O historiador Bruno de Cerqueira – fundador e gestor do Instituto Cultural D. Isabel I, destinado a preservar o legado cultural e político do abolicionismo brasileiro – resolveu escrever um artigo [1] sobre o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL – RJ), após a apuração das urnas das eleições municipais no Rio de Janeiro, em que Freixo, com 18,27% dos votos, foi para o segundo turno com o senador Marcelo Crivella (PRB – RJ), que obteve 27,78%.
Bruno de Cerqueira é figura de prestígio no movimento monárquico brasileiro. Convém lembrar seu substancioso ensaio à reedição do clássico livro O Imperador no Exílio, do Conde de Afonso Celso, reeditado exemplarmente pela Linotipo Digital, em 2013. Na condição de representante do Círculo Monárquico Brasileiro no Maranhão e membro do Núcleo Monárquico João Lisboa, tive a oportunidade de convidá-lo para ministrar uma conferência [2] virtual sobre a Abolição da Escravatura, quando do aniversário da data este ano, ocasião em que tivemos a chance de ter contato com o brilho de sua inteligência.
O motivo da redação do artigo, como o próprio Bruno ressalta, é para evitar equívocos acerca de julgamentos sobre o candidato Marcelo Freixo, apontado pela direita como comunista, favorável ao aborto, à ideologia de gênero, ao estatismo etc.
O artigo é, antes de tudo, de caráter evocativo, sendo, simultaneamente, difícil e facílimo impugná-lo. Realçando-lhe os numerosos pontos equivocados, pode-se incorrer em imprecisão; o autor fez questão de esclarecer que “o texto será recheado do que os franceses chamam de petite histoire”. Tratando-o como simples memória, incorre-se inevitavelmente em espírito acrítico. Convém, em primeiro lugar, como que perscrutar a mentalidade do meu amigo Bruno de Cerqueira, cujo labor acompanho não é de hoje.
Bruno de Cerqueira, além de monarquista – não obstante a sua distância do Príncipe Dom Luiz, Chefe da Casa Imperial do Brasil – é, oficialmente, um católico. Estudou, durante toda a infância e adolescência, no colégio do Instituto São José, pertencente à Congregação das Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora, em Santa Rosa (Niterói), ao qual, segundo ele, muito deve a sua formação como cidadão. A Congregação das Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora, em Niterói, é estabelecimento de ensino católico notoriamente aparelhado por elementos ligados à Teologia da Libertação, já há muito, como se sabe, condenada [3] pela Santa Sé pelo seu claro viés marxista. A TL, muito pouco se comenta, é um dos tantos frutos daninhos produzidos pelo modernismo – ou progressismo –, condenado infalivelmente por São Pio X, no início do século passado, em especial na famosa e pouco lida encíclica Pascendi. [4] Estaria aí a chave de interpretação do posicionamento político do católico e monarquista Bruno de Cerqueira? Parece-me que sim.
Nada melhor que a apresentação do objeto. Vamos ver o que pensa o nosso amigo Bruno. É assim que ele apresenta o candidato Marcelo Freixo:
Freixo é um niteroiense do Fonseca, bairro outrora bem mais nobre do que hoje em dia é, mas que na infância de Marcelo já era de classe média baixa. Ele é uma liderança inconteste do Rio atual. Esse “Rio”, aqui, engloba toda a região metropolitana da antiga capital federal e corte imperial, sobretudo Niterói, que continua sendo a “segunda capital” do Estado. Marcelo é um líder identificado com os movimentos de defesa dos direitos humanos. O filme Tropa de Elite 2 (2010) deu-lhe uma visibilidade nacional e internacional, eis que o personagem “Fraga” é uma homenagem a sua história de lutas pelos direitos dos presidiários brasileiros.
Bruno de Cerqueira parece ignorar o abuso cometido pelas tantas ONGs que, a pretexto de lutarem “pelos direitos dos presidiários”, tanto contribuem para um clima de instabilidade no que toca à segurança pública, em especial em cidades como o Rio de Janeiro.
