








Esse livro foi publicado em 1932 e é uma das distopias mais marcantes que você pode ler.
Características da civilização do admirável mundo novo:
– Há um governo mundial;
– A religião é a voz do governo;
– Não há família;
– Não há casamento;
– Toda a educação é cuidada pelo Estado;
– Todos os seres humanos são criados num laboratório;
– As mulheres não engravidam, pois existe o cinto malthusiano e elas acham nojento a ideia da gravidez;
– Caso aconteça de a mulher engravidar, há clínicas de aborto disponíveis 24 horas por dia.
– Todos são doutrinados desde seu nascimento a achar nojento o conceito de “família”, “pai” e “mãe”.
– Não há monogamia. Um dos lemas da sociedade é “cada um é de todos”.
– Os nomes são padronizados, para homenagear os pais daquela nova civilização: Ford, Marx, Lênin (ou Lenina), Bernard, Shaw, Darwin.
– Há uma droga chamada soma que é distribuída pelo governo.
– A velhice foi abolida. Eles vivem para morrer jovens e são condicionados a achar a morte natural.
– Os únicos livros permitidos são os técnicos escritos por autores da nova civilização.
A cena inicial do livro é narrada pelo Diretor de Incubação e Condicionamento de forma bem técnica e entediante. Ele faz um tour com os alunos dentro do laboratório e lhes mostra como os seres humanos são criados, como são separados por categoria e doutrinados ao longo de suas vidas. Durante o tour, eles avistam um grupo de crianças de 7 anos que estão em suas brincadeiras sexuais diárias, um dos meninos começa a berrar porque não quer brincar daquilo. Sua doutrinadora o segura pelo braço e o leva para o Superintendente-Adjunto de Psicologia para ver qual problema se passa com aquele garotinho para ele não querer brincar sexualmente com sua amiga.
“Durante um período muito longo antes de nosso Ford, e até no decurso de algumas gerações posteriores, os brinquedos eróticos entre as crianças eram considerados anormais; e não apenas anormais, mas realmente imorais; e eram, portanto, rigorosamente proibidos.” O Diretor revelou a espantosa verdade. (pag.53)
É a partir do capítulo 3 que aparecem alguns dos personagens principais. Lenina num diálogo com sua amiga informa que sairá naquela noite com o mesmo homem que está saindo há 4 meses. Sua amiga considera aquilo um absurdo e lhe aconselha a ficar com outros homens, pois fica mal para a reputação dela ficar com apenas um tanto tempo. Além do fato de que Henry Foster, o homem que Lenina está saindo, é um perfeito cavalheiro: sempre se porta corretamente e sai com várias mulheres.
Lenina percebe o quanto está sendo negligente e resolve dar uma oportunidade a Bernard Marx, um homem que a chamou para sair.
Bernard não se encaixa muito bem naquela sociedade. Ele gosta de ficar sozinho, de conversar, acha errado as mulheres serem tratadas como pedaços de carne e também acha errado as mulheres se enxergarem assim. De alguma forma, a doutrinação não funcionou muito bem com ele. Há um boato de que alguém se enganou quando ele ainda estava no bocal. Pensaram que fosse um Gama e puseram álcool no seu pseudossangue, por isso, Fanny, a amiga de Lenina, fala que não é muito legal a ideia de sair com ele.
Porém, Lenina resolve aceitar mesmo assim. Bernard e ela visitam a Reserva dos Selvagens. Lá vivem as pessoas não civilizadas. Elas ainda praticam a monogamia, existe família, a religião, as mulheres engravidam e envelhecem. Lenina, ao chegar, fica extremamente horrorizada quando um velho aparece a sua frente e quando vê uma mãe amamentando. Na reserva, eles conhecem um Selvagem chamado John, ele nasceu de uma mulher civilizada que foi deixada na reserva dos selvagens por estar grávida. Sua mãe o ensinara a ler. Quando criança, John encontrou uns livros velhos e passou a lê-los. O autor era Shakespeare.
John conseguiu a oportunidade de ir visitar o Admirável Mundo Novo que sua mãe tanto lhe falava. Porém, ele percebeu que o mundo não era tão admirável assim.
COINCIDÊNCIA?
O livro foi escrito antes da Segundo Guerra Mundial.
Quando Adouls Huxley o escreveu não havia acontecido ainda a chamada Revolução Sexual e os anticoncepcionais ainda não eram correntes; foi antes do Revolução das Drogas, não existia LCD na época e o autor fala de uma droga que ele chama de soma. O aborto também estava longe de ser legalizado, a engenharia genética estava longe do ponto que ela chegou hoje, eram ideias de ficção científica, a ONU não exista.
COMO ADOULS HUXLEY ACERTOU TANTO?
Primeiramente é importante você saber que o autor desse livro era irmão de Julian Sorell Huxley, o primeiro diretor geral do UNESCO. E é importante você saber também que a UNESCO tem documentos que mostram as técnicas de manipulação psicológicas usadas nas escolas e na sociedade para mudar os valores e destruir a família.
Então… coincidência? Não! O plano de fazer a sociedade ir por esse caminho já estava escrito no século passado. O livro The Naked Communist (O Comunista Nu) nos mostra que 45 metas comunistas estão sendo muito bem cumpridas.
Ou seja, Adouls Huxley apenas romantizou as informações que ele tinha de como seria o mundo no futuro. Porém, em uma entrevista disponível no youtube, ele confessa que imaginava que isso se cumpriria por volta de 2540 e não tão cedo. Muito do conteúdo desse livro são projetos que já estavam sendo arquitetados pela classe intelectual desde antes do século XX. Projetos de H. G. Wells, George Bernard Shaw, Ford, Marx, Lenin.
CONCLUSÃO:
Nós vivemos numa sociedade em que os valores tradicionais não importam mais, as pessoas que querem conservar a moral e os bons costumes são vistas como uma ameaça. Se você não trai seu parceiro, é visto com estranheza. Afinal ninguém é de ninguém. Se você tem um religião e tenta conter seus impulsos, é bobo, afinal “depois Deus perdoa”. Enfim, Adouls Huxley não acertou a toa.
Você conhece um sujeito simpático, boa-pinta da imprensa tupiniquim, chamado Jorge Pontual? É um jornalista da Globo News, com bastante estrada no ramo. Claro que vocês conhecem.
Pois muito bem; se a nossa poderosa emissora de notícias – não isoladamente, é verdade, já que é um mal que acomete a imprensa brasileira e estrangeira – está abarrotada de jornalistas esquerdopaticamente enviesados, o Jorge Pontual chega a ser quase uma caricatura. E não é por ter feito uma piada imitando o personagem Chewbacca, de Star Wars, quando a notícia era o FALECIMENTO (!!) de Carrie Fisher, intérprete da princesa Leia.
Sim, ele é o mesmo que se emocionou profundamente quando o assassino ditador cubano Fidel Castro – para ele e seus colegas da emissora, apenas o “presidente” de Cuba – deixou a vida para entrar na história… uma história de sangue, naturalmente. O mesmo Pontual que já rasgou elogios à medicina cubana, a Che Guevara e cia., acreditando piamente que Cuba tem índices infinitamente melhores na sua área de saúde do que os países “capitalistas malvados”. O mesmo que vive a gravar “documentários” e entrevistas com intelectuais americanos de esquerda para mostrar como Obama e os Democratas são lindos e maravilhosos.
A caricatura chega ao seu ápice, contudo, quando surge alguma notícia envolvendo seu fetiche predileto: o presidente americano eleito pelo Partido Republicano, Donald Trump. Que fique claro: ninguém é obrigado a amar Trump. O caso de Pontual, no entanto, parece pontualmente patológico. Basta o noticiário envolver Trump, e ele pontualmente vai aparecer para pontuar alguma “anti-trumpice”, não importa o pretexto.
