Não faço segredo de minhas diferenças em relação a muitos textos e pensamentos do articulista e escritor liberal Leandro Narloch, a despeito de, por óbvio, também termos afinidades. Lamento ter de voltar a criticá-lo, mas o ponto em questão é uma pauta que me é muito cara: o distanciamento suicida de liberais e conservadores da cultura popular brasileira.
Em sua coluna na Folha de São Paulo, ainda repercutindo o Carnaval, sob o título Tatuapé enlouqueceu ao dizer que Zimbábue é “terra abençoada”, Narloch criticou o enredo da Acadêmicos do Tatuapé, campeã da disputa entre as escolas de samba paulistas em 2017. O texto de Narloch pontua que a escola está errada em ostentar em seu samba que o Zimbábue é uma “terra abençoada”, com “alegria, tolerância e paz”, quando se trata, na verdade, de uma ditadura socialista governada há 36 anos por Robert Mugabe, que considera gays repugnantes, persegue opositores e frauda eleições.
A crítica de Narloch é JUSTA. Ainda que eu concorde em que uma escola de samba pode cantar as tradições ou a história cultural de um determinado país, os fatos concretos do presente não podem ser falseados sem abrir portas à crítica. O Zimbábue atual nada tem a ensinar sobre tolerância, respeito e quejandos. Porém, e este é o meu ponto, o colunista vai além. Deixo que ele fale: “Eu sei, não dá para levar sambas-enredo a sério. A expressão ‘samba do crioulo doido’ define há muito tempo a mistureba sem sentido das músicas dos desfiles. (…) não consigo deixar de me impressionar com a obsessão dos carnavalescos com a África. Eles passam o ano todo assistindo série americana na TV. Quando podem viajar para fora do Brasil nas férias, correm para Nova York e para a torre Eiffel. Mal sabem apontar o Zimbábue no mapa. Mas, na hora de criar o samba-enredo, só dá ‘mãe África’.”
Vamos lá. Em primeiro lugar, se ainda “não dá para levar sambas-enredo a sério”, acho bom começar a tentar. Não só sambas-enredo, como marchinhas, blocos, folia de Reis, festa junina, frevo, todas as manifestações musicais e culturais populares país afora. Está na hora de liberais e conservadores – particularmente aqueles que se identificam com este último pensamento, cuja vocação deveria ser a de conversar com a pátria, com o povo ao qual se dirigem – valorizarem esses espaços culturais, ou a esquerda seguirá ditando as pautas e instrumentalizando essas esferas a seu favor. Não podemos agir tão-somente como deserdados que têm asco das coisas da sua gente, alimentando delírios anglófilos vitorianos. Isso nos pouparia de ler certas bobagens, inclusive, porque nossos articulistas liberais ou “de direita” entenderiam um pouco melhor do que estão falando antes de meramente espezinhar e afastar um público importante.
Nessa linha, cabe informar ao articulista que o carnavalesco de uma escola de samba concebe a sinopse do enredo, mas o “samba-enredo”, isto é, a música a ser entoada durante o desfile e que entra para o histórico daquela agremiação, é obra de compositores – quer tenham vencido em um concurso, quer o samba tenha sido encomendado, sempre com base no texto da sinopse. Ou seja, não é o carnavalesco que cria o samba-enredo.
Em segundo lugar, a reivindicação de Narloch já foi atendida. Londres / Inglaterra (União da Ilha, 2012), França (Grande Rio, 2009) Alemanha (Unidos da Tijuca, 2013) e até Coreia do Sul (Inocentes de Belford Roxo, 2013), para ficar em alguns exemplos, já foram enredo aqui no Rio, na Marquês de Sapucaí. Só este ano, a São Clemente fez um enredo abordando a corte de Luis XIV. Ou seja, não existe toda essa exclusividade africana que se poderia imaginar. No entanto, e é isso que talvez incomode Narloch, os temas africanos são majoritários, em se tratando de referências culturais em escolas de samba.
Seria isso necessariamente um problema? Alguns articulistas liberais ou de direita inconvenientemente confundem a instrumentalização de certas manifestações e meios pela esquerda com as próprias manifestações ou meios em si, condenando-se então a não conquistar simpatizantes ou adesões nesses setores. Ora, é evidente que a África é usada como um recurso retórico para ativistas do movimento negro e movimentos de minorias; estaria, porém, condenada toda e qualquer referência a tradições africanas? A cultura brasileira é produto de uma forte mistura, em que entram os elementos europeus, os elementos indígenas e, por que não, os elementos africanos. Se nossas maiores conquistas como civilização não vêm da África, como acertadamente deve apontar a direita, não deduzamos daí que o que ela nos ofereceu é nulo em nossa identidade.
As referências africanas predominam porque, vejamos que coisa óbvia, muito da musicalidade do próprio samba e da própria organização e terminologia das escolas de samba advém de raízes culturais africanas. Haverá algum incômodo em ver germanismo demais na Oktoberfest, por exemplo? Ou em ver “niponismo” excessivo no Bairro da Liberdade? Francamente, nossa demanda por liberais e conservadores que voltem os olhos de forma mais sensata para o Brasil é de uma urgência desesperadora.

