Uma das mais recentes publicações da editora Record lançou luz sobre uma das rivalidades mais acirradas no campo do conhecimento, especificamente da Economia – mais intensa do que eu poderia supor que fosse antes de passar os olhos por suas linhas. De autoria do jornalista Nicholas Wapshott, com tradução em português de Ana Maria Mandim, Keynes X Hayek: As origens e a herança do maior duelo econômico da História, recria a saga quase épica do enfrentamento dos dois oponentes e seus seguidores de ontem e de hoje.
Os versados na “técnica” econômica talvez esperem um livro denso em discussões teóricas e matemáticas; folgo em afirmar que se decepcionarão, e o grande público só tem a ganhar com isso. Wapshott penetra a dimensão humana dos dois ícones, e constrói um verdadeiro romance disfarçado, repleto de lances inesperados e rivalidades incontidas. Também, aliás, de muita admiração. É o que fica patente ao longo das pouco mais de 400 páginas (se incluirmos as notas) em que o autor faz desfilarem trechos de publicações e entrevistas que mostram como os dois grandes personagens se relacionaram, e como figuras de destaque no mundo todo se moveram em torno do grande debate levantado por eles.

Keynes
John Maynard Keynes (1883-1946) é apresentado como uma figura carismática, popular, conhecedora do jogo da mídia e da propaganda. Homossexual e boêmio, Keynes desejava o sucesso e tinha uma mentalidade muito mais esteticamente “progressista”. O livro de Wapshott se esforça, porém, mostrando opiniões dos próprios adversários a seu respeito, em ressaltar que não se deveria reduzi-lo, como certas alas liberais e conservadoras se propõem a fazer, a um “socialista”. Era um ídolo, mesmo para o austríaco Friedrich August von Hayek (1899-1992), por sua campanha contrária a punições severas e desastrosas para os países derrotados na Primeira Guerra Mundial, prevendo que tamanho sofrimento permitiria a proliferação de extremismos e revanchismos e provocaria uma nova conflagração – no que estava certo, como Hitler provou anos depois. A origem de sua mentalidade não estava entre os comunistas ou socialistas, mas no Partido Liberal decadente da Inglaterra, e seu desejo era conter a esquerda radical pelo que acreditava serem reformas necessárias para “salvar o capitalismo” – pois, sem elas, a economia de mercado seria destruída pelos extremismos socialistas ou fascistas.
Sua síntese teórica? Segundo Wapshott, a ideia de que o remédio para o desemprego em massa seria “aumentar a demanda agregada total”, empregando recursos como “meios monetários, baixando taxas de juros e canalizando dinheiro para a economia, por meio de isenções fiscais e obras públicas”. Em outras palavras, Keynes defendia uma compreensão analítica da Economia que a julgasse melhor entendida “de cima para baixo”, através de dados mais gerais, e que reconhecesse no governo, ao contrário dos liberais ortodoxos do passado, uma força intervencionista útil para sanar situações de crise aguda. Seus remédios e sua mentalidade se corporificaram em sua obra magna Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.
O que o leitor não descobrirá lendo qualquer livro de Keynes, mas poderá sentir lendo o livro de Wapshott, é a feição verdadeiramente “revolucionária” que tomou o Keynesianismo nos anos 30, seduzindo as consciências e atingindo a predominância absoluta nos Estados Unidos e no mundo pelas décadas seguintes. O autor destaca, é verdade, que os keynesianos foram distintos em seu radicalismo, sendo alguns mais extravagantes e apoiando intervenções ininterruptas ou cada vez mais amplas que seu guru original não sonharia em fazer, enquanto outros o moderaram e aceitaram contribuições de outras escolas econômicas. Certo nos parece que, do ponto de vista da fama e do reconhecimento – o que não quer dizer, frisamos, que se está com a razão -, não nos restam dúvidas, após acompanhar a história, de que Keynes foi o pop star que seu grande “nêmesis” jamais conseguiu ser.