Na edição do Jornal da Globo da noite de segunda para terça-feira (18/07), conduzida por William Waack, Pontual teve uma dessas chances que ele parece aguardar como a criança que aguarda ansiosamente o brinquedo de presente de aniversário. O que aconteceu?
Bem, a ditadura venezuelana – porque é esse o nome que o regime venezuelano merece – convocou uma Assembleia Constituinte para o dia 30 de julho. Obviamente, depois de mais de 90 mortes geradas pela repressão do regime troglodita de Maduro, é mais uma manobra bolivariana para ampliar os poderes do governo, endividado e quase certamente caloteiro. Um regime com o qual já se tentou todo o diálogo possível; um regime que mantém presos políticos; um regime que se recusa a aceitar a supervisão de suas eleições; um regime que aterroriza a população pelas armas enquanto a massacra pela carência dos bens mais básicos.
Depois de sucessivos fracassos, sucessivas demonstrações de desespero das oposições venezuelanas, sucessivas perturbações ao funcionamento do Parlamento do país, que fez Donald Trump? Afirmou que Maduro “é um líder ruim que sonha em se tornar um ditador” – no que, em verdade, Trump foi até condescendente, já que essa já é a realidade -, e fez uma ameaça: “os Estados Unidos não ficarão parados enquanto a Venezuela desmorona. Se o regime de Maduro impuser sua Assembleia Constituinte em 30 de julho, os EUA irão tomar ações econômicas fortes e rápidas”.
Que monstruosidade! Que aberração! Meses de repressão e violência sob um tiranete cego e indisposto às negociações, e Trump, diante do sofrimento do povo do nosso país vizinho, resolveu falar grosso com o lacaio dos Castro e filhote de Hugo Chávez. Como pode? Que abominação!
Sim, essa foi quase a reação pontual pontualmente aplicada do nosso pontualmente esquerdista Jorge Pontual. Transcrevo o comentário que não me deixará mentir: “Que efeito terá essa ameaça de Trump, que hoje partiu para uma posição extrema, chamando Maduro de ditador e dando um ultimato para que ele cancele a convocação da Assembleia Constituinte. O mais provável é que Maduro radicalize ainda mais, agora podendo alegar com razão que está sendo alvo de um ataque de Washington. A solução da crise venezuelana só pode passar pelo diálogo, com concessões dos dois lados – governo e oposição. Mas Donald Trump torpedeou as chances de que isso venha a acontecer, William.”
Meu Brasil varonil, mas que porcaria é essa? O palavrão está quase escapando por meus dedos nesse momento. POSIÇÃO EXTREMA? Isso porque Trump nem disse, de fato, que aquele DITADOR BRUTAMONTES TROGLODITA ASSASSINO é o que de fato ele é, imagina se dissesse… ALEGAR COM RAZÃO um ataque de Washington? Ataque é o que ele promove à sua população! DIÁLOGO COM CONCESSÕES DOS DOIS LADOS? Ah, minha santa Aquerupita, Pontual… Mais uma vez você pontua pontualmente o quanto é muito mais que pontualmente ridículo.
Eu não acredito mais no Estado Laico. Foi um pouco difícil admitir, devo confessar, mas depois de pensar, refletir e ponderar consideravelmente sobre o fenômeno da religião, ou da religiosidade, da fé, da crença em si, e também na ordem social, na cosmovisão humana, no jogo político, no poder, nas noções de sagrado e de profano; por fim, cheguei até a conclusão-mor: é impossível dissociar a religião do poder político, do poderio jurídico, da constituição das leis.
Voltando no tempo, ou melhor: retornando às sociedades mais “primitivas” (no caso, até grupos sociais que mais se assemelhariam aos nossos antepassados), vemos o seguinte: existe o xamã, o pajé, o curandeiro, o mago, o feiticeiro, o adivinho, etc., etc., etc., ao lado de quem? Do chefe.
O líder religioso sempre esteve no lugar do conselheiro, no mínimo, na política humana. Em todas as formas de governo, da tribal até a democrática, o religioso se manteve, deu sua influência e guinou o poder.
Sendo mais recente, eis a pergunta: você se separa da religião? A resposta, claro, é um sonoro não. Ninguém se separou, sequer, do paganismo greco-romano no Ocidente, aliás, e nem mesmo daquele que existia no paleolítico. Qualquer estudo simples ou complexo sobre a História das Religiões verá que, na realidade, vivemos em círculos de ritos ritmados por concepções de sagrado com uma origem na pré-história. Um simples feriado, por exemplo, ou uma data comemorativa, como um aniversário, tem uma conotação ritual comemorativa, normalmente lúdica.
Esses ritos de passagem, que funcionam em ciclos complementares, têm sua ascendência de concepções de nascimento, morte e renascimento, imaginados por tribais de dezenas de milênios atrás, da observação do cosmo em suas voltas, e da captação de padrões climáticos no ano, interpretando, como crê F. M. Cornford (1874-1943), de forma antropomorfizada o que ocorria em sua volta, dando qualidades humanas para o mundo.
“Estas intenções úteis ou danosas, estas forças invisíveis que possibilitam ou frustram a ação, são elementos fragmentários da personalidade. Elas constituem a matéria-prima a partir da qual o homem, quando começou a refletir, construiu o mundo sobrenatural. Na religião romana encontramos incontáveis numina – poderes cujo conteúdo total se expressa por meio de nomes abstratos, os nomina: Jânua não é um deus totalmente pessoal que preside as entradas aos lugares, mas apenas o espírito da ‘entrada’, concebido como força presente em todas as portas, que pode ajudar ou prejudicar quem passa por elas. Existe uma escala desses numina elementares, que vai de espíritos até a um deus completamente antropomórfico, como os deuses de Homero” [1].
O autor, sobre o caso, ainda vai mais longe: “A suposição de que coisas úteis ou danosas possuem vontade de ajudar ou prejudicar é feita de maneira tão irrefletida pela criança que chuta a porta que lhe prendeu o dedo quanto pelo homem que xinga seu taco de golfe por não ter acertado a bola. Se esse homem fosse lógico, rezaria para seus tacos de golfe antes de começar uma partida, ou murmuraria algum encantamento para fazê-los acertar sempre. Pois esses elementos projetados da personalidade são os próprios objetos da arte mágica”[2].
O que Cornford argumentou, essa antropomorfização natural do que existem em nossa volta, é inerente ao Homem. Não adianta ser “ateu”, “agnóstico”. Se você bater sua cabeça em um poste, irá xingá-lo, se você achar várias notas de 100, no meio da rua, irá dizer algo positivo para elas, ou melhor: talvez para a situação. “Situações” não têm persona, não existem como entes, sequer como entes pensantes. São apenas um arranjo de axiomas que sustentam um cosmo aparentemente caótico, mas que se acomoda segundo Leis Universais (como o Princípio da Unidade, o Princípio da Veracidade, o Princípio da Existência, etc.), isto é, não faz nenhum sentido xingar ou elogiar uma situação; de fato, um romano pagão seria mais lógico – como o adulto ilógico, pois não murmura para seus tacos de golfe, no exemplo de Cornford – ao antropomorfizar a sorte na figura da deusa Fortuna.
Enfim, esse elemento que é o combustível para as crenças “mágicas”, e, portanto, para as religiosas, mitológicas que, no fundo, cria o esquema de cosmovisão dos povos, seus sistemas de valor, suas explicações para o funcionamento e a origem do Mundo. A atualidade contemporânea não escapa, de maneira alguma, dessa influência.
