O estado do Rio de Janeiro vem sangrando nos últimos tempos devido à devassa nas contas públicas, a corrupção instalada nas principais esferas do poder estadual e o excessivo aparelhamento da máquina administrativa. Mas já houve tempos de glória quando nosso território foi vanguarda da boa gestão, da boa governança e do respeito às contas públicas. E, neste artigo, buscarei mostrar uma história do passado recente de nosso estado que mostra que as coisas podem sim ser diferentes.
O ano era 1960. A cidade do Rio de Janeiro deixava de ser a capital do país em face da transferência da sede administrativa do Governo Federal para a recém-construída Brasília. Já naquela época, havia pressões para que o antigo Distrito Federal realizasse sua fusão com o estado do Rio de Janeiro, todavia a população rechaçava tal iniciativa. Com isso, o Governo Federal não teve outra opção senão sancionar a Lei No 3752/1960, apelidada também de Lei San Tiago Dantas em razão de o deputado mineiro ter sido responsável pelo texto da lei. A lei regulamentava a criação do estado da Guanabara, novo nome do antigo Distrito Federal, além de criar normas para a eleição de governador do estado e dos deputados estaduais, que seriam signatários da Constituição do estado do Guanabara. As eleições do recém-criado estado aconteceriam junto à eleição presidencial.
Quatro candidatos lançaram-se ao pleito em busca de ser o primeiro governador eleito do estado da Guanabara. Pelo PSD (Partido Social Democrático), o candidato foi o militar Ângelo Mendes de Moraes, prefeito do Rio de Janeiro entre 1946 e 1951; pelo Partido Social Trabalhista (PST), o deputado federal Tenório Cavalcanti, também conhecido como “O Homem da Capa Preta”; o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) lançou o deputado federal Sérgio Magalhães, então vice-líder do governo JK na Câmara dos Deputados; por fim, Carlos Lacerda representando a União Democrática Nacional (UDN) naquela eleição.
O favoritismo de Carlos Lacerda na eleição era grande. Tão grande que PSD e PTB, partidos aliados na esfera nacional, não acharam um nome de consenso para realizarem a aliança. Lideranças nacionais do PTB, como Lutero Vargas e João Goulart, viam na figura de Sérgio Magalhães alguém “independente demais”, que não tinha a garra e agressividade necessária para vencer Lacerda e a UDN. Já o PSD, partido do então presidente Juscelino Kubitschek, desejava lançar uma pré-candidatura para forçar a chapa trabalhista a dar mais espaço no governo aos pessedistas, porém Ângelo Mendes de Moraes não abriu mão de sua candidatura ao governo, inviabilizando assim a aliança no estado da Guanabara.
Mas a grande surpresa daquela eleição era mesmo Tenório Cavalcanti. O “homem da capa preta”, como era conhecido, tinha um eleitorado fiel na Baixada Fluminense. Foi vereador em Nova Iguaçu representando o então distrito de Duque de Caxias, e tinha sido deputado federal pela UDN. Personalidades udenistas como o próprio Lacerda e Afonso Arinos consideravam o político nascido em Alagoas “um udenista com ar de povo”, pelo fato de o parlamentar ter um forte apelo popular. Tenório saiu das fileiras da UDN em 1958, filiando-se ao Partido Social Trabalhista (PST), e decidiu candidatar-se ao governo da Guanabara usando um discurso nacionalista e anti-comunista, aproveitando-se da grande popularidade que tinha nos bairros do Rio de Janeiro próximos das cidades da Baixada Fluminense.
A campanha então iniciava-se com os quatro candidatos brigando para ver quem seria o primeiro governador do novo estado. Lacerda decidiu utilizar uma estratégia em que buscaria construir uma identidade com o recém-criado estado da Guanabara, defendendo a autonomia política conquistada pela Lei San Tiago Dantas. Seu lema de campanha era “enfrentar os problemas da Guanabara nascente” como o problema de abastecimento de água pelo qual passava a cidade do Rio de Janeiro. O candidato da UDN atacava seu principal concorrente, o trabalhista Magalhães, argumentando que o candidato trabalhista preocupava-se mais com o “imperialismo norte-americano do que com a falta de água nas torneiras dos cariocas”.
Na convenção da UDN que oficializou a candidatura ao governo da Guanabara, Lacerda mostrou as cartas de sua campanha; decidiu abordar pouco os problemas nacionais para abordar os problemas a serem sanados na esfera local. Uma aposta para desidratar a campanha do PTB, cuja esfera local se mantinha como seu fiel reduto eleitoral. Abaixo, um dos trechos do discurso de Lacerda na convenção em que foi publicado no jornal “Tribuna da Imprensa”,no artigo “A liberdade através da dificuldade”.
