ESTA SÉRIE FOI PUBLICADA ORIGINALMENTE PELO INSTITUTO LIBERAL.
I
RESUMO: A série se destina a uma análise do pensamento do jornalista e político Carlos Lacerda sobre a função do Jornalismo, a partir de uma seleta de trechos de sua obra A Missão da Imprensa, interpretados e analisados em conjunto com outros livros do autor, e com os principais episódios de sua biografia. O objetivo é identificar as relações entre o posicionamento político e a experiência histórica de Lacerda com seus pensamentos, enfocando a visão da imprensa como portadora de uma missão, compreendendo como ele concebia o jornalista como “zelador do bem público” e enxergava as relações de seu ofício com a opinião pública.
Ar de seriedade impassível, intrepidez inequívoca, óculos peculiares e sempre presentes. Quando essa combinação se apresentava diante das tribunas, ou transmitia mensagens nas páginas de um jornal, as mais diversas reações se manifestavam por todos os cantos de um Brasil de metade do século passado. Políticos das mais variadas estirpes se aturdiam, receosos de um poder demolidor e combativo como poucos vistos no país.
Partidários de convicções opostas se preparavam para proferir insultos enfurecidos, diante de um homem que lhes causava a mais profunda irritação, o mais irresistível incômodo. Mulheres da classe média do Rio de Janeiro, sobretudo a do que nos anos 60 era o Estado da Guanabara, suspiravam por sua imagem idolatrada, e entusiastas vibravam com sua reconhecida oratória. Atendendo ao pedido do próprio personagem em questão, um amigo, o historiador John Dulles (1992), escreveu sua biografia em dois volumes, na qual elencou depoimentos de personalidades brasileiras que tentaram definir sua importância no cenário nacional. O historiador José Honório Rodrigues escreveria que “ninguém sozinho influiu tanto no processo histórico brasileiro” no período de 1945 a 1968. Um advogado ilustre, Dario de Almeida Magalhães, o definiria como “o adversário mais temido e implacável conhecido neste país, pelo menos nos últimos 50 anos”. O deputado Paulo Pinheiro Chagas, como “o maior tribuno que passou pela Câmara dos Deputados”.
O fenômeno atendia pelo nome de Carlos Frederico Werneck de Lacerda. Para uns, era identificado pela alcunha de Demolidor de Presidentes; para outros, era o Corvo, em referência à famosa charge realizada pelo cartunista Lan em A Última Hora, em que ele aparecia desenhado com o corpo da ave homônima. Tantas funções e tantas facetas ele apresentava, que a complexidade de sua biografia impede abordagens mais amplas em espaços restritos.
Nosso propósito nesta série é explicitar brevemente o aspecto que o próprio teria escolhido como fundamental eixo norteador da sua trajetória: o Carlos Lacerda jornalista. Procuramos demonstrar, através da análise de trechos extraídos de sua obra A Missão da Imprensa (1950), o pensamento lacerdista acerca da atividade jornalística. Com isso, pretendemos identificar sua concepção de que o jornalismo é uma atividade de viés messiânico, com um propósito social muito bem relacionado com as ideias políticas a que ele acabou por se ligar no período mais conhecido de sua carreira, quando se tornou tribuno da União Democrática Nacional (UDN).
Sua declaração no princípio do pequeno livro não deixa dúvidas: “por jornalista fizeram-me político, por jornalista elegeram-me, por jornalista renunciei, por jornalista vivo, por jornalista quiseram matar-me” (1950, p 8). A dedicação considerável ao seu ofício, aliada à sua importância particular na cena política nacional, torna relevante uma análise do papel de Lacerda na história da imprensa brasileira.Faz-se necessário para tanto apresentar a trajetória do personagem, intercalando-a com suas atividades em periódicos. Não seria possível entender o jornalista sem entender o homem.
II
Nascido em 30 de abril de 1914, ele era filho do tribuno e escritor Maurício Paiva de Lacerda (1888-1959) e de Olga Caminhoá Werneck (1892-1979). Foi registrado em Vassouras, embora tenha nascido no Rio de Janeiro. Seu avô, Sebastião Eurico Gonçalves de Lacerda (1864-1925), fora ministro do Supremo Tribunal Federal e atuou em defesa de ideias republicanas e abolicionistas.