É impossível, consequentemente, deixar a religião de lado. Nós automaticamente antropomorfizamos tudo ao nosso redor, e de modo não-proposital, o que dá, para qualquer um, a base de toda a religião. Embora, é claro, isso não nos torne necessariamente pagãos, é importantíssimo notar que a égide da crença religiosa nunca saiu de nossos seres, e, logo, de nossa sociedade.
Concepções de sagrado, por exemplo, são eminentemente religiosas. A vida, para nosso mundo contemporâneo, é algo sacro, assim como os ditos “direitos humanos”. Ao defender esses pretensos direitos, usa-se da paixão, do sentimento, da razão, para apontar a necessidade de existir, em ato, um código de direitos universal, para todas as pessoas no globo, não importando a cultura ou a História de cada povo. A crença nesses direitos, o dever de defendê-los, demonstra um fervor colossal em algo de valor, em algo sagrado. Apoiar os “direitos humanos” chega a ser uma virtude, para muitas pessoas.
O que seria isso, se não um tipo de religião? Uma espécie de religiosidade? Quem violar os Direitos Humanos, aliás, se torna um vilão, digno de Tiamat, Yam, Mot ou do principal anjo caído, Lúcifer.
Muito se engana quem crê num caráter unívoco das religiões, das fés. Religião não é um sacerdote em um templo pregando para os féis, tampouco é a crença em divindades, ou qualquer coisa sobrenatural. “Sobrenatural”, além do mais, é um conceito ocidental, criado por uma civilização que sabe diferencial o material do espiritual; a diferenciação do que é da natureza e o que está além da natureza não existe em diversas culturas. Antes do materialismo, do cristianismo ou até mesmo antes de Tales de Mileto, sequer a objetificação da “Natureza” existia; havia uma confusão (no sentindo original do termo ‘confundir’) entre o que hoje se entende por “natural” e “miraculoso”. Acontecimentos climáticos, por exemplo, eram sinônimos da ação dos espíritos, dos deuses, etc. Em muitos locais do mundo atual, essa confusão ainda existe e predomina. Religião não é a “crença no sobrenatural”, mas sim na crença no sagrado, já que o próprio conceito de sobrenatural não acompanha necessariamente o fenômeno religioso.
O confucionismo e o budismo, por exemplo, não acreditam necessariamente na existência de deuses; templos não têm a mesma função e a mesma conotação em todas as religiões do mundo, assim como “espíritos” (ou almas) sequer existem para outras crenças; o sacerdócio pode se comportar de modo absurdamente distinto de uma religião para outra. O tratamento para com as divindades, por exemplo, é extremamente diferente no cristianismo, se for comparado ao paganismo romano. Se uma prece geral não fosse atendida, a população romana costumava quebrar seus ídolos, invadir seus próprios templos, insultando os deuses – nem mesmo o todo-poderoso Júpiter escapava dessas depredações –; já no cristianismo, nada semelhante a isso ocorre com Deus, que não se comporta como um Deus pagão, mas sim como uma divindade suprema, máxima em todos os aspectos, incondicionado (YHWH: “Eu Sou aquele que É”, literalmente, quando Deus se apresenta à Moisés) e sem dependências de qualquer espécie.
“Demônios”, para os babilônicos, simplesmente formaram o mundo, apesar de sua maldade. Tiamat, morta mor Marduk, tem o seu cadáver como o formador da Terra, e a humanidade é criada pelo sangue de Kingu, o segundo esposo de Tiamat. Ambos eram demônios, tanto o monstro Kingu, como o dragão Tiamat, mas eram as sementes da vida na mente de um babilônio.
Então religião não é apenas uma Igreja que tem uma ortodoxia (a própria existência da ortodoxia sequer existe em muitas religiões), um livro sagrado, um sacerdote que cuida da espiritualidade do povo… Uma religião pode existir sem isso tudo, sendo apenas um amálgama cultural e histórico de como um povo vê o mundo. Uma noção de sacro, no bojo de um movimento global, com diretrizes e agências na ONU, secretarias e ministérios em vários países, para tratar dos Direitos Humanos, por exemplo, se assemelha a um tipo de movimento religioso não-organizado, sem uma centralização ou uma instituição uniforme para agir, mas que quer exportar sua visão de sagrado com o peso das leis, de tratados internacionais, com um grande aparelho burocrático e com influências econômicas grandiosas.
Mircea Eliade (1907-1986) define o Sagrado e o Profano, da seguinte forma: “Pode-se medir o precipício que separa as duas modalidades de experiência – sagrada e profana – lendo-se as descrições concernentes ao espaço sagrado e à construção ritual da morada humana, ou às diversas experiências religiosas do Tempo, ou às relações do homem religioso com a Natureza e o mundo dos utensílios, ou à consagração da própria vida humana, à sacralidade de que podem ser carregadas suas funções vitais (alimentação, sexualidade, trabalho etc.). Bastará lembrar no que se tornaram, para o homem moderno e a religioso, a cidade ou a casa, a Natureza, os utensílios ou o trabalho, para perceber claramente tudo o que o distingue de um homem pertencente às sociedades arcaicas ou mesmo de um camponês da Europa cristã. Para a consciência moderna, um ato fisiológico – a alimentação, a sexualidade etc. – não é, em suma, mais do que um fenômeno orgânico, qualquer que seja o número de tabus que ainda o envolva (que impõe, por exemplo, certas regras para “comer convenientemente” ou que interdiz um comportamento sexual que a moral social reprova). Mas para o “primitivo” um tal ato nunca é simplesmente fisiológico; é, ou pode tornar-se, uni “sacramento”, quer dizer, uma comunhão com o sagrado”[3].
Para complementar o raciocínio: “(…) o homem a-religioso no estado puro é um fenômeno muito raro, mesmo na mais dessacralizada das sociedades modernas. A maioria dos ‘semreligião’ ainda se comporta religiosamente, embora não esteja consciente do fato. Não se trata somente da massa das “superstições” ou dos “tabus” do homem moderno, que têm todos uma estrutura e uma origem mágico-religiosas. O homem moderno que se sente e se pretende a-religioso carrega ainda toda uma mitologia camuflada e numerosos ritualismos degradados. Conforme mencionamos, os festejos que acompanham o Ano Novo ou a instalação numa casa nova apresentam, ainda que laicizada, a estrutura de um ritual de renovação. Constata-se o mesmo fenômeno por ocasião das festas e dos júbilos que acompanham um casamento ou o nascimento de uma criança, a obtenção de um novo emprego ou uma ascensão social etc.
Poder-se-ia escrever uma obra inteira sobre os mitos do homem moderno, sobre as mitologias camufladas nos espetáculos que ele prefere, nos livros que lê. O cinema, esta “fábrica de sonhos”, retoma e utiliza inúmeros motivos míticos: a luta entre o Herói e o Monstro, os combates e as provas iniciáticas, as figuras e imagens exemplares (a ‘Donzela’, o ‘Herói’, a paisagem paradisíaca, o ‘Inferno’ etc.).
Até a leitura comporta uma função mitológica – não somente porque substitui a narração dos mitos nas sociedades arcaicas e a literatura oral, viva ainda nas comunidades rurais da Europa, mas sobretudo porque, graças à leitura, o homem moderno consegue obter uma “saída do Tempo” comparável à efetuada pelos mitos. Quer se “mate” o tempo com um romance policial, ou se penetre num universo temporal alheio representado por qualquer romance, a leitura projeta o homem moderno para fora de seu tempo pessoal e o integra a outros ritmos, fazendo-o viver numa outra ‘história’.
A grande maioria dos “sem religião” não está, propriamente falando, livre dos comportamentos religiosos, das teologias e mitologias. Estão às vezes entulhados por todo um amontoado mágico-religioso, mas degradado até a caricatura e, por esta razão, dificilmente reconhecível” [4].
