Em dias marcados pela batalha do governo na Câmara para aprovar o teto de gastos públicos, decisão apertada do STF de manter a prisão para condenados em segunda instância, e a aprovação do texto-base que retira a obrigatoriedade de a Petrobras explorar todos os campos do pré-sal, vale destacar uma notícia que, no turbilhão da guerra de narrativas, tem um peso definitivo. A Polícia Federal do Paraná abriu um inquérito policial da Operação Lava Jato para investigar um suposto esquema de corrupção na compra de termoelétricas pela Petrobrás durante o governo Fernando Henrique Cardoso, entre 1999 e 2001, envolvendo as empresas Alstom/GE e NRG.
A investigação parece ser baseada em declarações de Nestor Cerveró, que lançam o rastro das propinas e das corrupções para o final da administração tucana, no contexto localizado da construção e exploração dessas termoelétricas. Não sabemos nada sobre o caso, não podemos decretar a culpa ou a inocência de ninguém. Num momento, entretanto, em que o impeachment de Dilma já se consumou, em que o clima de tensão política no país passa por uma fase levemente mais difusa, em que as peças do tabuleiro estão se reorganizando, a Operação Lava Jato, fosse ela (como dizem os petistas) um dispositivo golpista para destruir o PT, não teria qualquer razão para dar início a esse procedimento e entregar uma manchete prejudicial ao PSDB nas mãos da imprensa.
É um bom momento para, pela última vez, demolir a narrativa do foco único e do particularismo ideológico. A Lava Jato seguiu uma sequência lógica, que tornou possível construir um esquema geral da corrupção sistêmica enraizada na Petrobras e em outras estatais e órgãos públicos. Ela identificou, baseada no mais puro realismo e nas conexões de dados, a posição central de Lula e do regime lulopetista, encabeçando a rede para solidificar um projeto de poder. Desde o começo, porém, Deltan Dallagnol, um dos procuradores, fez questão de deixar claro várias vezes que não é pretensão do seu time sustentar que o PT inventou a corrupção no país. A investigação seguirá rastreando até onde for possível todas as informações que obtiver, enquanto não a puderem conter. Prova disso é que, em diálogos de peemedebistas, ficou claro que eles, também investigados, temiam a continuidade dos trabalhos.
Agora, o governo tucano também é alvo; já dissemos aqui, e repetimos, que é mais do que natural que seja mais difícil enquadrar casos de corrupção nas duas gestões do PSDB, pelo simples e óbvio fator “tempo”. Também não se deve encontrar qualquer indício de algo sistêmico e enraizado como o que aconteceu nos governos petistas, dada a diferença de natureza entre os dois tipos de governo e os dois partidos, exposta com clareza na passagem de faixa pacífica e despreocupada que FHC realizou para Lula. O grande poder que esse tipo de esquema conferiu ao PT não se passaria em um governo sem consequências visíveis. Longe de ser apenas uma sistematização da cafajestagem, ele era impulsionado pela obsessão ideológica e ambiciosa de perpetuação no poder e substituição de todo o tecido social pelo partido – o que não se consegue disfarçar por oito anos.
Respeitamos os legados de Responsabilidade Fiscal e estabilização dos governos do PSDB, a despeito de seu DNA uspiano e esquerdista; porém, longe estamos de ser tucanos, e longe estamos de enxergar santidade nos próceres sociais democratas, responsáveis também eles, em boa medida, pelo que nos aconteceu, sobretudo em função da oposição frouxa e omissa. Conseguindo atingir esse passado, a Lava Jato deve – e irá – fazer o que lhe cabe, dentro das suas possibilidades, posto que não é sua missão passar a limpo a História brasileira e processar até Pedro Álvares Cabral, como gostariam os lunáticos da esquerda radical. Só assim eles se dariam por satisfeitos e cessariam de enxergar parcialidade, só porque seus ídolos estão sendo desmontados.

