Percorremos as páginas de Dilmês – O idioma da mulher sapiens, livro do editor e jornalista premiado Celso Arnaldo Araujo, com um misto de risadas incontroláveis e confusão mental. Afinal, é preciso exercitar as pestanas para entender certas construções complexas de raciocínio saídas da mente extraordinária da “Excelentíssima Senhora Presidenta” Dilma Vana Rousseff, tamanhas são a falta de nexo e as interrupções bruscas de palavras e frases.
Os 15 capítulos do trabalho árduo de Celso, que deve ser louvado pela paciência de que fez uso para levar a cabo sua tarefa espinhosa, reúnem o conjunto da memorável obra retórica da autoridade máxima do Brasil desde meados de 2009, quando a chefe da Casa Civil e ex-ministra das Minas e Energia começava a se apresentar ao país como presidenciável. Observador de longa data, portanto, Celso percebeu muito antes da maioria o que milhões de brasileiros, anestesiados pela ilusão projetada nos anos Lula, ignoraram ao colocá-la pela primeira vez no comando da nação: a completa incapacidade que Dilma demonstrava de se comunicar com o mínimo de dignidade.
Em um insight profundamente espirituoso – como, aliás, são profundamente espirituosos os comentários com que Celso intercala sua exposição sequenciada das estrovengas pronunciadas pela presidente -, o autor procurou sistematizar aqueles constantes tropeços e aquelas incessantes insanidades sob um rótulo: o “dilmês”. “Mulher sapiens”, como sabem aqueles que acompanham as linhas de comentaristas e observadores da imprensa ou da comunicação política alternativa, como este que vos escreve, é uma referência a um dos discursos amalucados de Dilma, de fazer inveja a Cíceros e Churchills, em que ela sentiu a necessidade de promover uma flexão de gênero alienígena em uma classificação taxonômica.
Daí para frente, Celso relaciona os grandes clássicos que nos fizeram rir ao longo dos últimos anos – e corar perante o mundo. A coletânea impagável foi extraída de discursos em solenidades nacionais e internacionais, de transcrições do próprio portal do Planalto, e de comentários em coletivas de imprensa ou visitas oficiais a cidades para lançamento dos infindáveis programas de governo “Minha isso, minha aquilo”, ou “Mais isso, mais aquilo”. Constam registros tragicômicos que se acumulam desde que a figura de Dilma Rousseff teve a lamentável ideia de despontar para o mundo e exibir aos outros países seu farto cabedal de referências bibliográficas – é impressionante como Dilma se esquece de todos os livros ou obras de arte que porventura intente citar! -, suas ênfases horrorosas de palavras desnecessárias – ao estilo “a fulana ela..” – e seus ziguezagues de ideias fundidas em parágrafos que dizem muitas coisas, mas ao mesmo tempo não dizem coisa alguma.
Com notória habilidade, Celso não se limita a pontuar os parágrafos estonteantes de Dilma, ou a ironizá-los com sua prosa divertida e criativa; ele também se esforça por organizar as ideias e demonstrar que o dilmês tem uma lógica própria, interna, que é reconhecível em meio a “zilhões” de citações de outros oradores; o último capítulo do livro sintetiza alguns desses maneirismos típicos e verdadeiramente singulares, como invenções debilóides oriundas de “viagens assombrosas ao mundo da fantasia”, delírios para encher de hipérboles algo ou alguém que Dilma considere importante, radicalismos retardados, descobrimento de países ou objetos novos (que todo mundo já conhece, menos ela), canibalização de palavras ou hesitações constrangedoras na tentativa de concluir orações. Imperdível.
A ideia original de Celso ela (perdão; a exposição a esse volume de besteiras do dilmês pode exercer efeitos sobre quem as lê, muito cuidado) cedo ou tarde seria aproveitada por alguém; méritos totais dele que, atento, perseverante e, diríamos, heroico, acompanha os objetos de sua catalogação desde o começo. E foi uma ideia muito bem executada, não há negar. A leitura de Dilmês: o idioma da mulher sapiens deve ser a melhor maneira de deixar claro a qualquer compatriota, no futuro, o que todos os brasileiros minimamente conscientes de hoje já estão carecas de saber: Dilma é única.
Sim, é única. Se já tivemos governantes pitorescos – Jânio Quadros e suas vassourinhas e proibições de biquíni que o digam – e não muito dotados de grandezas perante os olhos do mundo ou perante os nossos próprios, nunca se viu tamanha concentração ambulante de absurdos e incompetências em um presidente da República. Dilma já tem um lugar especial na história. Os brasileiros do futuro remoto, assim esperamos, poderão somente gargalhar de suas embaraçosas estripulias; nós, que sofremos diretamente as consequências, também rimos, mas não somente; não gozamos desse privilégio da distância.