Eliade aponta uma diferença, mas também uma continuidade do sagrado e do profano. Não existem indivíduos absolutamente profanos, assim como não existem aqueles que veem todo seu cosmo como algo absolutamente sagrado. Crer que, num abandono legal da religião na lei, a mesma não influenciará na política é algo surreal, impossível de acontecer.
Existe outra conexão inexorável entre a sociedade, mesmo aquelas que perdem cada vez mais a fé no cristianismo, e a religião tradicional. Quais serão os parâmetros de moralidade, civilidade, certo e errado, de um código legal qualquer, em tempos contemporâneos? O parâmetro é o cristianismo, é a Bíblia.
Mesmo quando um indivíduo se torna ateu, e daqueles bem rançosos para com a fé religiosa, ele não deixa de exercer uma parte do cristianismo em sua vida. Quase vinte séculos de teologia influenciam diretamente em nossas concepções de pudor, sexo, casamento, governo, caridade, igualdade. Sem um desenvolvimento teológico de um Santo Agostinho, por exemplo, nossas concepções de bem e mal seriam consideravelmente diferentes; apenas esta contribuição, de um santo do ocaso da Antiguidade, já interfere absurdamente como um corpo jurídico e legislativo será composto, em suas regras e noções de decência, ética e como lidariam com os diversos casos com que necessitam lidar, por suas profissões.
Um ateu do século XXI é bem mais cristão do que acredita. Vejamos: ateus, muitas vezes, para não serem confundidos com pessoas más (por não acreditarem em Deus) necessitam afirmar seu humanismo, mostrar seus atos de caridade… tudo o que um cristão faria, tudo criado pela religião cristã. O que é o humanismo, senão um filho do catolicismo medieval? Basta ler ou pesquisar a obra de Jean de Joinville (1224-1317) para constatar isso, quando ele descreve a vida do rei São Luís IX. O humanismo de raiz cristã, de fato, valoriza o Homem por este ser “Imagem e Semelhança de Deus”, por ele ser a mais proeminente e mais amada criatura do Universo, tendo um valor em sua existência per si; já um humanismo sem Deus, necessita fixar um valor na humanidade, na mesma intensidade que no cristianismo, para se justificar, não cair num turbilhão de imoralidade, por conta da amoralidade do ateísmo.
Um povo desprendido de sua fé pela força da lei, das instituições, não pode ser um povo que realmente exerça alguma força democrática. O Estado pode se dizer laico, mas aquilo que o legitima, o sustenta e o dá força não é: a sociedade. Nenhuma sociedade é laica.
Se um Estado se coloca contra uma força tradicional da religião, numa sociedade, ele se impõe intervindo e maculando a sociedade, já que a laicização social não ocorre. Tirar um projeto de lei, só por este ser cristão, por exemplo, é tudo o que um regime democrático não poderia tolerar.
O que se entendia por Estado laico, no nascimento deste conceito, era justamente um Estado Religioso, mas em que o poder e a influência da religião seriam colocados de baixo para cima, emanados do povo para a política, e não o oposto. Se assim não fosse, então não existiriam termos como “Deus” nas primeiras constituições laicas, nos monumentos, nas moedas, a figura da Bíblia, Jesus Cristo e dos Santos em locais e edifícios públicos. Os criadores do Estado laico antigo não queriam a falta de interferência e influência religiosa no poder político; queriam justamente a existência dela, mas numa ordem onde o povo fosse favorecido, por sua religião tradicional e majoritária.
Eu não acredito mais no Estado laico. Minha descrença atual se deve à atual militância pelo que seria esse “Estado laico”, que evidentemente minaria a opinião da maioria do povo, impediria pautas caras à população, anularia nossa moral, corromperia nossas noções de certo e errado, além de praticamente proibir que a religião dos próprios governantes influencie na governabilidade.
O Estado Laico é uma divindade que não existe, ou melhor: parece Tiamat, morta por conta de seus abusos, deposta por Marduk e, ainda como um demônio, dá forma para um corpo estatal – mas isso apenas como alegoria. Tiamat, assim como o Estado Laico, não existe.
[1] CORNFORD, Francis Macdonald. Antes e Depois de Sócrates. 1ª ed., São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 13.
[2] Idem, p. 14.
[3] ELIADE, Mircea, O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. 3ª ed., São Paulo: WMF Martinsfontes, 2013, p. 19-20.
[4] Idem, p. 166-167.
Com as eleições municipais batendo à porta – eleições essas que, realizadas no coração de uma fase conturbada e polarizada do mundo político no Brasil, são de importância decisiva para o futuro próximo -, os debates já começam a exibir suas pérolas. Na tentativa de se destruírem uns aos outros, os candidatos manipulam a História e lutam para mascarar a verdade. Ontem, no debate para a Prefeitura do Rio, isso ficou evidente em discussão entre Pedro Paulo (PMDB) e Jandira Feghali (PCdoB).
Pedro Paulo, naturalmente atacado de todos os lados por representar a situação, lembrou Jandira de que ela está se aliando ao Partido dos Trabalhadores, de Dilma Rousseff, contando, inclusive, com os ilustres apoios diretos de Dilma e Lula, presentes em sua campanha e seus comícios. Disse ele: “Quem quebrou o país? A aliança que você está construindo”, ou seja, o PT. Pedro Paulo tem toda a razão. Realmente, Jandira, que já deveria ser rejeitada pelo simples fato de representar uma legenda de origem maoísta, ostentando o emblema de uma ideologia intrinsecamente totalitária e assassina, está construindo um acordo com o partido mais importante da Nova República até o momento – importante na mesma medida em que destrutivo. O PT devastou a economia, construiu uma engenharia de corrupção extremamente complexa, sustentou esteticamente a ode à ignorância e a demolição de todas as melhores bases culturais e as mais elevadas referências simbólicas. É um bastião da mediocridade, que atrasou em muito tempo as possibilidades do Brasil. É com esse legado que Jandira se une, é a essa herança maldita que ela se alia, é essa vergonha nacional que ela quer tornar protagonista, ainda mais, no Rio de Janeiro.
Muito que bem. Mas teria o senhor Pedro Paulo o direito de dizer alguma coisa a respeito? Sentimo-nos no dever de dizer que não. A verdade precisa ser dita: o PMDB de Pedro Paulo, hoje acusado pelos petistas e seus sequazes remanescentes de “golpista” e “reacionário” por conta da “traição” de Eduardo Cunha e Michel Temer, foi CÚMPLICE DO PT durante todos esses anos. A Lava Jato demonstra que o PMDB e o PP, sobretudo, compondo com o PT a base aliada do governo – o PMDB, particularmente, desde a posse de Lula em seu hoje já distante primeiro governo e suas negociações para costurar a “governabilidade” -, foram fundamentais para a sedimentação do regime lulopetista. O sistema como um todo não seria viável se apenas o PT participasse dele.
É preciso chamar o PMDB a reconhecer as suas responsabilidades históricas. No passado, nos estertores do regime militar, quando se delineava o edifício atabalhoado da Nova República, foram eles, principalmente, pelas suas dimensões, que, na configuração da Constituição de 1988, fizeram-na revestida, como bem salientava o saudoso Roberto Campos, de uma aura nacional-populista, de confiança irrefletida no potencial do Estado de espalhar benesses e de depreciação crônica da iniciativa privada – a despeito da previsão, em artigo isolado e paradoxal, do respeito à “livre iniciativa”. Havia homens de notório talento, apesar das ideias equivocadas, em seus quadros, como o tão lembrado Ulysses Guimarães; mas a coisa toda já nasceu errada.
