Quando a Operação Lava Jato começou, com pretensões incalculavelmente mais modestas, jamais seria possível imaginar que chegaríamos até este ponto. Jamais se poderia imaginar que as podridões abissais nunca dantes atingidas seriam vasculhadas a tamanha profundidade. Pois neste dia 15 de março de 2016, exatamente um ano depois da primeira das cinco grandes manifestações de rua contra o governo de Dilma Rousseff, uma autêntica “bomba atômica”, sem excessos retóricos, explodiu no colo da República.
Sim, da República; não apenas do governo Dilma. Explicamos por quê. Não faremos maiores comentários acerca da possibilidade cada vez mais tida por certa de o ex-presidente Lula aceitar um cargo ministerial para se esquivar das investigações que o alcançaram; tamanha excrescência pode estar ou não sendo oficializada enquanto você lê estas linhas, mas o que seria a manchete suprema nesta terça-feira acabou atravessado pelas peripécias do senador Delcídio do Amaral, o líder petista no Senado que havia sido detido por obstrução de Justiça, acusado de oferecer ajuda para fuga a Nestor Cerveró, e que hoje mobilizou sua desfiliação da legenda.
Tudo aconteceu porque Teori Zavascki finalmente homologou a bombástica e promissora delação do político, e o conteúdo foi aparecendo na Internet e nas redes sociais aos poucos, provocando o enorme burburinho que tinha potencial para provocar. Entregou o que prometia e muito mais; senão vejamos: primeiro, pela manhã, o estrépito inicial da bomba se fez ouvir com a divulgação de um áudio registrando o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, em diálogo com um assessor do senador, tentando suborná-lo e oferecer ajuda política no Senado E NO STF – citando nominalmente Ricardo Lewandowski, o presidente do órgão – para protegê-lo caso ele silenciasse. Exercendo a tentativa de obstrução da Lava Jato, evidentemente, em favor do governo, Mercadante, no áudio, estende as nuvens de “suspeitas” para o próprio órgão máximo da Justiça nacional, insinuando que nem todo o Judiciário é como Sérgio Moro e a turma de Curitiba. Por algum motivo de difícil compreensão, a Procuradoria Geral da República considerou que o ministro não representava ameaça às investigações e por isso não aventou aplicar a prisão preventiva; não é a situação muito similar à do próprio Delcídio quando foi detido? Vá entender… Mercadante, claro, negou tudo.
Como se não bastasse, veio à tona o conteúdo da delação premiada. O texto, repercutido pelos principais portais políticos, ratificou o que havia sido veiculado em reportagem da IstoÉ. Delcídio realmente acusa Lula e Dilma diretamente; da presidente, ele diz acreditar ter sido ela a dar ordens a Mercadante para fazer o que fez, por ambos serem muito próximos. Mais: ela deliberadamente vem tentando deter a Lava Jato e proteger políticos e empreiteiros, inclusive tendo realizado para esse fim uma reunião nada republicana com José Eduardo Cardozo e Lewandowski – este último, no entanto, segundo ele, teria afirmado que não se envolveria. Acusou-a de ter total ciência das irregularidades em Passadena e de ter tido participação direta, junto a Lula, na nomeação de Cerveró para a BR Distribuidora. O próprio Lula, entretanto, é a grande pérola da delação, mencionado nada menos que 186 vezes! Delcídio confirma o que qualquer mente razoável já pressupunha: em sendo o coração simbólico do petismo, o líder, Lula deveria estar no comando do esquema de poder. E cabia a Lula, segundo Delcídio, o comando de todas as operações econômicas, o conhecimento de todas as ocupações de cargos em estatais e relações próximas com todos os grandes empresários e tesoureiros de partidos aliados. Teria sido Lula quem pediu a Delcídio que, com a ajuda do pecuarista José Carlos Bumlai, ajudasse Cerveró a escapar da justiça. Teria sido Lula a comprar, junto a Palocci – considerado por Delcídio o grande nome do PT para ‘temas econômicos, financeiros e de infraestrutura, isto é, “sujeira” -, o silêncio de Marcos Valério no MENSALÃO. Lula teria ainda tentando impedir requerimentos de testemunhos na CPI do Carf. Lula e seu filho teriam sido poupados da CPMI dos Correios a partir de “tratativas ilícitas” envolvendo até mesmo a oposição. Nomes como André Esteves, Bumlai, a Friboi, Erenice Guerra, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Eduardo Campos (sim, o falecido ex-presidenciável pelo PSB, que teria tentado favorecer uma postulante a fornecer equipamentos depois do “leilão” da usina de Belo Monte, de onde também saiu propina para as campanhas eleitorais de 2010 e 2014), muitos deles costumeiramente relacionados às denúncias contra o ex-presidente, são citados e incriminados na delação. Em resumo: estaríamos diante de um mafioso de um nível pouco igualado no mundo.