Hayek
O livro deixa claro que Hayek, discípulo de Mises, foi alçado por terceiros ao posto de grande campeão dos liberais, cruzando o mar para o embate em língua inglesa. Eles estavam carentes de uma liderança que canalizasse a defesa do livre mercado e o enfrentamento ao remédio estatal de Keynes com o suporte das vantagens da ordem espontânea. Desde sempre, era ele um diferenciado condensador da ideia de que a economia depende em amplo grau de informações dispersas, e de que os remédios keynesianos fazem pouco mais que gerar miragens, investimentos em negócios que não geram demandas naturalmente – isto é, por si sós -, e adiando uma decepção ainda maior no futuro, afetado pelo drama da inflação. Era um homem de espírito Old Whig, como ele mesmo se definia; alguém que receava qualquer maior movimento de controle central como um deslocamento em direção à tirania e, consequentemente, à servidão. Porém, usando com dificuldade o idioma estrangeiro e não tendo o “jogo de cena” de Keynes, foi um “campeão” sem o mesmo brilho em termos de imagem. Trocou mensagens públicas, debateu, enfrentou Keynes acidamente, em um duelo intelectual apoteótico. A cada embate, as duas figuras deixaram transparecer, para além de suas qualidades notórias, suas “vaidades” também difíceis de controlar.
Por muito tempo, o carisma pessoal de Keynes fez dele um vencedor prático bastante óbvio, enquanto Hayek e a “misteriosa Escola Austríaca” – cuja força vemos hoje erguer-se no Brasil – permaneceram uma cabala secreta e quase incomunicável, embora também formassem seguidores. É uma deixa para que nós, defensores do capitalismo liberal, nos questionemos quanto aos avanços que obtivemos nesse campo, fundamental para o sucesso de nossas ideias. Como vendemos e temos vendido para o grande público aquilo em que acreditamos?
O autor vislumbra o começo de uma reação com o sucesso de O Caminho da Servidão, de Hayek; mas, no jogo de composições entre ideias de ambos os adversários e no advento de correntes híbridas e de aplicações igualmente híbridas nas políticas econômicas – havendo uma descrição detalhada das doses de Keynesianismo e anti-keynesianismo em todos os principais presidentes dos EUA desde a morte de Keynes, em 1946 -, o grande respiro liberal se dá com nomes como Milton Friedman, para quem Hayek e os austríacos estão errados em diversos aspectos técnicos fundamentais – como a ideia de que o Estado não deve deter a administração de um Banco Central para emissão de moedas. O adversário, representante da chamada Escola de Chicago, com seu pensamento dito “monetarista”, era, porém, admirador, pupilo e aliado de Hayek na luta pela mentalidade filosófico-política geral em prol de uma retração do governo e de sua intervenção nas trocas econômicas. Aqui Hayek brilha mais; em um empreendimento notável, que, ao que consta do livro, seu mestre Mises não conceberia – por ter supostamente uma personalidade intratável perante os discordantes -, ele deu origem à Sociedade de Mont-Pélerin, com o propósito de reunir lideranças públicas das teses liberais na luta pela virada do cenário mundial.
Todo esse embate intelectual – e, como se nota, até institucional – é descrito, com todas as suas mais importantes nuances, passando pela dinâmica interna, nas universidades e círculos intelectuais, dos embates publicitários e explicitamente políticos que os dois figurões travaram em vida, fomentando o confronto entre seu séquito de alunos e defensores; pelo triunfo absoluto de Keynes após o aparente sucesso do programa intervencionista do governo Roosevelt nos EUA, o New Deal, baseado no financiamento expressivo de obras públicas pelo Estado; pela “contrarrevolução” hayekiana operada através de Friedman, e dos grandes líderes populares conservadores Reagan e Thatcher; e pelo “redespertar” da batalha a partir da crise do subprime de 2008.
Ignorando propositadamente algumas aparentes “forçações de barra” para depreciar um e outro lado a fim de figurar a imparcialidade (particularmente, como é meu favorito, senti que Hayek foi ironizado às vezes de modo um tanto desnecessário) e algumas discordâncias conceituais que pessoalmente manifesto, Keynes x Hayek é um registro único da grande discussão intelectual que movimentou as engrenagens públicas e políticas mundo afora na luta para estar com a razão sobre o limite da atuação do Estado na economia. Um dos maiores charmes do livro consiste justamente em desvelar e procurar compreender os bastidores humanos e político-estratégicos do que poderia ser, à primeira vista, “apenas” uma imensa discussão de ideias.
Mesmo que, como eu, você tenha muito de Hayek em seu espírito, o livro deve permitir a criação de uma maior empatia com Keynes – aquela que faculta reconhecer méritos no adversário e deixar de empregar gracejos superficiais contra ele quando se trata de falar sério. Hayek foi seu maior e mais emblemático opositor – contudo, até o fim da vida, considerou Keynes um dos maiores homens que conheceu, e, à maneira meio exótica dos dois, um amigo. Mais do que levantar bandeiras e tentar provar quem tem razão, é a chamada de atenção para essa esfera pessoal de dois gladiadores da teoria, que inscreveram seus nomes na História, que confere ao livro o seu maior e verdadeiro atrativo.