Os caminhos que seguiu só a deixaram mais torta. Primeiro ao lado do PSDB – que, pondo de lado a consolidação meritória do Plano Real e da Lei de Responsabilidade Fiscal, conquistas forçadas muito mais pelas necessidades que por convicção, representou uma fase do que alguns sabiamente chamam “consenso social democrata”. Depois, ao lado do PT, arrebatando cargos e polpudas “esmolas” das verbas públicas e de empresas estatais. O PMDB se tornou a casa do fisiologismo “doutrinário” – isto é, o fisiologismo como regra. Jactando-se de seu suposto passado como “representação partidária da restauração democrática”, o PMDB contribuiu para manter a democracia brasileira uma estrutura disfuncional, e para fazer da Nova República uma concepção demagógica e baseada nas coalizões questionáveis e no sistema proporcional decadente. Impediu uma radicalização ainda maior do projeto bolivariano, serviu como uma espécie de “moderador” do país, e acabou detonando institucionalmente o impeachment de Dilma, é verdade – mas apenas porque viu seu próprio calo pisado. Desenhou seu poderio à base de caciques e oligarquias regionais que o mantiveram como o maior partido do país, e venderam a alma ao líder carismático que arrebatou o poder federal – a ponto de Eduardo Paes, o criador de Pedro Paulo e prefeito atual do Rio, se dizer um “soldado de Lula”.
Considerando que Michel Temer não seja cassado pelo TSE e que a Lava Jato não o complique, eu torço por que ele faça um governo de competência histórica e realize as reformas emergenciais de que o Brasil necessita. Caso Pedro Paulo acabe vencendo as eleições no Rio, através do poderoso marketing e do uso da máquina que sua campanha vem empregando, também esperarei que de seu governo consigamos extrair o melhor possível para nossa cidade. Torcer pelo melhor não me fará oferecer a eles o direito, porém, de apagar a História. O PMDB não pode fugir às suas responsabilidades históricas, e qualquer coisa positiva que consiga realizar será apenas um ensaio de pagamento das suas enormes dívidas para com o Brasil.
Nos meses em que ocorriam as grandes manifestações de rua contra o governo Dilma e o lulopetismo, os movimentos populares organizados exibiam bonecos infláveis ironizando personalidades da nossa política. Por mais de uma vez os petistas tentaram furar o famoso e já lendário “Pixuleco” – uma representação do ex-presidente Lula. Lula, ele próprio, sempre deixou claro que achava um absurdo a Justiça soprar em seu cangote. Nas últimas sessões da Comissão do impeachment no Senado – que, recordemos, ainda não acabou -, a senadora petista Gleisi Hoffmann disse praticamente que a advogada Janaína Paschoal deveria se calar, porque não era parlamentar. Em comum, todos os casos exibem a presunção de nossas “autoridades”, que se acreditam basicamente acima dos limites impostos aos “meros mortais”, e não estão aceitando muito bem que a ebulição política e a Lava Jato as estejam retirando desse pedestal.
Por conta dessa lista de fatos, não foi com grande surpresa, mas certamente com profundo desagrado, que li, na Folha de São Paulo, a informação de que o Supremo Tribunal Federal “enviou à Polícia Federal um pedido para que seja aberta uma investigação para apurar os responsáveis por levar para uma manifestação na Avenida Paulista bonecos do presidente do Tribunal, Ricardo Lewandowski, e do procurador-geral da República, Rodrigo Janot”. O secretário de Segurança do Supremo, Murilo Herz, acredita que a presença dos dois bonecos satíricos representa “grave ameaça à ordem pública e inaceitável atentado à credibilidade” (!!) do Poder Judiciário.
Recordamo-nos que o humorístico Porta dos Fundos ironizou a Polícia Federal e os trabalhos da Lava Jato; as mesmas vozes que possivelmente virão a concordar com a ARBITRARIEDADE que o STF ora pratica bateram palmas para aquele infame escárnio naquela vez. A reportagem lembra ainda que já houve bonecos contra Moro (e acrescentaríamos, Cunha e Aécio Neves) em manifestos pró-Dilma, e esse expediente já havia sido usado contra outros ministros do Supremo, além de Lewandowski. O secretário acha necessário “interromper a nefasta campanha difamatória contra o chefe do Poder Judiciário”. Eu acho necessário que o “poderoso chefe” se coloque no seu lugar. Ele é uma pessoa pública e, como muito bem lembra à reportagem a líder do movimento popular Nas Ruas, Carla Zambelli, “acusada” de organizar a “terrível ofensa”, “os bonecos são charges em terceira dimensão e o Supremo deveria tomar isso como uma crítica construtiva”.
Ter a liberdade de criticar os senhores Lewandowski e Janot, bem como os senhores Marco Aurélio de Mello, Luís Roberto Barroso, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Teori Zavascki, Luiz Fux ou qualquer dos outros, seria ultrapassar o “limite da liberdade de expressão”? Por que seria em relação a eles e não a qualquer outro? O STF, supostamente o defensor da constitucionalidade e a instância máxima da nossa Justiça e nosso consequente Estado de Direito, é que está ultrapassando o limite da autoridade para penetrar as raias do autoritarismo.
O mesmo órgão que, como ainda mais oportunamente lembra Carla Zambelli, soltou o ex-ministro Paulo Bernardo, preso na Operação Custo-Brasil, e voltou atrás quanto à prisão após a decisão de segunda instância; o mesmo grupo que, acrescentamos, quer julgar Jair Bolsonaro por uma coisa que ele falou destemperado em resposta a uma ofensa no ambiente parlamentar, mas está sempre um tanto quanto precavido em relação a figuras como Renan Calheiros e Lula (quando tiveram a questão dos áudios com Dilma Rousseff nas mãos); o mesmo que inventou uma decisão inicial do Senado quanto a acolher ou não a escolha soberana da Câmara de abrir processo de impeachment presidencial; esse mesmo órgão agora quer, em nome da ordem jurídica, exigir que os “plebeus” se calem perante suas santidades de toga e não façam mais piada ou deboche de suas figuras sacrossantas.
Os ministros do STF não estão acima do bem e do mal. Muito ao contrário; a maioria deles foi indicada pelos governos petistas, e há razões de sobra para criticá-los e manter os olhos bem abertos às suas decisões. Temos pouco poder para prevenir os estragos que eles podem causar; não é razoável que eles nos queiram retirar, usando de sua autoridade, o mais ínfimo mecanismo que temos para expressar nossos sentimentos quando eles nos indignarem, que é a manifestação popular – com imagens, bonecos ou o que for.
A atitude de se incomodar com isso a ponto de desejar a censura demonstra extrema pobreza de espírito e arrogância. Trajar a toga e definir os rumos das questões jurídicas mais relevantes não significa elevar-se ao Olimpo e desfilar ao lado de Zeus, Atena ou Poseidon. Vossas Excelências estão muito abaixo da divindade e devem recolher-se ao seu verdadeiro e limitado significado.
Aos nossos compatriotas, isso serve de lembrança: o impeachment – por sinal, frisemos, ainda em andamento -, está longe de ser o fim. O STF nos prova a cada dia que seguiremos travando uma longa e ininterrupta batalha contra os miasmas da mediocridade.
O Estadão, o bom e velho O Estado de São Paulo, é uma presença relevantíssima da história política e jornalística do Brasil. Uma trajetória que começa ainda em plena monarquia, em 1875, e atinge seu auge quando, sob comando da família Mesquita, cujos ícones eram admiradores e amigos pessoais do grande Carlos Lacerda, sua marca se aproximou das principais bandeiras udenistas. Já elogiamos o jornal, não apenas por identificação ideológica com essas bandeiras, mas pelo bom senso que recentemente manifestou ao não fazer pouco caso das multidões que tomaram as ruas para protestar contra o governo Dilma.
