A convite do meu prezadíssimo amigo Alessandro Lyra Braga, que coordena o portal Debates Culturais, redigi algumas linhas para seu respeitado veículo sobre o dia de hoje. Transcrevo-as para este espaço a seguir.
Ao longo de sua história, o Brasil assistiu atônito, inerte, à maior parte de suas transformações, à maior parte de suas grandes mudanças. Por Brasil, queremos dizer aquilo que faz dele uma nação, isto é, o seu tecido social, o seu povo. Quando multidões irromperam às ruas, elas em geral o fizeram mobilizadas por um comando central – mais ou menos esclarecido e imbuído de maiores poderes -, atraídas por partidos, sindicatos ou pela grande imprensa. Hoje, nas manifestações que principiaram em 2015 e prometem chegar ao seu ápice neste domingo, treze de março de 2016, ocorre algo muito diverso.
Em primeiro lugar, porque, em todo o processo, os brasileiros indignados não puderam contar com o apoio positivo de partidos políticos, que se introduziram tardiamente nas mobilizações. Pusilânimes, as principais legendas oposicionistas, salvo nomes específicos que se destacam aqui e acolá, não se portaram em momento algumcom a intrepidez e a dignidade reclamadas diante do edifício de mentiras e de hipocrisia que terminou de apodrecer a combalida Nova República prometendo renovar os ares e reinventar o Brasil.Tampouco da grande imprensa; de fato, a equipe da Rede Globo, a maior emissora do país, ao longo de toda a era petista – com a notória exceção de William Waack –, se vinha mostrando parcimoniosa, por vezes até protetora, para com as hostes governistas (ao contrário do que costuma grasnar a esquerda). Quando se começou a ouvir falar em impeachment, seus proprietários se apressaram a afagar a presidente Dilma e propor cautela a quem, por se voltar contra um sistema de poder estabelecido com base na sordidez e no divisionismo, acabou paradoxalmente acusado de fomentar a intolerância e a irresponsabilidade com as instituições. Já se viram manifestações medíocres de pelegos se tornarem algo comparável aos protestos anti-governo, jurista que protocolava pedido de impeachment da presidente da República ser atormentado com perguntas que exigiam dele apenas um parecer sobre as denúncias contra o presidente da Câmara, entre outras evidentes distorções da informação.
Contra tudo e contra todos, diversos movimentos populares, organizados a partir da preocupação com os rumos degradantes do país, diretamente da sociedade civil, se organizaram e convocaram a voz das ruas; todo o resto se deveu, como nunca antes, a quem decidiu atender ao chamado. Milhares de pessoas, nas quatro manifestações do ano que passou, estiveram nas ruas por todo o país para dizer “basta”. Idosos, crianças, homens, mulheres – brasileiros, enfim. De par com isso, do seio das instituições, dos recônditos da Justiça, alguns profissionais investidos da atribuição de fazer cumprir-se a lei levaram e ainda levam adiante um processo de dissecação da imundície que desvela o maior escândalo de corrupção da história republicana. A Operação Lava Jato e o juiz Sérgio Moro não trazem à tona apenas furtos menores, próprios das infâmias politiqueiras desde Pedro Álvares Cabral, que poderiam ser, comparados ao poderio e à ameaça da estrutura então identificada, apreciados em juizados de pequenas causas – tal como constatou, em relação ao ex-presidente Collor (aliás, novamente inserido nas denúncias), o ministro do STF, Gilmar Mendes. Não; eles trazem à tona o desenho nítido de um projeto de poder que, alicerçado no surrupio mais desavergonhado das estatais e do bem público, pretendia sustentar uma casta odiosa por décadas no controle da pátria.
Os ares de mudança já se fazem sentir em quem antes, como quase sempre, os encarava com timidez. Acusada de não ter procurado os advogados de Lula para responder às acusações do Ministério Público contra o ex-presidente – e coração simbólico do regime em vigência -, a Globo, no “Jornal Nacional” do sábado que antecede as manifestações, na figura do jornalista Alexandre Garcia, respondeu com inabitual dureza. Mostraram que “acabou o amor”. Ser agredida tão intensamente por quem odeia a liberdade de pensamento e expressão é uma boa lição para a emissora pelo que vinha ocorrendo até agora, mas, por outro lado, Garcia colocar Lula em seu devido lugar em horário nobre e fazê-lo sentir que, se os FATOS lhe soam “ofensivos”, isto não é razão para que a imprensa se furte de informá-los, é um sinal dos tempos. A prisão do poderoso empreiteiro Marcelo Odebrecht, também. A denúncia de Delcídio do Amaral que aponta os dedos diretamente para Lula e Dilma Rousseff, igualmente.
Mais um ciclo de populismo e desprezo exacerbado pela solidez da ordem institucional e liberal-democrática, com agravantes ideológicos espúrios que não perturbaram tanto, nem tão intrinsecamente a normalidade por essas paragens em outros momentos complicados de nossa história, parece estar encontrando o seu colapso. Seus líderes e construtores hoje não caminham em público conservando a pompa ilusória e o aplauso cego de outros tempos. As mentiras se esvaneceram. O estelionato eleitoral se revelou na face dura do desemprego, da necessidade urgente dos cortes, do rebaixamento dos graus de investimento, da incompetência absoluta da presidente para formular uma única frase com sentido. Apesar disso, mesmo tendo cometido seu ato-falho de quase dizer que “renuncia” em entrevista recente, Dilma não mostrou hombridade para abdicar do poder. Lula não mostrou hombridade para se curvar ao peso da lei, e seguiu a dirigir bravatas para desacreditar a justiça quando ela lhe sopra no cangote. É preciso mais. É preciso dar-lhes o golpe final.
Este treze de março em que o mundo assistirá a manifestações maciças em quase 500 cidades em apoio à Lava Jato e à deposição constitucional da presidente da República (quer por cassação pela chapa comprometida com a imundície do Petrolão, quer por impeachment pelo desprezo à responsabilidade fiscal) será, de qualquer maneira, histórico. As manifestações que já passaram foram, sem sombra de dúvidas, uma demonstração inequívoca do sentimento do povo, não tendo sido equiparadas por qualquer esforço dos defensores do regime (quer por ilusão ideológica prolongada, quer por interesses mesquinhos) de lhes fazer frente. Tamanha é a alienação de Brasília que não foram suficientes. As pesquisas indicam que esta será a maior e, possivelmente, a maior da HISTÓRIA. Treze de março pode ser o momento definitivo em que o povo brasileiro tomará em suas mãos as rédeas de sua destinação histórica e, se Dilma e Lula não renunciarem às suas posições de (falso) prestígio, mostrará que já “OS RENUNCIOU” há muito tempo e que figuras demagógicas e fabricadas por marqueteiros não podem se sobrepor indefinidamente ao império da lei. Se os brasileiros desejam mesmo pôr um fim a este ciclo, sabem onde devem estar neste domingo: abandonando a condição de tragados pelo fluxo da história e se dispondo a doar algumas horas de seu descanso para começar a escrevê-la.