A história de envolvimento da família com a política continua com seu pai e seus tios, Paulo de Lacerda e Fernando Paiva de Lacerda. Os tios foram comunistas militantes, ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), e chegaram mesmo a ocupar cargos dirigentes. Segundo o biógrafo de Carlos Lacerda, John W.F. Dulles (1996), Maurício deu ao ilustre filho seus nomes (Carlos e Frederico) em homenagem aos filósofos do chamado Socialismo Científico, Karl Marx e Friedrich Engels. Muitos amigos de Maurício eram anarquistas e socialistas que escreviam em A Barricada (1915) e O Debate (1917), bem como políticos populistas e líderes trabalhistas que desafiaram o presidente Venceslau Brás e a polícia durante as grandes greves em meados de 1917. A vida do pai de Lacerda foi também especialmente intensa, tendo agido como ardente defensor de ideias socialistas como alternativas políticas válidas para o país, conquanto na maior parte do tempo se mantivesse em posição de independência com relação aos comunistas (DULLES, 1992, p. 21).
Para espanto de quem o conhece pela sua fase mais célebre, é na esquerda que tanto combateria que Carlos Lacerda começou tanto sua atuação política quanto sua atuação na imprensa – que nos interessa mais diretamente aqui. Aos 16 anos, em fins de 1930, ele se apresentou para trabalhar no Diário de Notícias. O primeiro artigo em que seu nome apareceu como autor veio à luz em 29 de agosto de 1931, no qual Lacerda discutia os anseios da juventude e aqueles que a desprezavam. Defendendo um aumento no espaço da Faculdade de Direito, o jornalista, nos artigos que se sucederam, apoiou “a abolição do privilégio das cátedras” e a “livre manifestação de todas as correntes ideológicas do tempo presente”.
Continuou seu trabalho em uma revista da Casa do Estudante do Brasil, que Lacerda, encarregado do projeto, chamou de Rumo.Em junho de 1934, foi nessa revista que Carlos escreveu um artigo dirigindo fortes críticas ao que considerava como feições fascistas de Plínio Salgado e sua Ação Integralista Brasileira.
Após a falência da revista, Carlos passou a colaborar com a Revista Acadêmica, publicando lá seu primeiro artigo em 1934 – uma análise de São Bernardo, de Graciliano Ramos, na qual, já cursando a faculdade de Direito, evidenciava sua adesão a ideias marxistas, ao argumentar que“quando a Revolução vier, encontrará um sistema para destruir. Não encontrará homens, porque esses, os da classe dominante, já se dissolveram na lama de si mesmos” (apud DULLES, 1992, p. 35). Atuando em organizações estudantis com forte ideário esquerdista, pichou “Abaixo o imperialismo, a Guerra e o Fascismo” em uma estátua de Pedro Álvares Cabral. Ele também publicou artigos em 1933 no Jornal do Povo, veiculoque Aparício Torelli fez circular durante cerca de duas semanas.
Apesar de tudo, Lacerda não fez uma inscrição oficial na juventude do PCB. Em 1935, porém, com a fundação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização de movimentos de esquerda formados para combater frentes populares de tendências vistas como fascistas, Carlos foi orador oficial da diretoria local. Escrevendo de vez em quando para A Manhã e, mais assiduamente, para a Revista Acadêmica, Lacerda aproveitava a oportunidade para defender o programa marxistaque abraçava. Com o pseudônimo de Marcos, contou em um livreto a história do quilombo de Manuel Congo – líder da maior rebelião de escravos ocorrida na região do vale do Paraíba do Sul, especificamente em Paty do Alferes, no Rio de Janeiro – de valor histórico, usado também para uma espécie de propaganda comunista velada, enaltecendo conceitos como o de “classe dominante”.(DULLES, 1992, p. 38).
Em novembro de 1935, aconteceu a Intentona Comunista, uma tentativa de golpe contra Getúlio Vargas pelo PCB. Em 1937, aliando esse fato ao famigerado Plano Cohen, o então presidente do Brasil alegou a necessidade de instalar um governo de exceção, iniciando a ditadura do Estado Novo. Na clandestinidade, Lacerda se refugiou na velha chácara da família em Vassouras, onde foi protegido pelos parentes influentes. Nessa época, se casou com Letícia Abruzzini.