Vejamos como ele enxerga Marcelo Freixo do ponto de vista ideológico (prefiro falar em termos de doutrina, mas, em se tratando de marxistas, “ideologia” é o melhor termo a ser empregado):
Acusa-se Marcelo Freixo de ser comunista e totalitarista. Improcedente. Ele é democrata. Sua adolescência já passou há muito tempo. Ele tem, hoje, 49 anos de idade. Se remanesce socialismo em seu coração rubro-negro isto em nada lhe retira a dignidade plena de cidadão honrado e engajado, que quer o melhor para o Rio de Janeiro.
Bruno de Cerqueira procura, sem maior argumentação, fazer ver que as ideias marxistas de Freixo ficaram na juventude, sendo ele, hoje, conquanto de esquerda, antes de tudo democrata, razão por que deve ter a sua dignidade de cidadão plenamente respeitada.
Acontece que o candidato Marcelo Freixo esposa todas as ideias da esquerda marxista e revolucionária de hoje e, mesmo, de ontem, a saber: no plano moral, a descriminalização do aborto e da maconha e a legalização do “casamento” gay; no plano político, a remodelação do regime democrático num sentido “popular”, eufemismo que designa um reformismo de cunho bolivariano; no plano econômico, de acordo com o programa de seu partido, o PSOL, “rechaçar a conciliação de classes”, indo de encontro ao próprio espírito conciliador do povo brasileiro; por fim, no plano administrativo, como corolário de sua cosmovisão marxista, o inchaço da máquina estatal, responsável, em última instância, pelos maiores escândalos de corrupção já registrados na história humana, como o Mensalão e o Petrolão. É indispensável que se leia com atenção o programa do PSOL para uma avaliação em bloco da personalidade e ideias do “democrata” Marcelo Freixo. [5]
Um dos trechos mais escandalosamente mentirosos do artigo de Bruno de Cerqueira – e, por isso mesmo, mais passíveis de refutação – é o seguinte:
Há dezenas de “socialismos” no mundo das ideias. Há, inclusive, um, que pode ser tido por cristão; que não é pró-comunista, mas é pró-comunitarista radical. Aos preconceituosos, recomendo estudarem com afinco a Doutrina Social da Igreja Católica (DSI). Muito provavelmente se chocarão e poderão percebê-la eventualmente mais “socialista” do que o programa partidário do PSOL, o que não é. O catolicismo apregoa uma reforma de si e da comunidade (a local, a regional, a nacional e a mundial, dado o universalismo) bem absolutizantes, vez que não defende a partilha dos bens da terra e o chamado “cuidado da Casa Comum” apenas como conditio sine qua nom da vida terrena, mas como condicionante da entrada no céu. Projeta na transcendência os compromissos que advêm da filiação divina universal. É algo bem mais hard e punk do que uma filosofia que tem por base o materialismo e o imanentismo. A DSI não é só um convite à conversão diária, ela é um imperativo categórico da vida comunitária dos cristãos, ela é a doutrina do Cristo posta em prática, indicando que a salvação está na ortopraxia, que necessariamente implicará em ortodoxia.
Aqui o nosso talentoso monarquista comete um erro crucial para o real entendimento da Doutrina Social da Igreja – que é menos um programa partidário que um conjunto de princípios a partir dos quais se constrói uma conduta política –: pela sua índole social e trabalhista, seria a DSI uma espécie de socialismo, ou seria ela compatível com alguns tipos de socialismo, mesmo o marxista, ou então conteria ela elementos inequivocamente socialistas. Nada mais falso. Esse erro, verificado sobretudo após o Concílio Vaticano II, com seus apelos modernizantes (a meu ver, exagerados), é, não por acaso, maciçamente difundido pela TL.
