Ao contrário do que vociferavam os que se debatiam em defesa do governo em desmanche, o afastamento de Dilma Rousseff ter sido aprovado pelo Senado – a presidente afastada agora aguarda o julgamento final, que deve ocorrer nos próximos meses – não representou o fim da Operação Lava Jato. Pedro Corrêa, ex-deputado pelo PP, formalizou uma delação que chegou até ao nome do colega de partido Paulo Maluf. A delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, com seu conteúdo em áudio registrado há meses por ele sem o conhecimento de seus interlocutores, já implicou diretamente figuras importantes do PMDB nos escândalos.
Romero Jucá, Edison Lobão, José Sarney e Renan Calheiros são diretamente envolvidos nas conversas degradantes que estão sendo reveladas a todos os brasileiros pela imprensa. O primeiro já se afastou de seu ministério, e agora, pressionado por áudios em que fornece dicas duvidosas a Renan e Machado, o ministro da Transparência, Fabiano Silveira, pediu demissão. A Lava Jato afetou o governo petista; ela também perturba o governo peemedebista. Diante disso, alguns jornalistas, como Eliana Cantanhêde na Globo News, mostraram preocupação em que o prosseguimento desses escândalos e investigações possa comprometer o cenário social e econômico brasileiro pelos próximos meses.
Na última semana, porém, o Brasil ganhou manchetes internacionais por conta de outro fato, a princípio sem qualquer relação com a crise política. No Rio de Janeiro, uma história sobre uma moça de 16 anos que denunciou um estupro supostamente cometido por três dezenas de homens na zona oeste causou profunda comoção e foi extensamente explorada pela mídia. De um lado, começaram a surgir suspeitas envolvendo a menina em uma rotina questionável, regada a drogas, orgias e ostentação de armas do tráfico; houve uma manifestação de moradores da região e até um suposto comentário do delegado afastado do caso via Whatsapp dando conta de que não houve estupro algum. De outro, manifestações feministas proliferaram em defesa da moça, e a nova delegada responsável pelo caso afirmou ter convicção de que o estupro existiu.
Não nos atreveremos a bater martelo sobre o que de fato aconteceu; o que nos assombrou foi o tipo de discurso que as feministas se puseram a alardear por qualquer canal em que se manifestassem. Em primeiro lugar, colocar em dúvida a veracidade da denúncia era e é, para elas, um absurdo, embora não seja mais do que o trabalho da polícia. Em segundo e pior, para variar um pouquinho, elas buscaram a explicação para o estupro em conceitos da intelectualidade “liberal” – esquerdista, portanto – norte-americana, como a suposta “cultura do estupro” que existiria em nosso país e colocaria, em um mesmo barco, a violência extrema do abuso sexual e as cantadas grosseiras de pedreiros (os mesmos que, em geral, matariam um estuprador). Passaram a rotular todo o gênero masculino de “potencial estuprador” – como se não fôssemos “potencialmente” uma porção de coisas diferentes, e isso, ao fim das contas, não quisesse dizer coisa alguma. Recorreram e recorrem, obstinadamente, a quaisquer gêneros de subterfúgio para responsabilizar causas antropológicas/sociológicas supostamente generalistas e retirar o foco dos culpados. As feministas, na prática, deliberadamente ou não, estão oferecendo consultoria gratuita aos advogados dos estupradores.
O que esses dois temas – a hesitação de alguns diante dos prejuízos que o avanço da Lava Jato pode causar à situação política, e a propaganda feminista que se seguiu ao alastramento da história do estupro – têm em comum? O seguinte: em graus e dentro de condicionantes distintos, eles evidenciam o receio, ou a aversão, que segmentos da nossa sociedade manifestam diante da Justiça e de sua parceira maior: a Verdade.
No caso da Lava Jato, embora jornalistas como Cantanhêde não estejam sugerindo que a Lava Jato se silencie ou se anule para permitir que o país siga sua recuperação em paz – o que faria dela uma falsa recuperação -, o tom de alarmismo diante do trabalho da Justiça já foi perigosamente manipulado pelos petistas, especialmente por Lula, para responsabilizar o juiz Sérgio Moro pelo descalabro econômico. Deixemos claro que não fazemos coro com isso apenas porque conseguimos realizar o primeiro objetivo de ver outra pessoa na Presidência da República em vez de Dilma Rousseff; a batalha não acabou e a Lava Jato deve ir até o fim. Se, como parece, ela solavancará governo e oposição, atingirá representantes de todos os partidos e fará revolvido o edifício presente da Nova República, tanto mais nós ganharemos. Romero Jucá disse que a intenção dos procuradores é destruir a atual classe política e criar uma completamente nova; conquanto esse não possa ser o seu objetivo maior, e sim o de encontrar e responsabilizar os culpados, se for essa a consequência, não lamentaremos um tiquinho que seja. Que capturem todos! Que façam a purga.
Quanto à questão do estupro…. Bem, pondo de lado a estupidez da ideia do estupro como elemento incrustado na cultura brasileira, reconhecemos que estamos cercados, de fato, por uma contaminação cultural – esta sim! Não a do estupro; a de um “desconstrucionismo” demolidor, que aceita como verdades absolutas as afirmações de alguns pensadores dando conta de que verdades não existem, e que vive a buscar causas complexas fictícias para deixar de analisar o problema da moral humana. A consequência disso é que, aos olhos de alguns, falar em bem e mal, em certo e errado, tornou-se uma espécie de “obscurantismo medieval”. A continuar assim, a tragédia é iminente; em verdade, já chegou. Parafraseando o filósofo católico Chesterton, diria que, em muitos sentidos, só resgataremos nossa época se tivermos a coragem de não sermos “atuais”.
A verdade, hoje em dia, incomoda porque causa sobressaltos nos interesses de quem está no poder às custas de vender sonhos aos acéfalos; incomoda porque os fatos precisam se curvar aos anseios ideológicos dos grupos de pressão, a tal ponto que milhões de homens de bem precisam ser, sem qualquer critério, classificados “em potencial” ao lado de pessoas desequilibradas e más. No fim das contas, só ela importa. Não o PT, não o feminismo.
Só a verdade pode nos salvar.

