um autor exclusivo do estilo
O interessante é que o personagem principal, em sua solitude, não perde tempo em devanear para mais lembranças de um passado distante:
O desespero, a ira e a negação se abatem no homem. Não aceitará os repetidos “nunca mais” que escuta. Cada resposta do corvo o dilacera, confirma seus medos, sua realidade nua e crua.
Na História, a articulação estrutural do pensamento hedonista surge de um discípulo de Sócrates, Aristipo de Cirene, o fundador da Escola Cirenaica, que tinha como doutrina de vida a concepção de que a Felicidade seria o bem supremo. Mesmo com Aristipo submetendo isso ao uso racional dos prazeres, para não existir uma decadência, a escola termina por cair em um pessimismo exacerbado, pois suas buscas, seus nortes, eram incompletos e ocos.