Em meados de 1938, a trajetória do jornalista seguiu um caminho natural para quem precisava de uma fonte de renda mais segura, e ele foi trabalhar no Observador Econômico e Financeiro. Curiosamente, Samuel Wainer (1910-1980), futuramente visto como um grande oponente de Lacerda, o admirava nessa época, e permitiu a publicação de alguns de seus artigos de cunho esquerdista em seu veículo Diretrizes.
A virada que fez Carlos Lacerda assumir o papel que o notabilizou historicamente se deu a partir de sua rejeição pelo próprio Partido Comunista. Tudo começou quando o governo do Estado Novo decidiu comemorar seu aniversário com uma exposição das realizações de seus ministérios, e uma parte dela abordava o combate do Ministério da Justiça ao comunismo. O Observador, ajudado financeiramente pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão do governo, deveria colaborar. Lacerda ficou reticente em escrever devido à sua ligação com os comunistas, mas foi orientado por eles mesmos a publicar um artigo, tentando convencer o público de que a ideologia do partido não representava um perigo. O texto publicado, porém, não agradou aos seus mentores, que acusaram Lacerda, na Revista Proletária,de ser “reles aventureiro a serviço do fascismo que, por algum tempo, conseguiu ludibriar a boa-fé dos meios revolucionários e democráticos”. (DULLES, 1992, p. 64)
O percurso posterior de Lacerda demonstra que a transformação foi radical. Como registra Aloysio Castelo de Carvalho (2012) em seu livro O Caso Última Hora e o cerco da imprensa ao Governo Vargas, Lacerda se converteu ao catolicismo por influência de Alceu de Amoroso Lima e Gustavo Corção. Se a opção religiosa já o fazia divergir do marxismo ortodoxo, sua transformação na esfera política apenas a acompanha. Lacerda assumiu uma faceta radicalmente anticomunista, afirmando que nessa doutrina há elementos incompatíveis com a nossa civilização, tais como “a marcha para a estatização das estruturas, a sua subordinação ao Estado como agente e dirigente de toda a sociedade”. (CASTELLO, 2012, p. 39) Passou a enxergar na doutrina comunista o perigo de uma ditadura pior do que as outras, muito mais organizada, e, portanto, muito mais difícil de derrubar.
Lacerda se tornou o que hoje comumente, em um emprego vulgar do espectro político, se chamaria de direitista, ou conservador – apesar de ele próprio rejeitar o uso, como deixa claro em sua obra O Poder das Ideias(1963), uma vez que receava a multiplicidade de aplicações que são dadas aos termos “direita” e “esquerda”, preferindo ser conhecido como um homem da democracia. Não foi o único representante da direita política no Brasil que abandonou um passado de envolvimento com a esquerda, antecedendo, nesse particular, nomes como Paulo Francis e Olavo de Carvalho.
Ele adotou um discurso similar ao das ideias do liberalismo clássico, mas, como Maurício Dominguez Perez(2007) deixa claro em sua obra Lacerda na Guanabara – A reconstrução do Rio de Janeiro nos anos 1960, tinha uma visão mais estatizante da economia que a de liberais de tradição genuinamente inspirada na obra do economista Friedrich Hayek – ícone da Escola Austríaca e do liberalismo neoclássico -, como Roberto Campos. Isso foi causa de alguma tensão entre os dois, quando este último foi ministro no governo Castelo Branco, embora, ao fim de sua vida, Lacerda tenha dito que “Roberto Campos conhece tudo que eu não conheço de economia, e eu conheço tudo que ele não conhece de política. Ele é o homem que eu escolheria para Ministro da Fazenda de meu governo.” (DULLES, 2000, p. 588)
Lacerda se tornou muito popular entre uma considerável parcela da classe média, especialmente no Rio de Janeiro. Gerou-se, em torno dele, um fenômeno de predileção e idolatria, chamado por simpatizantes e detratores de lacerdismo. Juntou-se ao partido que reunia lideranças mais voltadas aos pensamentos conservadores e liberais no Brasil, a União Democrática Nacional (UDN), e atraiu inimizades tanto de comunistas quanto de populistas e trabalhistas – os integrantes do que ele chamava de “oligarquia da Revolução de 1930”. Também se tornou o maior inimigo público do governo de Getúlio Vargas. Quando, anos após o Estado Novo, Getúlio novamente se candidatou em 1950 à presidência, Lacerda já se destacava como opositor a sua campanha. Combateu também os presidentes Juscelino Kubitschek de Oliveira e João Belchior Marques Goulart, além de Jânio da Silva Quadros (a quem inicialmente apoiou), mas foi mesmo a polêmica com Vargas que deixou mais marcas, tanto do ponto de vista político, quanto do ponto de vista jornalístico. Em 5 de agosto de 1954, ele sofreu um atentado em Toneleiros, em um evento que acirrou a crise que conduziu ao suicídio de Getúlio.
