Senhoras e senhores, a história foi escrita. Por 55 votos a 22, em sessão que se alongou da manhã de quarta-feira (11/05) até a manhã de quinta (12/05), a presidente Dilma foi afastada por até 180 dias, aguardando o julgamento final do impeachment. O Partido dos Trabalhadores, neste momento, está fora do poder no país.
Em primeiro lugar, todos nós, que lutamos muito para ver este momento se tornar realidade, merecemos as congratulações; o povo brasileiro venceu a batalha dolorosa contra uma legenda que, através de um macabro esquema de corrupção e da manipulação de um tecido social ideologicamente comprometido, tentou se perpetuar no poder. Michel Temer (PMDB) assume como presidente interino da República.
Na sessão, alguns discursos, como a didática exposição de Ronaldo Caiado (DEM-GO) dos dados técnicos que ilustram a irresponsabilidade do governo, a sensatez e singeleza da peemedebista Simone Tebet, até mesmo os bons discursos de Aécio Neves e Romero Jucá, se destacam. Mas ninguém foi mais eloquente e se sobressaiu mais que o ex-presidente Fernando Collor (PTC-AL). Seu discurso questionou o modelo presidencialista brasileiro, devassou as transições irregulares que caracterizam nossa história republicana, evocou a necessidade de reformas; mostrou que o processo atual de impeachment contra a representante do PT – por ironia, a grande força social que impulsionou, em nome de sua falsa ética, o seu próprio impedimento – contou com ainda mais robustez e substância que o seu próprio. Collor, que manteve relativa parceria com o governo de seus algozes nos últimos anos, decidiu se vingar. Depois de roubar a cena, o placar eletrônico confirmou seu voto a favor do impeachment.
A História não deixou de marcar presença nos discursos, manipulada pelos desesperados governistas. A senadora do PCdoB Vanessa Grazziotin comparou o programa de viés liberal do Instituto Ulisses Guimarães, ligado ao PMDB, A Ponte Para o Futuro, com o slogan “Ame-o ou deixe-o” do governo militar de Médici. Nesse nível! Outro que não foi perdoado pelos esquerdistas foi o nosso Carlos Lacerda. O lendário udenista foi referenciado negativamente por políticos de ambas as posições, pró e contra o afastamento, descontextualizando suas citações. O senador petista Lindbergh Farias, que se esqueceu de que estava ali para defender Dilma e se ocupou de defender Vargas, Juscelino e Goulart, recriminou Lacerda por declarar que o primeiro, o caudilho de São Borja, não poderia chegar ao poder em 1950 de forma nenhuma; já o tucano José Serra disse que sua pregação pelo “regime de exceção” era um passo para a ditadura. Como o próprio Lacerda explica em seu Depoimento, talvez a expressão fosse inadequada, mas o que ele queria era uma pausa para a realização de reformas amplas, por uma razão muito simples: o Brasil herdou uma estrutura social peleguista e atravancada, legada por um regime prolongado de ditadura nacionalista – o Estado Novo de Vargas -, e precisava se livrar disso. Achar normal que Vargas, explorando essa estrutura, voltasse ao poder, sem qualquer punição por sua tirania, e que era possível simplesmente seguir com eleições sob sua influência, em vida e na comoção populista pós-suicídio, era, para Lacerda, como acreditar que a Alemanha Nazista poderia seguir sua vida em total liberdade depois da derrota de Hitler sem que o tecido social fosse limpo das estruturas do regime (como de fato foi). Pode-se discordar, mas como anatematizar esse raciocínio como sendo “fascista”, se fascistóide era o ditador contra o qual ele se voltava? A verdade é: Lacerda segue incomodando as esquerdas, dos socialistas atrasados aos sociais democratas afrescalhados. Que seja.
Hoje, essas esquerdas permanecem com a prevalência cultural e simbólica em redações e universidades, mas, após nefastos 13 anos, estão sendo alijadas do poder Executivo. Ao contrário dos anos 50, não temos um Lacerda, mas também não precisaremos dos mesmos remédios. Precisamos, hoje, fortalecer nossas instituições. Michel Temer assumiu, já em seu primeiro discurso, apesar de lançar um ministério que ainda nos deixa com algum pé atrás – o que deverá merecer exames e verificações mais adiante -, com um perfil centrista e voltado ao campo liberal, com a proposta esperada da “salvação nacional” e o uso elegante de mesóclises e latim. Provou aos mais jovens tupiniquins que existe vida sem o PT, e ela pode ter um perfil autêntico de estadista.
Resta-nos aceitar a parte que nos toca, seguir vigilantes e travar as novas batalhas que começam.
Mas primeiro: tchau, querida.