Para piorar, Delcídio diz que, se algum dos executivos das empreiteiras beneficiadas pelo BNDES decidir colaborar com as investigações, “cai a República” – e essas são suas palavras literais. Não nos parece haver dúvida de que o quadro geral da delação sugere já não haver mais, basicamente, qualquer República digna do nome. Pois a delação não para em Lula, Dilma e nos nomes mais ligados ao núcleo petista – como os senadores Humberto Costa e Gleisi Hoffman, em quem o delator recomenda que os investigadores ponham os olhos. Delcídio acusa também o vice-presidente peemedebista Michel Temer de apadrinhar executivos da BR Distribuidora que teriam operado um esquema de desvio na compra de etanol entre 1997 e 2001, portanto antes do maldito ciclo PT, bem como de “chancelar” a escolha do condenado Zelada para a Petrobras. Acusa o também peemedebista e presidente do Senado Renan Calheiros, protetor emérito do mandato de Dilma, de receber recursos ilícitos na usina de Belo Monte e da diretoria internacional da Petrobras. Reforçou os ataques a outro peemedebista, o presidente da Câmara Eduardo Cunha, por tentar ajudar bancos falidos com emendas e por ter recebido vantagens ilícitas de um esquema de corrupção em Furnas; e aqui que a porca torce o rabo.
Esse “grande esquema de corrupção que ocorria em Furnas” era usado para atender “vários interesses espúrios do PP, do PSDB e, depois de 2002, do próprio PT”, esquema operado por Dimas Toledo, Diretor de Engenharia da empresa, e ninguém menos que AÉCIO NEVES, o ex-presidenciável tucano, teria participado desse esquema e pedido ao próprio LULA, assim como o PT, para garantir a permanência do sujeito por lá. Aécio ainda teria trabalhado para maquiar as contas do Banco Rural com a ajuda do atual prefeito do Rio de Janeiro, o então tucano e hoje peemedebista Eduardo Paes (!!!).
É evidente que as denúncias precisam ser averiguadas, dissecadas, comparadas com outras delações e investigações, devidamente apuradas; acreditamos firmemente que os condutores da Lava Jato têm essa noção e já estão empenhados nesse propósito. No entanto, em se confirmando tudo, o que teríamos? Se a delação de Delcídio do Amaral for verdadeira em seu conteúdo, na sua integralidade, ela terá apontado aos investigadores um caminho para identificar casos de corrupção localizados que antecedem o período petista, isto é, que remontam pelo menos ao segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Terá identificado que ao menos o ícone da oposição tucana na última eleição está envolvido em corrupção e teria dialogado com o grande mentor do oponente partidário – sobre quem já fez comentários condescendentes e até elogiosos no passado, tal como FHC, que reconhece em Lula um “símbolo” que não seria positivo danificar – para que seu esquema tivesse prosseguimento. Teria confirmado, no entanto, mais do que isso, sobre o período atual e dos últimos 13 anos, que a Presidência da República, a Presidência da Câmara e a Presidência do Senado estão ocupadas, neste exato momento, por três criminosos que participaram, de formas diferentes, de um grande jogo de ilegalidades que sustenta uma oligarquia suprapartidária, da qual o PT é o coração de comando e a praga ideologicamente mais nociva e antidemocrática, especialmente na figura de Lula. Teria identificado que o nome do próprio STF, nossa Corte maior, foi metido no lamaçal.
Se, por fim, tudo o que Delcídio anuncia se provar verdadeiro, os investigadores da Lava Jato terão demonstrado que a Nova República se transformou em uma grande farsa operada por empreiteiros, fisiologistas ambiciosos e esquerdistas populistas mendazes, alienando-se da realidade social e condenando a nação à pobreza e ao desemprego. Terão demonstrado o que quase todo mundo já sabe – mas com requintes probatórios que não deixarão dúvidas e darão nomes aos bois. Não restará o mesmo país de pé, derrubado pela própria podridão. Chegarão eles até lá? De certo, temos que estaremos acompanhando. Em algum grau, nossas vidas dependem disso, e as manchetes matinais alarmantes dos últimos tempos ainda terão muitas sucessoras de arrepiar os cabelos nos próximos dias.