Durante esse mesmo governo constitucional de Vargas, Lacerda popularizou seu jornal, Tribuna da Imprensa. Originalmente, Na Tribuna da Imprensa era o nome de uma coluna que ele publicou no jornal Correio da Manhã, inspirando o periódico fundado em 27 de dezembro de 1949, repleto de matérias e editoriais famosos. Carlos Lacerda ainda foi vereador (1945), deputado federal (1947-1955), governador do Estado da Guanabara (1960-1965) e dono da editora Nova Fronteira.
Um dos aspectos mais criticados pelos adversários é sua vinculação a movimentos considerados golpistas, aos quais apoiou abertamente. Em 1964, Lacerda foi, ao lado de nomes como Ademar de Barros e Magalhães Pinto, uma das lideranças civis a defender a deposição do governo João Goulart. Muito próximo de alguns setores militares, publicou na Tribuna, em 2 de abril daquele ano:
Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr. João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu.
Apesar do apoio inicial, ele não se satisfez com a prorrogação do mandato de Castelo Branco, o primeiro dos presidentes militares, e receou que o regime se transformasse em uma ditadura sem desfecho previsto, o que de fato aconteceu. Tornando-se oposição, articulou-se com antigos rivais políticos para formar a Frente Ampla. O resultado foi que teve seus direitos políticos cassados em 1968, vindo a morrer em 21 de maio de 1977, na clínica São Vicente, oficialmente por infarto no miocárdio.
Para além de todas as polêmicas que o cercam, resta evidente que toda a sua vida refletiu sua atuação como jornalista, e esta, por sua vez, acabou tendo relevante papel em relação aos outros aspectos de sua rica biografia.
III
O livro “A Missão da Imprensa” (1950) é um testemunho de Carlos Lacerda sobre o jornalismo. Pelo título, já se depreende que esse personagem singular da história brasileira, sobretudo da imprensa nacional, o considerava como algo investido verdadeiramente de caráter missionário – o que pretendemos demonstrar. A obra é um registro escrito de discurso realizado no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, no Conservatório de Belo Horizonte e na Faculdade de Direito de São Paulo.
O autor não poderia começar doutro modo que não pela definição da tarefa do jornalista, pensando sua profissão:
Arte de simplificar a complexidade dos fatos e das opiniões, tornando-os acessíveis à compreensão de um número apreciável de pessoas, fixando-os num momento de sua trajetória, o que confere certa permanência à sua transitoriedade. E assim, na imobilidade de um momento, neles encontra a marca da eternidade. (LACERDA, 1950, p. 20)
Lacerda principia o livro transcendendo essa mesma definição. Ele estabelece que, em seu entendimento, a função do jornalista é a de um “zelador da comunidade”. Isso significa que cabe ao jornalista a tarefa própria de um vigilante da sociedade, que acaba por estimular a aceleração de processos e medidas públicas. Explicitando essa opinião, ele aproveita para endereçar uma crítica curiosa a quem acredita que os jornalistas não exercem um papel construtivo:
É realmente comum ouvir dizer de um jornal ou de um jornalista que ele não constrói. Fazem-se até comparações, mostrando que um governante constrói estradas, enquanto o jornalista apenas mostra que essas estradas custam o dobro do que deveriam custar. Tenho para mim que o simples bom senso mostra que, ao agir assim, o jornalista está realmente promovendo a construção de duas estradas pelo preço de uma. (…) O próprio do jornalista é ser o zelador, como de todo homem dizia Jackson de Figueiredo. Próprio do jornalista, antes de tudo, é “ver”. E, uma vez visto, dizer que viu. Da imprensa, já dizia Rui, ao qual tantas vezes recorrerei, que era “a vista da Nação”. E dizia também que pela imprensa ouve a fala a nação, temos que o jornalista é os olhos, os ouvidos, a boca e – ai de nós – algumas vezes até o nariz da nação.(LACERDA, 1950, p. 11)
De certo modo, o célebre udenista fala um pouco de si mesmo nesse momento, aproveitando para claramente se defender da fama de “destruidor”. Diante de sua atuação intrépida como opositor, foi posta várias vezes em dúvida sua capacidade de “construir”, até que ocupou a posição de governador da Guanabara.