Todas essas qualidades só tornam mais triste e incompreensível o que aconteceu neste domingo, primeiro de maio de 2016. Desagrada-me roubar o discurso dos ambientalistas extremados de plantão, mas não posso ignorar que me machuca a ideia de que agredimos árvores, mesmo que de áreas de reflorestamento, para colocar no papel lixos como a última coluna do humorista Fabio Porchat. Páginas que já conheceram peças de refinamento peculiar, que já cerraram fileiras decisivas – goste-se delas ou não – em encruzilhadas históricas da pátria, páginas que já foram marcadas por monstros sagrados da imprensa e da intelectualidade nacionais – estão hoje ocupadas por contratados como Porchat, que as maltratam da forma mais insensível.
O comediante, que sabe-se lá por que cargas d’água é considerado, como seu amigo Gregório Duvivier, um profundo intérprete da realidade sócio-política do país, decidiu redigir um texto exigindo a saída do cargo de presidente da Câmara do deputado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro. Até aí, nada a questionar. Acreditar que um investigado por denúncias significativas de envolvimento com corrupção não deve comandar uma das instituições mais importantes do país é uma postura bastante razoável – não obstante pensemos que seu trabalho conduzindo as sessões tenha sido memorável e trazido ares de independência em relação ao Executivo que são salutares à divisão de poderes republicanos. Nada disso apaga as evidências contra ele, as provas de que se envolveu, como pequena célula, no gigantesco esquema de corrupção nas estatais que beneficiou o sistema de poder, convém sempre lembrar, do Partido dos Trabalhadores, ao qual ele hoje se opõe. E, portanto, nada mais justo que desejar vê-lo punido.
Porém, Porchat acreditou, por algum insight original de brilhantismo ou estupidez, que bastaria gastar suas linhas reproduzindo centenas de vezes o título. Sua intenção talvez fosse reforçar a mensagem. Entupiu seu espaço com repetições da exclamação “Fora, Cunha!”. Confiram com os próprios olhos na imagem acima.
Estou certo de que, em não muito tempo, alguém em alguma faculdade de Jornalismo no Brasil estará dizendo aos alunos que sua coluna foi uma obra de arte que promoveu uma “estilizada e genial desconstrução pós-moderna do discurso para questionar as estruturas de poder tradicionais, tal como Foucault as criticava”.
Já nós, que só queremos recuperar um pouco da sanidade mental que este país já deve ter tido algum dia, só podemos lamentar que uma marca tão tradicional quanto O Estado de São Paulo ceda seu espaço para tamanho lixo e ofenda o Jornalismo dessa maneira.
(imagem retirada da página Liberalismo da Zoeira no Facebook)
Então o digníssimo e respeitabilíssimo ex-presidente da República, no privado, é sincero e honesto em suas palavras. Devemos admitir: ali escapa um pouco da verdadeira alma que o Lula tem. Uma alma de um tom de fala calmo, calculado, muito diferente do escandaloso e popular Lula dos sindicatos, dos funcionários públicos. Em privado, nas teias do jogo político, ele é frio, articulado e, até mesmo, honesto.
A honestidade de Lula não se deve a um transcendente moral, ou um imanente ético legal. Ele apenas está se mostrando, onde há liberdade para tal, sem perigos ou muitos ouvidos; Lula mostra como é. Eis sua honestidade, e, possivelmente, ela para por aí.
Em uma das gravações “vazadas”, o humaníssimo ex-presidente se refere às feministas apoiadoras como “grelos-duros”, ou seja, uma ofensa visando a forma da genitália feminina, e é hilário, pois é isso o que ele realmente acha das feministas. Nem em mil anos Jair Bolsonaro – que não faz questão de ter papas na língua – ousaria proferir algo assim para as feministas, ele que é, sem sombra de dúvidas, o maior inimigo do feminismo no Brasil. Lula faria Bolsonaro ter vergonha alheia.
Mas não. Se Bolsonaro afirma que não iria estuprar uma mulher, ele é o estuprador, o machista. Se Lula avacalha as vaginas das feministas, ele na verdade está sendo doce, delicado, e não ofende as mulheres! Já viram algum texto gigantesco, passeatas feministas, mulheres colocando os seios para fora por conta do que Lula falou? Não.
Onde está a nossa “amada” classe universitária, a detentora-mor do salvamento do mundo e do “mundo melhor”, a mentora máxima do feminismo, dos movimentos LGBT, etc? Estão dormindo ou o quê? Não notaram que o homem mais poderoso (muito bem: o ex-homem mais poderoso; agora nem os mais mentecaptos dão confiança para ele, apenas os canalhas e os clinicamente loucos) do país esta admitindo fria e honestamente que usa vocês como massa de manobra. Lula admitiu que usa os movimentos feministas como massa de manobra; mas as feministas ainda demorarão muito para processar esse tipo de informação. Muito pelo oposto: assumiram que essa frase não é ofensiva.
Eis quando um movimento progressista decide mostrar sua verdadeira face. Não estão preocupados com as mulheres, não se preocupam com a dignidade da pessoa humana, com o machismo. Estão aí apenas para chocar, para o poder de certas pessoas, de certos líderes. Dane-se se a causa que tanto idolatram esta sendo vilipendiada, humilhada por um homem. Esse homem em questão pode, e só ele.
Não é assim apenas no Brasil. E o feminismo europeu? Aquele mesmo que invade igrejas, agride pessoas que são irritantes para suas propagandistas, cometem atentado ao pudor, vandalizam patrimônios… Notaram o intrigante silencio do feminismo europeu durante a onda de estupros feitos por muçulmanos na Europa? Elas não deram um pio sequer, e sabem o motivo? Porque sabem que seus ideais serão paradoxais, que farão inimigos políticos dentro da esquerda e serão taxadas de xenofóbicas. Elas querem parecer ser moderninhas, tolerantes. Odeiam o cristianismo que nada faz, mas se calam ao ver milhares de estupros cometidos por pessoas cuja entrada na Europa elas apoiaram. Quantas feministas vocês já viram invadir uma mesquita, ou uma palestra islâmica? Eu só vi uma… e ela deve estar no hospital até hoje[1].
Feministas não se importam com as mulheres. Na realidade elas sequer conseguem representar os valores de 15% das mulheres desse país (e o que dirá do mundo!). Elas se cegam, assim como todo progressista, para a realidade. Separaram em dicotomias o mundo, se consideram as salvadoras, as incorruptas.
O feminismo foi a pior coisa que ocorreu para a mulher moderna.
[1] Vale lembrar: aqueles que estão saindo às ruas, homens, para espancar estupradores maometanos estão sendo chamados pelos progressistas de… (adivinhem?) fascistas!
ESTE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO PELO INSTITUTO LIBERAL E REPRODUZIDO NO PORTAL ‘DEBATES CULTURAIS’.
Depois de muito tempo praticamente como tabu, a entrada em domínio público da obra magna do nazismo, o Mein Kampf (Minha Luta), este ano reacendeu polêmicas, com a possibilidade de que editoras, especialmente alemãs, se interessem por publicá-lo. Há quem acredite que, em sendo as feridas muito recentes em termos históricos, em tendo sido quase ontem que as figuras do movimento político conhecido como nazismo/nacional-socialismo e de seu ícone, o ditador Adolf Hitler (1889-1945), se tornaram símbolos do mal e do terror sobre a Terra, essa publicação seria de mau tom. Há quem acredite que ela daria munição a insanidades neonazistas. Há ainda os loucos que acreditam que o pensamento de Hitler foi mal interpretado e que a leitura do livro por um público mais amplo permitiria uma revisão das “versões oficiais”, supostamente manipuladas, a seu respeito.
