Antes de tudo, eu adoraria que estivéssemos diante, digamos, de uma disputa entre um Carlos Lacerda e um Tancredo Neves, um Joaquim Nabuco e um Visconde do Uruguai, um Roberto Campos e até um Ulysses Guimarães. No entanto, para repetir um chavão já mastigado e batido, mas incessantemente verdadeiro, a política é a arte do possível. O Rio de Janeiro está dividido em uma disputa entre Marcelo Freixo, do PSOL, e Marcelo Crivella, do PRB. Não temos nenhuma terceira opção para onde correr.
Não posso deixar de dizer que me espantam as manifestações de pessoas que, conquanto compreensivelmente chateadas com o perfil dos dois postulantes à prefeitura, acreditam que ambos representam males de mesma intensidade – incluindo aí pretensos “liberais”. Não é verdade. Sabemos que Crivella manteve relações com Lula, foi ministro no governo Dilma, tem referências brizolistas em seu discurso, ganhou o apoio arcaico e nada recomendável de Anthony Garotinho, é sobrinho de Edir Macedo e bispo licenciado da sua Igreja Universal do Reino de Deus – alvo de controvérsias pelo seu discurso incensário contra outras religiões, pelas afinidades oportunistas de seu líder com os círculos do poder temporal, e pela sua posição favorável ao aborto. Temos, no candidato do PRB, uma lista de aderências desagradáveis que têm tudo para desenhá-lo como uma opção bastante ruim. Contudo, para usar uma analogia extraída das histórias em quadrinhos, entre um Lex Luthor ou um Rei do Crime, de um lado, e um Galactus ou um Darkseid do outro, qual seria a sua opção? O muito duvidoso ou o… Apocalíptico?
Marcelo Freixo é o carismático expoente do PSOL, um partido de extrema esquerda que se desligou do PT quando este supostamente se desviou da sua “pureza” e passou a fazer uma “oposição à esquerda” – que na prática inexistiu, já que até no discurso lulopetista de que o impeachment de Dilma foi um “golpe” esses socialistas pré-históricos embarcaram. O programa de Crivella, com todos os seus defeitos, defende o corte no número de secretarias, e representa, com seus cacoetes populistas, uma agenda no mínimo no mesmo nível de mediocridade dos nossos governantes tradicionais. Já o programa de Freixo institui novas empresas estatais, novos departamentos, novas secretarias, colocando nas mãos do Estado tudo quanto for possível. Seus militantes se esforçam para nos convencer de que as ligações do PSOL com o socialismo – óbvias desde o seu nome -, sua proximidade com todo tipo de discurso radical, sua afinidade essencial com os autoritários regimes bolivarianos – particularmente o de Maduro, na Venezuela, afagado por Luciana Genro, do Rio Grande do Sul, conquanto ela tenha insistido em negar -, tudo isso seria apenas eco do “anticomunismo da Guerra Fria” ressuscitado em um “discurso anacrônico pós-queda do muro de Berlim”. Contudo, como constatamos em seus comícios para estudantes universitários e no texto do documento que Freixo expõe como sua plataforma, a prática e a exposição mais concreta dos seus princípios desmentem a sua fantasia de moderação. Eleger Freixo é escolher o arcaísmo esquerdopata, enquanto São Paulo elege o discurso modernizante e mais liberal do tucano João Dória. É voluntariamente fazer do Rio um laboratório do fracasso socialista, em uma exibição pedagógica para os demais estados (fazendo de todos nós, cariocas, ratinhos de um experimento, diga-se de passagem) – ou pior, fazer da cidade o novo ABC paulista, para projetar o PSOL como o PT do amanhã, mantendo viva a chama do sonho esquerdista de dominar o nosso país e subvertê-lo, recriando-o à sua imagem e semelhança.
Se alguma dúvida havia, o PT do ontem e do hoje, o original – aquele que alçou ao poder o fantoche de Lula, Dilma Rousseff, e mergulhou o Brasil inteiro em maus lençóis -, não hesitou na decisão sobre quem apoiar nessa importante eleição municipal de uma cidade-vitrine do país. Em nota oficial em sua página no Facebook, o PT, que apoiou a candidatura de Jandira Feghali, do Partido Comunista do Brasil (!), agora associada a Freixo, tal como Alessandro Molon da Rede, comunicou que orienta sua militância a “apoiar incondicionalmente as candidaturas do PSOL, do PCdoB, da Rede e do PDT nas capitais, bem como daqueles com quem já estivemos no primeiro turno”. No caso do Rio, somente o PDT, herdeiro do brizolismo e que se alinhou ao PT em quase todos os momentos, apoiou Pedro Paulo no primeiro turno e agora se mantém neutro. Rede, PSTU, PCdoB, PT, estão todos com Freixo e o PSOL. As forças do atraso e da destruição do Brasil, que acabamos de expurgar, enxergam em Freixo a esperança de se reerguerem. Não foi por acaso que Dilma veio para o nosso estado, depois de ser desalojada do lugar que jamais deveria ter ocupado. Ela veio para “ajudar” Jandira e, agora, por óbvio, deseja a vitória do herói das juventudes “revolucionárias”, o “novo” que já está batido desde o século XIX.
Votar em Freixo é referendar esse “asilo político” e apoiar a próxima investida dos escombros do lulopetismo. Crivella pode até oferecer “entradas” a essa “banda podre”, mas Freixo já será o nome deles dentro do Executivo municipal. Ninguém pode alegar ignorância. As cartas estão à mesa.