Mais à frente, Lacerda retoma essa discussão: “pois do jornalista não se exija que construa senão aquilo que lhe é próprio construir: uma opinião pública bem informada, atenta, vigilante, esclarecida”. Como se vê essa função é considerada por ele como fundamental, defendendo honestidade e fidelidade a esse propósito por parte dos jornalistas.
No exercício dessa função de “zelador” e, como se vê, “construtor”, o jornalista lida muito com a “opinião pública”, conceito fundamental no estudo da imprensa, com que Lacerda não deixa de trabalhar. No corpo central do livro, ele propõe que a opinião pública é a “média da opinião daqueles que leem jornais”. Diz que cada país tem a imprensa própria ao caráter de suas elites dominantes – considerando por isso tudo o que a comunidade tem de mais influente, disseminador e formador de opinião, e não usando o conceito em um sentido marxista. Sendo assim, os problemas no campo jornalístico seriam reflexo das deficiências daqueles que, ocupando posições de destaque no campo social e cultural, acabam sendo então os principais responsáveis pelo estado das diferentes instituições e práticas no âmbito nacional.
A tenuidade das elites, a escassez, a falta de densidade delas, eis o que facilita a crise moral que grassa num país destituído de uma base material capaz de permitir o desenvolvimento numérico e qualitativo de sua gente. (…) Se a nossa imprensa está ruim, a culpa não é dos que não a leem e sim, precisamente, das elites que leem, que escrevem, que pagam, que anunciam, que temem, que se ausentam, que se esquivam, que se furtam – e que furtam! (LACERDA, 1950, p. 26)
IV
Lacerda deixa claro aquilo que Aloysio Castelo (2012) considera como a responsabilidade de quem participa ativamente da produção simbólica e informativa, especificamente na imprensa, para com a chamada “opinião pública”, isto é, para com as repercussões de ideias entre as massas. “A opinião pública é influenciada pela existência das massas que precisam ser despertadas para a inteligência, bem como conduzidas para os bons sentimentos”, diz o autor, analisando o pensamento emitido por Lacerda em seus editoriais na Tribuna da Imprensa.
Ele associa essa análise às correntes liberais do século XIX, utilizando autores como Stuart Mill, Tocqueville e José Ortega y Gasset para atribuir ao jornalista o receio daquilo que este último filósofo chamou de “rebelião das massas”. A teoria se refere a uma perigosa padronização dos indivíduos na coletividade, o que os autores liberais e conservadores-liberais entendem como sendo a matriz das diversas formas de totalitarismo, tais como o fascismo e o comunismo. O “homem-massa”, “definido como solitário, completamente padronizado e possuidor de um sentimento de ódio em relação à superioridade dos outros”, como o define Aloysio, daria vazão à “tirania da opinião e sentimentos dominantes”, na terminologia de Stuart Mill, ou ao que se poderia chamar de ditadura da maioria.
O ideário da Tribuna da Imprensa se dedica, então, a defender instituições sociais, como a família e a escola, de uma forma engajada. Lacerda entendia que os interesses das ideologias totalitárias ameaçam derrubar a independência dessas instâncias comunitárias para produzir o totalitarismo e a padronização do “homem-massa”. Esse é, sem dúvida, um pensamento que faz eco com as ideias das tradições do liberalismo e do conservadorismo – encontrando defesa entre teóricos liberais mais recentes, como Hayek, e na longa tradição de um conservadorismo moderno, construída a partir do irlandês Edmund Burke.