Discordo de todas essas opiniões. Originalmente lançado em dois volumes e ditado pelo próprio Führer a alguns de seus consortes no movimento do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, vindo à luz em 1925 e transformado em uma espécie de guia ideológico – mais propriamente uma “Bíblia” diabólica – pelo governo ditatorial de seu autor entre os anos 30 e 40 na Alemanha, o Mein Kampf deveria ser lido. Acima de tudo e apesar das tristezas e massacres perpetrados em seu nome, porque não podemos acreditar na censura como um caminho de crescimento e amadurecimento da sociedade. Porque conhecer em detalhes cada vez mais ricos as lacunas do passado, conhecer as culturas e ideologias que desafiam as virtudes do nosso modo de vida e da nossa organização social, deve ser visto não como ameaça a estes últimos, mas como estímulo maior ainda a que sejam valorizados. Porque, finalmente, as distorções que têm sido feitas, em benefício de interesses ideológicos baixos, a respeito do nacional-socialismo, para favorecer esse ou aquele partido que deseja identificar o adversário com Hitler – o famoso reductio ad hitlerum – teriam muito mais dificuldade de prosperar se olhássemos com destemor e clareza para a face original do monstro totalitário que assassinou milhões de pessoas.
Ver Hitler desnudando sua alma torta para o leitor de ontem e de hoje provoca várias reações naturais e nos deixa intrigados com muitas questões. A primeira delas é o quanto parece inusitado que o conteúdo do Mein Kampf tenha sido subestimado nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. O livro estampa, entre pregações insanas e excertos autobiográficos, todas as linhas gerais do programa que seria implementado quando, a partir de 1933, a doutrina de Hitler se tornou o fundamento político do Estado alemão. Está tudo lá. Nem mesmo o apelo do nazismo à sua retórica e dom de oratória escapam de ser mencionados; Hitler deixa claro em seu livro que “se conquistam adeptos menos pela palavra escrita do que pela palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas devem seu desenvolvimento não aos grandes escritores, mas aos grandes oradores”.
Além do tom inflamado, incensário, e das referências fartas à história alemã e ao contexto geopolítico, o Mein Kampf não contém nada de muito singular. Em estilo, em fluência, em organização, está longe de ser um trabalho muito atrativo. Suas duas partes mesclam, de forma pouco equilibrada, narrativas – na primeira parte acerca da própria vida de Hitler, suas desventuras e frustrações, e como, em suas observações, foi percebendo os “problemas” da Alemanha, e na segunda, a mobilização original do próprio partido nazista – e panfletagem ideológica, girando em torno de algumas ideias centrais bem básicas. O suficiente para seduzir e inspirar centenas de pessoas.
A teoria de Hitler se baseia na vivência do regime social-democrata alemão de Weimar, com suas bandeiras sociais e assistencialistas, somadas, no entanto, a um sistema parlamentar e representativo. Uma burguesia desvitalizada, dentro desse sistema, convivia com seu esquerdismo vacilante e com o comunismo mais radical, promovendo suas bandeiras perigosas e vinculadas ao bolchevismo soviético. Nesse ambiente, Hitler enxergava a ineficiência em todos os lados do espectro político. Aqui começam a ficar claras algumas distorções; as esquerdas modernas gostam de apontar o nazismo como um fenômeno político “liberal capitalista” ou “conservador”; entretanto, Hitler não ruboriza ao apresentá-lo como uma ideologia “revolucionária”.
Para ele, “o dever do Estado para com o capital era relativamente simples e claro; ele simplesmente tinha que ver que o capital continua a ser o servidor do Estado e não contemplado com a obtenção do controle da Nação”. O capital internacional, subvertendo a soberania nacional, era, para o nazismo, um grande inimigo – algo familiar? Hitler resume que “só há uma doutrina a ser seguida: Nação e Pátria. O motivo pelo qual nós temos que lutar tem de ser a segurança da existência e o crescimento da nossa raça e da nossa nação, a nutrição de seus filhos e a pureza de seu sangue, a liberdade e a independência da Pátria, e para que a nossa nação seja capaz de amadurecer para o cumprimento da missão que lhe foi confiada pelo nosso Criador universal”. Exaltando o nacionalismo estatizante de Bismarck, estadista unificador da Alemanha, e sua política da força, Hitler acreditava piamente que a social-democracia, o liberalismo e o comunismo eram penetrações culturais que degradavam a grandeza nacional e desgraçavam a Alemanha. Sua glória somente brilharia quando o Estado e a Pátria fossem o centro das atenções, em uma política verdadeiramente alemã.
Parece-se muito com a teoria fascista clássica, do ditador italiano Benito Mussolini, inclusive elogiado no Mein Kampf e, não por acaso, aliado de Hitler, ao lado dos japoneses, na Segunda Guerra Mundial, contra os Aliados (países ocidentais, do mundo livre, e os comunistas da União Soviética). No entanto, mesmo o sistema político exposto em A Doutrina do Fascismo, junto à prática política que dele decorreu, soam moderados perto da concepção nazista de sociedade e mundo. Em especial, porque, desde sua matriz teórica, o sistema hitlerista é fundamentado no mais declarado e franco racismo. Para ele, a cultura ocidental, as belezas e grandezas da filosofia e da arte, da música, a “cultura superior”, são criações de uma raça humana, a Raça Ariana, da qual os germânicos seriam eminentes representantes. Para atingir o progresso que atingiu, o povo ariano teve que se sobrepor às “raças inferiores”, empregadas nas atividades subalternas para a glória de sua civilização; Hitler, aqui, deprecia o pacifismo moderno. De fato, sua paixão pelo espírito militar agressivo e pelo belicismo, sua visão idealizada da violência e da força, da conquista, da expansão de poder, fica patente nas linhas de sua lavra.
Toda a concepção de mundo hitlerista se baseia nas diferenças raciais. Nesse sentido, como todo movimento coletivista, ele elegeu um inimigo para odiar e centralizar a hostilidade, unindo o espírito nacionalista de seu povo em torno do combate a esse alvo: os judeus. Para Hitler, os judeus eram um povo pútrido, uma raça inferior, com projetos de conquista mundial (sim, era esse o nível da paranóia, digna dos Protocolos dos Sábios de Sião e dos conspiracionismos mais vis). Todas aquelas invenções políticas que agrediam o espírito nacional e “afrouxavam” a alma alemã, tais como parlamentarismo, marxismo e liberalismo, eram uma obra judaica. Identificando tudo aquilo a que era ideologicamente avesso com uma face concreta, a de uma cultura e um povo, Hitler tinha a arma retórica perfeita para mobilizar a sociedade alemã, abalada pelas derrotas em conflitos bélicos e com o moral destroçado. Tudo em seu sistema se direcionava para a rejeição do internacionalismo, da sociedade aberta, do mercado livre, do intercâmbio entre nações, e o fechamento idólatra em uma atmosfera nacionalista cega. Novamente: algo familiar? Não nos lembra os nossos esquerdistas “anti-imperialistas” e “anti-americanos”?
De fato, para Hitler, o movimento nazista era essencialmente “antiparlamentar”, por rejeitar, em princípio, “qualquer teoria da maioria de votos, o que implica que o líder é degradado a estar meramente lá para executar as ordens e opiniões dos outros. Em pequenas e grandes coisas, o movimento defende o princípio da autoridade inquestionável do líder, combinada com o máximo de responsabilidade”. O modelo liberal-democrático era excessivamente fraco e sensível para os ânimos nazistas; Hitler deplorava rituais eleitorais. Detestava, principalmente, a ideia de os partidos terem que negociar para atingir objetivos, fazer concessões. Qualquer “ideal de mundo”, como Hitler enxergava sua ideologia, “ainda estará sem força para a vida de uma nação até que seus princípios sejam feitos à base de um movimento de combate, capaz de manter-se como um partido até que a ação seja coroada pelo triunfo e até seus dogmas tornarem-se uma nova lei fundamental do Estado”.
