Em tempo: reconheço os dilemas do multiculturalismo, admito que a cultura islâmica oferece desafios à integração majoritária com o mundo ocidental, admito que o terrorismo com que nos defrontamos é sobretudo um “terrorismo islâmico” e é preciso dar nome aos bois. Admito que o problema é muito complexo e que jargões politicamente corretos não servirão para lidar com ele. Essa posição creio já ter deixado previamente clara.
Dito isso, há meios e meios de se lidar com um problema real, e o melhor deles nunca passará pelo abandono dos valores e práticas que nos tornam superiores ao alvo que combatemos. Passeando pela programação televisiva, deparei-me, na Globo News – sim, em meu tempo livre, tenho tendências masoquistas -, no programa Em Pauta, com os jornalistas comentando uma cena inusitada ocorrida na França. Uma mulher muçulmana na praia estava sendo abordada por policiais. O motivo? Ela usava um “burquíni”. É a primeira vez em que ouço falar nesse treco. O burquíni é um traje islâmico adaptado para banho, que deixa o rosto da mulher exposto. Notícias dão conta de que não foi o primeiro caso, e outras muçulmanas já foram multadas por estar usando o burquíni, cujo uso foi proibido em várias cidades francesas.
Os motivos? Aparentemente, o primeiro-ministro e os prefeitos dessas cidades, diante dos tenebrosos atentados terroristas ocorridos no país, acreditam que a exibição do traje, embora seja muito incomum, pode sensibilizar os ânimos nacionais. O uso do burquíni não seria “compatível com os valores da França”. O prefeito de Cannes disse que a roupa não respeita “os bons costumes e o secularismo” e que roupas que “manifestem afiliação religiosa de forma ostensiva, num momento em que a França e seus locais religiosos são alvo de ataques terroristas, poderiam colocar a ordem pública em risco”. Ele ainda acrescentou que banhistas indianas usando os sáris também podem ser atingidas pela medida, porque a vestimenta poderia atrapalhar os salva-vidas em casos de emergência. Há quem alegue até razões de “higiene”, e há quem sustente a medida como um gesto necessário no combate à opressão islâmica sobre as mulheres.
Arrisco-me a receber as pedradas de uma certa ala da direita nacional, caso ela encontre este texto, mas acho tudo isso uma besteira inominável, além de uma renúncia perigosa aos valores ocidentais. Quando uma doutrina ou um sistema de pensamento nos é considerado, por alguma razão, nocivo ou assustador, procuramos cercear manifestações exteriores, já que não há como invadir a cabeça dos seus adeptos; essa estratégia parece ter soado interessante aos líderes franceses que, mergulhados na incompetência, submersos na estupidez socialista que castrou a virilidade da sua cultura e desesperados com um ataque terrorista atrás do outro, decidiram invadir as prerrogativas individuais com uma medida populista que passa longe de resolver o problema.
Edmund Burke, ícone consolidador do conservadorismo britânico, dizia que “a base da liberdade política é um governo limitado que presta contas aos contribuintes, não um governo ativista que visa libertar cidadãos dos preconceitos e das disposições”. Podemos e devemos discutir o problema da interação de civilizações, podemos pensar o que quisermos acerca da questão islâmica e devemos tratar do assunto cautelosamente e com coragem de assumir os nossos valores e de não admitir negociá-los. Mas não negociá-los passa por não permitir que o nosso próprio Estado – não em nome de uma religião, não em nome da teocracia islâmica, como eles fazem nos países islâmicos radicais, mas em nome da própria santificação do Estado em si, em um autêntico culto secular – avance sobre a esfera individual e queira determinar regras de comportamento e vestuário de maneira tão invasiva.
Uma coisa é andarmos nus na rua; isso sim vai contra as normas de sociedade já estabelecidas culturalmente. Porém, colocar este ou aquele apetrecho, trajar-se desta ou daquela forma? Prender ou multar uma mulher porque ela está coberta demais no seu local de lazer? Desculpem, este não é o caminho. Uma medida como essa é fruto do desespero de uma sociedade que fracassou e cujas lideranças não sabem mais o que fazer para contornar as próprias vergonhas. Se a mulher é “oprimida” ou não, não se vai salvá-la dessa opressão ou resolver o seu problema “oprimindo-a” em seu descanso ou diversão, afrontando a maneira como ela se veste. Não se pode estar falando sério quando se diz que o burquíni é uma ameaça à ordem pública.
Apesar de tudo isso, os jornalistas da Globo News podem conseguir ser mais ridículos que a medida em si. Jorge Pontual – sempre ele – comentou, diante da foto, que “depois perguntam por que há tanto atentado na França”. Não, Pontual. Não faça esse tipo de associação. Tal destrambelho, conquanto invasivo e perigoso, veio depois. Centenas de cristãos são mortos todos os dias em países extremistas e não há atentados terroristas “em resposta”. Nada justifica as mortes de inocentes, nada justifica o ódio contra a sociedade em que esses imigrantes se instalaram, ao mesmo tempo em que muitos deles vociferam contra os valores da civilização que os recebeu.
Ah, civilização ocidental… Nessa história toda, é ela a grande perdedora, desde o início. Atacada pelos muçulmanos extremistas – e pelos “falsos moderados” também. Atacada pelos franceses e pelo seu próprio Estado. No ringue da insensatez, é ela quem leva toda a surra.


1 comentário
Realmente, não é com a proibição que o ocidente irá vencer a guerra. Hollande e sua trupe socialista são tão bananas que apelam para a medida mais estapafúrdias.