O texto prossegue com críticas à prática jornalística no Brasil de sua época, visto como extremamente amador e despido de uma consciência profissional. As palavras que seguem não podem ser simplesmente descritas em discurso indireto, sem deixarem de extravasar toda a sua intensidade apaixonada:
“Mas, por favor, não julguem por aí o jornalismo. Esses não são mais do que aves de luxo do jornalismo. O seu curso faz-se na sala de visitas, lugar em que se pendura o retrato de jornalistas mortos e se põe a mofar os falsos jornalistas vivos; nunca na redação, onde o jornal nasce e renasce todos os dias, com as misérias que lhe são próprias, mas não com essa que vem de fora. O jornalista, quero dizer, o homem que tem a paixão do jornal, e morre como tantos tenho visto, amarrado a um magro salário pelo pobre orgulho de renunciar a outro prazer que não seja o de dar prazer aos outros, privando-se de outro desabafo que não o do leitor, esse é o que o povo define, como por si definiu Rui Barbosa, “ao mesmo tempo um mestre de primeiras letras e um catedrático de democracia em ação, um advogado e um censor, um familiar e um magistrado” (…) “Maior responsabilidade, pois, não pode assumir um homem para consigo, para com o próximo, para com Deus”, concluiu o mesmo Rui, que por sinal nunca foi, a meu ver, maior do que sendo jornalista”. (LACERDA, 1950, p 15)
A visão lacerdista do jornalismo é em torno dessa responsabilidade hercúlea e quase messiânica da divulgação da verdade e da construção da opinião pública, e ele ratifica isso, apoiando-se nas ideias defendidas por Rui Barbosa, o que lhe evidencia a admiração por esse outro personagem da história política brasileira:
“Que atraía o Baiano para o jornalismo? Precisamente a função de ‘despertar no seio do país’ as forças morais, apelar para o poder da consciência, entorpecida, mas talvez ainda não morta, falar a essa intuição de justiça, a essa avidez de sinceridade, a essa simpatia pelo desinteresse, que não se extinguem na índole das nações cristãs”. (LACERDA, 1950, p. 16)
V
O discurso de Lacerda contra a maneira como seus colegas conduzem a prática jornalística apenas se intensifica, em virtude de sua constante preocupação com a valorização da ética e da qualificação profissional. Ele recorda que um jornalista deve ser reconhecido pela sua entrega à função, e não por títulos ou associações a órgãos como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Para Lacerda, o jornalista deve demonstrar equilíbrio entre a tolerância e a intransigência, sempre levando em consideração o viés messiânico de seu trabalho.
Lacerda não foge a discutir a simplificação inerente à prática jornalística, mas acrescenta que o jornal é a “escola da opinião, a universidade portátil”. Ao explicar o que quer dizer com isso, Lacerda pontua uma das passagens mais interessantes do livro: sua visão acerca da neutralidade e da liberdade de imprensa. Para ele, é inevitável que haja uma pessoa produzindo o “recorte”, a linha editorial de um veículo; já reconhecia que é tolice esperar que o jornal seja uma tribuna inteiramente livre à manifestação anárquica e indiscriminada de todas as opiniões. Consciente disso, Lacerda agiu como precursor de técnicas jornalísticas que perseguem a objetividade jornalística como um ideal, ainda que se tenha notabilizado por ser um articulista com a força da opinião. Isso não é contraditório, e ele mesmo justifica essa posição ao final do livro:
“O ideal de separar informação de opinião é um ideal, quer dizer, existe com a condição de nunca ser completamente atingido. Mas, ainda quando seja impossível atingí-lo por completo, o importante é não deixar de se esforçar por atingí-lo”. (LACERDA, 1950, p. 75)
Apresentando sua própria versão da célebre máxima do filósofo iluminista francês Voltaire, Lacerda prefere dizer: “não creio numa palavra do que dizes e, portanto, tudo farei para convencer-te de que estás errado; defenderei, sim, o teu direito de verificar livremente o quanto está errado aquilo que tens dito.” Para se justificar da declaração sujeita a interpretações menos felizes, Lacerda introduz a orientação eminentemente política de seu discurso, atacando os comunistas:
“Não matar o adversário não é a mesma coisa que deixar o adversário vencer. Por exemplo: não queremos que os comunistas, apenas por serem comunistas, sejam mortos pela polícia; mas por isso não devemos combater apenas a polícia e deixar os comunistas se substituírem a ela até o dia em que começarão a matar, em nós, aqueles princípios pelos quais eles próprios subsistiram. Essa é uma regra que frequentemente esquecem os que arvoram em ideal da tolerância na imprensa uma espécie de jogo de azar”. (LACERDA, 1950, p. 22)
Diante de toda essa convicção, naturalmente Lacerda se dedica a criticar a imprensa durante o Estado Novo e as alegadas vinculações de subserviência ao governo, por meio da DIP. Todo esse discurso se reflete nos ataques que fez ao Última Hora de Samuel Wainer, quando promoveu a derradeira campanha contra Getúlio Vargas.