Desde o começo, a obsessão de Hitler era abolir o sistema representativo e tolerante à divergência e confundir sua doutrina com o Estado e a sociedade: o totalitarismo, enfim, tal como em Mussolini, mas de maneira ainda mais violenta e assassina, é endeusado às claras. A tirania é um sinal de grandeza; a coexistência pacífica, de fraqueza. Hitler diz que, perseguindo a pureza e a supremacia da raça – o que, bem sabemos e ele insinua no livro, parte para a prática em políticas eugenistas, que também valorizavam o cuidado do corpo, a estética do homem alemão, e a educação dos meninos voltada decisivamente para o militarismo -, visa proteger as grandezas da cultura “ariana”, ocidental, mas, paradoxalmente, odeia e joga ao lixo as conquistas mais belas e sublimes que essa mesma cultura logrou êxito em produzir. Favorece a autoridade dos mais célebres, fortes e hábeis, dos “líderes”, em uma associação que prefere a estrutura antiga e tradicional dos “conselhos” à modernidade da liberal-democracia.
Ele cultua, também, o fanatismo; em uma comparação no mínimo discutível com a Igreja Católica, Hitler diz que a força de instituições como ela está em agarrarem-se a seus dogmas e postulados originários, e não em acompanhar as descobertas e reflexões científicas e intelectuais. Também os partidos políticos, sobretudo o nacional-socialista, deveriam ser profundamente dogmáticos, encastelando-se em ideias fundamentais e forçando a realidade e os fatos a curvarem-se a esses princípios. Movidos por esse combustível, os alemães deveriam ter por grande objetivo fortalecer a dinâmica autoritária, cultural e física da raça ariana, destruir os planos das raças inferiores de submetê-la e diminuí-la (em especial, os judeus), e expandir seu território de controle para os limites desejáveis (o que envolvia, sobretudo, a conquista dos povos eslavos, das terras soviéticas, também pervertidas, como poucas, pela infâmia judaica).
Da leitura do Mein Kampf, extrai-se a certeza de que a mente perturbada de Hitler, que mais não faz que exalar ódio a cada linha, já estava decidida, muito antes, a perpetrar todas as abominações que tiveram lugar ao seu tempo e até hoje assombram o imaginário do mundo. Seu anticomunismo, que compartilhamos, cientes de ser o comunismo uma doutrina ainda mais persistente, habilidosa, e por isso mesmo perigosa e assassina – apesar de não o vincularmos, de forma alguma, ao estúpido e monstruoso anti-semitismo e ao racismo asqueroso do nazismo –, bem como seu apreço estético e moral por características de uma sociedade pré-moderna, não permitem associar o nazismo ao liberalismo clássico ou ao conservadorismo de viés burkeano. Como bem dizia Hayek, em uma multidão de doutrinas estatizantes e socialistas, o que existe é a concorrência entre facções rivais. Tal como no caso de Mussolini, Hitler fala com entusiasmo de socialistas que não tiveram dificuldade em abraçar sua concepção e sua bandeira. Não por acaso; deformando a cultura ocidental, o nacional-socialismo apostava na invasão do Estado na vida das pessoas, na identificação de um alvo imaginário a ser combatido – isto é, na simplificação da realidade para mobilizar os sentimentos e aspirações do povo em uma única direção; apostava no controle do “capitalismo selvagem”, na domesticação do espírito empreendedor e da livre iniciativa aos interesses do Estado, em nome de uma concepção destrambelhada de amor à Pátria, que desprezava conscientemente o bom e velho “patriotismo burguês” em favor do nacionalismo totalitário.
Que o conhecimento dessas verdades nos ajude a refutar acusações infames feitas por quem acredita que o mundo é apenas binário, e aposta em reducionismos infantis para vencer a disputa política. Que os amantes do coletivismo e do sectarismo reconheçam que são eles, e não nós, os “primos” ideológicos, mais ou menos distantes, mais ou menos próximos, do pesadelo do século XX que o mundo aprendeu a repudiar.
ESTE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO PELO INSTITUTO LIBERAL E REPERCUTIDO PELO ESCOLA SEM PARTIDO.
Em nosso artigo “Cristovam Buarque e o Escola Sem Partido: ignorância ou cinismo?”, publicado há pouco tempo, já sustentamos a urgência extrema do combate à doutrinação e à ideologização do ensino no Brasil. Destacamos a absurda interpretação do senador pedetista acerca do projeto do advogado Miguel Nagib, que formaliza o reconhecimento desse problema e a postura a ser adotada para combatê-lo. A mesma urgência foi o que nos motivou a retornar a esse assunto tão cedo, porque talvez exemplos concretos demonstrem com mais clareza a dimensão do perigo.
Em seu perfil na rede social Facebook e na página do Escola Sem Partido, Nagib divulgou imagens de trabalhos escolares produzidos em um colégio de Ensino Fundamental do Paraná. Segundo ele, obra de alunos do quinto ano. Aparentemente, os professores consideram parte do currículo “fundamental” o engajamento dos pobres estudantes em suas militâncias e reivindicações. Desenhos ilustrando os professores paranaenses e os confrontos verificados nas manifestações do mês passado vêm acompanhados de ataques explícitos ao governador tucano Beto Richa. Não foram poucos os trabalhos, a maioria deles exibindo dizeres explícitos como “Fora, Beto Richa” ou mesmo ironizando o governador. Nagib compartilhou também registros de uma professora que, em sua página na rede social, divulgou os trabalhos e recebeu apoio entusiasmado de alguns de seus amigos no Facebook, mesmo alguns pais de alunos, pelo gesto. Em sua concepção, é uma vitória que os alunos, “como trabalho de História”, estejam reproduzindo ataques políticos ao governador do estado, palavras de ordem e discursos dos professores militantes.




Em notícia de 9 de junho de 2015, publicada no site do jornalista Esmael Morais, especializado em notícias políticas, lê-se que “agora, a partir das escolas, transformadas em trincheira, será possível amplificar essa denúncia de que ‘há algo de podre no reino da richarada’. Portanto, a partir desta quinta em todas as escolas e comunidades do Paraná a palavra de ordem é ‘Fora, Beto Richa!’”. Amigos leitores, não podemos enxergar colégios como trincheiras para manifestações políticas! A ocupação do espaço educativo para promoção de correntes políticas específicas, sem o respeito à pluralidade que já é recomendado pela lei – e pelo bom senso -, é algo de praxe em regimes totalitários e, como defende o excelente livro de Bruno Garschagen, Pare de acreditar no governo – por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado, parece acompanhar de certa forma a história brasileira desde a forte influência positivista no alvorecer da República Velha até o esquerdismo gramscista dos nossos dias. É uma perversão das finalidades desse espaço, que precisa ser abolida o quanto antes se quisermos um país com desenvolvimento sadio e sólido.
Não temos nenhuma intenção de justificar o governo de Beto Richa, de tomar partido entre um lado e outro – aliás, vemos motivos para críticas pesadas a uns e outros nessa história. Entretanto, por mais complicada que seja a situação naquele estado, ela representa pouco perto da atitude dos professores no colégio de ocuparem o tempo das lições a serem lecionadas com uma instrumentalização dos jovens para o sustento de causas que muitos deles sequer compreendem bem. São vítimas, tendo poucas defesas contra a autoridade de referência de que os docentes estão naturalmente imbuídos. É um aviltamento da posição de que estão investidos, e um sintoma trágico do verdadeiro “boicote ao futuro” que se está alastrando pelo sistema de ensino nacional.