“Não somos uma capital decaída, mas uma cidade libertada. Os que daqui saíram com saudade sabem que o Rio é uma cidade insubstituível, uma cidade em que todos os brasileiros, ontem, hoje, sempre estarão como em sua casa. Sabem estes brasileiros que somos uma região sem regionalismos. Pensamos nossos problemas em termos mundiais, além de continentais, e continentais, além de nacionais (…) Nossos heróis são nacionais (…) Pensaram que nos abandonando interiorizavam a civilização, mas foi aqui que a deixaram. Porque somos a síntese do Brasil, porque somos a porta do Brasil com o mundo, e somos do mundo a vera imagem que ele faz de nós”.
Carlos Lacerda, “A independência através da dificuldade”, Tribuna da Imprensa, 28-29 de Maio de 1960
Outra estratégia de Carlos Lacerda nas eleições foi explorar o apoio feminino, buscando incentivar as mulheres a escolher o projeto político de Lacerda para o governo da Guanabara por meio de propaganda de alistamento no jornal “Tribuna da Imprensa”, veículo do qual o corvo era proprietário. Esta campanha de alistamento feminino pró-Lacerda seria crucial no final das eleições, que eram disputadas cabeça à cabeça pelo udenista Carlos Lacerda e pelo trabalhista Sérgio Magalhães.
Mesmo buscando trabalhar a identidade guanabariana e arregimentando o eleitorado feminino, o udenista patinava nas intenções de voto nas áreas mais pobres. Enquanto em distritos como Copacabana, Leme, Botafogo e Ipanema Lacerda tinha grande apelo, no subúrbio Sérgio Magalhães tinha a preferência da população vendendo-se como um novo “pai dos pobres” que poderia continuar dando continuidade ao legado varguista. Para melhorar suas intenções de voto no subúrbio, Lacerda decidiu apelar para um udenista que à época era um dos artistas mais populares do Brasil, o “rei do baião” Luiz Gonzaga. Gonzagão seria o responsável por compor o jingle eleitoral do corvo. Logo a música cantada pelo artista pernambucano caiu na boca do povo.
Magalhães, contudo, não esperava enfrentar um grande adversário nas áreas mais carentes. Tenório Cavalcanti gozava de muito prestígio nas regiões mais próximas da Baixada Fluminense, por ter feito diversas benfeitorias na região da atual cidade de Duque de Caxias enquanto vereador, jornalista e deputado federal. E como muitos duque-caxienses tinham familiares morando na cidade do Rio de Janeiro, estes viraram cabos eleitorais de Tenório. Com isso, muitos votos que iriam para Sérgio Magalhães acabaram indo para Tenório Cavalcanti, assim desidratando a candidatura trabalhista. Em uma mostra conspiracionista, alas trabalhistas e socialistas diziam que a candidatura de Cavalcanti teve financiamento norte-americano para assim ajudar a eleger Carlos Lacerda governador.
Na reta final, Lacerda decidiu como estratégia pro sprint final a nacionalização do debate, argumentando que o Governo Federal, comandado pela coalizão PSD/PTB, boicotava o Rio de Janeiro tanto politicamente, tanto financeiramente. Tal estratégia ajudou Jânio Quadros, candidato a presidente apoiado pelo UDN, a vencer na Guanabara com uma boa margem de votos sobre o candidato governista, Henrique Lott.
A epopéia lacerdista acabou com um final feliz, com vitória do udenista por uma leve margem de votos. Carlos Lacerda teve 37% dos votos válidos (357.153 votos) e venceu Sérgio Magalhães, que obteve 34,59% dos votos (333.901 votos). Tenório Cavalcanti teve 23,10% dos sufrágios (222.942 votos), muitos deles obtidos nas regiões próximas a cidades de Baixada Fluminense, assim tirando a vitória do PTB na Guanabara. E, na última posição. o pessedista Ângelo Mendes de Moraes, com 5,31% dos votos (51.195 votos).
Carlos Lacerda tornou-se o primeiro governador da Guanabara, porque, entre os postulantes ao cargo de governador, conseguiu mostrar um capital pessoal com o maior grau de força política. Sua candidatura encarnou o equilíbrio entre o desejo de se manter o Rio de Janeiro como liderança nacional e o desejo de fazer da Guanabara um estado. Venceu a eleição por ter construído uma relação positiva entre duas identidades em elaboração: a criação de um novo estado e a composição de um projeto político que tinha como meta a eleição presidencial de 1965.


1 comentário
Interessante isso. Não sabia dessa parte da história do nosso Estado. Obrigado!