O texto de Lacerda age sempre como uma metralhadora, mesmo quando está falando do jornalismo. Uma crítica estrutural de que se utiliza é ao abuso das manchetes, sob pretexto de atrair um público visto como menos letrado – debate que foi levantado também nos Estados Unidos. Outra, de caráter ideológico, é a ideia de que a imprensa dita “burguesa” por diversas vezes acaba servindo aos interesses comunistas, em razão da presença deles em diversas redações.
Uma passagem muito emblemática é aquela em que ele apresenta as condições para saber se o jornalista agiu, em determinada situação, como intérprete ou deformador da opinião pública. Segundo Lacerda, “se ele agiu tendo em vista o bem público e não uma conveniência ou um preconceito, de ordem pessoal ou partidária ou ideológica em geral”, e “se as suas provas são válidas, ou se ao menos as presunções eram de molde não só a convencê-lo como à opinião pública cujo estado de espírito levou-o a adotá-las”, então podemos dizer dele que bem representou essa mesma opinião.
Assim, percebemos que, em que pese reconhecer a impossibilidade real de uma total neutralidade na imprensa, o autor não deixa de desfraldar a bandeira da solidez sincera da prática jornalística. Tão importante é se portar de forma correta no exercício de função na imprensa, tendo em vista que ela é “o quarto poder” – e, fazendo menção a isso, Lacerda referencia Thomas Carlyle que, em realidade, estava citando Burke:
“Burke disse que havia três Estados no Parlamento; mas, na distante Galeria dos Repórteres, sentava um Quarto Poder mais importante do que todos. Não é modo de dizer ou um comentário espirituoso, é um fato literal – muito significativo para nós atualmente. Literatura é nosso Parlamento também. Imprensa, que vem necessariamente da escrita como digo normalmente, é equivalente à Democracia: inventada a escrita, Democracia é inevitável. Escrita traz imprensa; traz imprensa universal, cotidiana e espontânea, como vemos no presente. Qualquer um pode falar. Falar agora para toda a nação vira um poder, um braço do governo, como peso inalienável na feitura de leis e em todos os atos de autoridade”. (CARLYLE apud VENÂNCIO, 2013)
Discorrendo sobre observações de caráter exemplificativo e histórico, Lacerda destina a parte final de seu opúsculo a tratar mais amplamente da liberdade na imprensa, e, sempre frisando a responsabilidade e a necessidade de zelar pelo bem comum no jornal, expressa também sua filiação ao conceito de propriedade:
“O conceito cristão da propriedade como uma obrigação social, como algo que importa em deveres e que abrange direitos somente na medida em que tais deveres são cumpridos, em nenhum outro campo é tão poderoso quanto no da imprensa. O jornal não é apenas um meio de informação que se faz para ter lucro. O direito de possuí-lo importa nas mais sérias obrigações que um homem ou um grupo pode assumir perante a coletividade”. (LACERDA, 1950, p. 46)
Carlos Lacerda não hesita em apontar tudo aquilo que entende como imoral e que afasta a imprensa de sua missão. No cenário brasileiro, assim como na política – entregue ao clientelismo e ao populismo, e distanciada da moralidade administrativa que era bandeira tanto do político Carlos Lacerda quanto do partido UDN -, ele via na imprensa os mesmos vícios persistentes. Acredita que a imprensa brasileira “ainda não se redimiu de seus erros, contra si própria e contra a nação cometidos, e já, talvez por isso mesmo, volta a cometê-los”.
Apesar disso, Lacerda pontua que o jornalista brasileiro era superior até ao americano em “conhecimentos gerais e em agudeza de espírito”. Entretanto, sofria com a falta de profissionalismo e com os seguintes problemas, elencados por ele como as características frequentes de nossas incursões no ramo:
– Exagero e facilidade no ataque e no elogio.
– Pouca referência às fontes de informação e verificação da notícia, por dificuldade de acesso. Basta dizer que apenas três ou quatro jornais, no Brasil, têm arquivo digno desse nome.