A DSI não é um socialismo, não é compatível com qualquer vertente socialista e nem tampouco contém elementos socialistas por um motivo muito simples, intuído pelo próprio Bruno: o socialismo – seja o marxista, o anarquista, o nacional-socialista (vulgo nazismo) ou o chamado moderado, com o qual até se pode conviver democraticamente – possui uma base materialista e imanentista, o que o torna, de per si, contrário aos fins últimos da Doutrina Social da Igreja, que, contemplando o homem a partir de uma visão espiritualista, enxerga na comunidade política e nas relações sociais e econômicas tão somente uma ferramenta para a vocação sobrenatural do homem. Basta esse modesto exercício de distingo escolástico para fazer cair a argumentação meramente retórica de Bruno de Cerqueira e dos adeptos da Teologia da Libertação. [6]
Já nem seria preciso responder a afirmações vazias como:
Marcelo Freixo tem, por seu turno, tudo para encarnar o alvo do discurso falacioso dos direitistas radicais, que o descrevem como “defensor de bandidos”, “apoiador de black-blocks”, “abortista” e outras pejorações.
Expressões como “direitistas radicais” já não impressionam como antes. Quem seriam eles? Um ou outro saudosista do regime militar? Ou um conservador para quem os princípios que esposa são “valores inegociáveis”, no dizer de Bento XVI? Muito modestamente, estou entre estes.
Com vistas à defesa do PT, de origem ainda mais podre que o Petrolão, em cujos quadros se encontrava a fina flor dos terroristas das décadas de 60 e 70, Bruno de Cerqueira tem a dizer o seguinte, a pretexto da vitória de João Dória nas eleições municipais de São Paulo:
Na Cidade de São Paulo a vitória acachapante contra o petismo indicou que o povo pode até não ser douto em matéria de Ciência Política, mas não é idiota nem apático. Para quem traiu a própria história biográfica e traiu os ideais de tantos militantes do passado, as urnas deram um sonoro não. Aos que sequestraram os sonhos de toda uma geração, dos paulistanos que foram votar em 02.10.2016 a maioria indicou o caminho da porta. Evidentemente serve de lição.
Aqui, infelizmente, a exaltação do patriotismo dos brasileiros vem a propósito de se resguardar a honra de um partido tão internacionalista e antidemocrático quanto o PSOL e as outras agremiações marxistas.
No mais, o artigo de Bruno de Cerqueira, elegante na forma e falso no conteúdo, esbanja generalidades – “Que no Rio de Janeiro o cultivo de valores democráticos possa fazer um segundo turno mais bonito, com os dois Marcelos disputando sem vilipêndios, calúnias e difamações (…)”, por exemplo – e perde o interesse.
A tese do ilustre monarquista é defender o espírito democrático de Marcelo Freixo. A minha é defender justamente o espírito antidemocrático de Freixo, comprometido com um ideário totalitário e absorvente das legítimas liberdades humanas – responsável pelo assassinato de mais de 150 milhões de pessoas ao longo do século XX –, em tudo contrário ao regime democrático e à índole do povo brasileiro, de sua história e tradições. Os documentos e fontes estão aí. Que o leitor saiba julgar de acordo com a verdade dos fatos, contra os quais, já dizia um certo Doutor da Igreja, não há argumentos.
[1] O artigo pode ser lido aqui: https://idisabel.wordpress.com/2016/10/04/artigo-marcelo-freixo-o-neoabolicionismo-e-o-preconceito-politico
[2] Link da conferência: https://www.youtube.com/watch?v=jAdJpFAb36s
[3] Segue o link de um documento brilhante (embora insuficiente), escrito em 1984 pelo então cardeal Joseph Ratzinger, contendo a condenação formal da Igreja à Teologia da Libertação: www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19840806_theology-liberation_po.html
[4] Pascendi Dominici Gregis, de 1907, pode ser lida aqui: https://w2.vatican.va/content/pius-x/pt/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis.html
[5] Segue o link do programa do PSOL: www.psol50.org.br/partido/programa
[6] Faz-se necessária a leitura conscienciosa das grandes encíclicas sociais, sobretudo a Rerum Novarum (1891), de Leão XIII; a Quadragesimo Anno (1931), de Pio XI, e, a meu ver, a Centesimus Annus (1991), de S. João Paulo II, bem como o Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Todos esses documentos podem ser facilmente encontrados no site da Santa Sé.