– Preferência pelos aspectos superficiais do problema.
– Nacionalismo extremado como regra, subserviência ao interesse estrangeiro como exagero contrário.
E assim por diante. Numa palavra, falta de equilíbrio, instabilidade de julgamento, não somente uma característica do jornalismo como de todo o país. (LACERDA, 1950, p. 65)
Ele consideraque esta imoralidade se reflete na falta de respeitabilidade com que a imprensa se apresenta ao público, subserviente que esteve sempre aos interesses da política controlada pelas oligarquias do atraso que sua faceta de político udenista tanto condenava. Curiosamente, ao menos a acusação de “exagero e facilidade no ataque e no elogio” foi e ainda é muitas vezes feita ao próprio Lacerda.
Lacerda também discute a relação entre a imprensa e a publicidade, tema de importante debate nos estudos acerca dessas áreas. Não obstante considere que a publicidade mereceria exame próprio, ele pensa que os anúncios estão entre os conteúdos mais lidos de um jornal, já lhes conferindo vultosa importância. Mostra-se também moderno, ao criticar a prolixidade de jornais que preenchiam suas páginas com despachos de diretores de repartição, como que a concorrer com o Diário Oficial. Em resumo, para Lacerda, o grande cerne da questão está em que “o jornal, como indústria, não perca, antes aperfeiçoe, aquela característica de paixão pelo Bem Público, que lhe deu alento nas suas bravas e humildes origens” (1950, p. 64).
VI
Considerações finais
No decorrer desta análise, observamos como um dos personagens mais importantes da história política contemporânea compreendia os deveres e atribuições da imprensa, sendo ele mesmo um jornalista. Identificamos que seus pontos de vista de inspirações políticas liberais e conservadoras faziam-no ver no jornalismo um mecanismo de potencial emancipador para as massas – no sentido de aprimorar-lhes as aptidões e direcioná-las ao rumo certo -, na medida em que transmita a produção simbólica e informativa de uma elite cultural. Essa compreensão se dá dentro de sua ótica da “opinião pública”, que deveria ser exatamente o resultado desse processo.
No exercício desse trabalho, o jornalista atuaria como um “zelador”, fiscalizando e estimulando, por exemplo, o cumprimento de promessas políticas ou a realização de obras públicas, na comunidade ou no país. Para tudo isso, valorizava a ética e a qualificação profissional – características típicas do tipo de postulado que defendia em suas dissertações políticas, no que ficou conhecido como o “moralismo udenista”.
Diante desse panorama, toda a jornada que se pode empreender, mergulhando na trajetória de Carlos Lacerda, em sua imbricação com a atividade jornalística e em sua compreensão da imprensa como um encargo messiânico, revela apenas que a complexidade desse personagem singular de nossa história sócio-política não pode ser facilmente, tampouco completamente, amputada, para que seja observada apenas em um de seus elementos formadores.
Nunca será demais repetir que o Lacerda político é o Lacerda intelectual, é o Lacerda orador, é o Lacerda que foi comunista e se converteu em porta-voz de pensamentos à direita. Todos esses são também o Lacerda jornalista, que representa o mais pleno amálgama de todos os outros, e que é o mentor de todos eles – a matriz por trás da figura das mais importantes da história do Brasil do século XX. Tudo que Lacerda foi orbitou em torno de sua vocação.
O que nos anima, numa profissão que é ao mesmo tempo uma vocação, profissão que se não escolhe porque se impõe e nos agarra e não mais nos deixa livres de sua marca, e nos reduz a um pobre esfarinhador de ideias que desejaríamos altas, fortes e bem compostas, mas que são apenas as miudezas de uma experiência bem sofrida, é ainda a lição dos maiores, dos que antes de nós, melhor do que nós, lhe deram expressão mais digna do vosso aplauso do que vossa paciência. (LACERDA, 1950, p. 77)
Considerável parcela dessa importância advém da perspectiva messiânica com que Lacerda encarava seu ofício, afirmando o próprio enriquecer o significado de sua vida a partir dele. Como ele conclui também em A Missão da Imprensa: “O jornal é uma obsessão. É a obra de uma vida, a mais bela obra de uma vida, que por via dela, adquire então pleno sentido”.

