O problema de amplos segmentos da imprensa e da classe artística com o pensamento “de direita” é notório, não apenas no Brasil, mas também por outras praças. Os Estados Unidos, enxergados pelos nossos submarxistas crônicos como o coração diabólico do capitalismo selvagem, não deixam de padecer dessa cruz. As eleições presidenciais em curso colocam os conservadores e libertários do Partido Republicano diretamente em rota de colisão com as calúnias e manipulações das principais emissoras, o que já motivou ásperas respostas de candidatos como o conservador Ted Cruz – que nossa imprensa gosta de chamar de “ultraconservador” -, o relativamente tranquilo Marco Rubio – já fora da disputa – e o polêmico Donald Trump. Alguns atores e atrizes já se manifestaram contra este último e moveram uma campanha pela inclusão de um maior número de negros entre as indicações e premiações do Oscar (!!?), como se devêssemos estabelecer cotas para honrarias.
Assistindo despretensiosamente a uma comédia romântica de 1995, me percebi diante de um exemplar perfeito de manifestação desse esquerdismo, quase onipresente no meio, no tipo de discurso que serviu de pano de fundo para a obra. Estamos acostumados a admirar os talentos e sucessos do cinema hollywoodiano, possíveis graças ao bom e velho capitalismo que seus realizadores, muitas vezes, preferem alvejar – vitimados, talvez, por uma culpa irracional pelo próprio sucesso. Pois em Meu Querido Presidente (The American President, no original), do diretor Rob Reiner, esse asco para com os “esquisitos” conservadores é de uma nitidez especial – afinal, o romance e o humor se passam nos bastidores de uma autêntica disputa política. O “mocinho” Andrew Shepherd (Michael Douglas, elegantíssimo) é o presidente dos Estados Unidos e também o protagonista da trama. Adivinhe a qual partido ele pertence?
Acertou se respondeu que é um autêntico representante do Partido Democrata. Os organizadores do filme ainda não previam um presidente negro como Barack Obama, que ganhou força muito em função de se sustentar no ativismo negro americano – segundo o qual era preciso, de qualquer jeito, colocar um negro na Casa Branca, mesmo que os demais candidatos fossem muito mais interessantes. Ainda assim, o seu Shepherd ecoava, ao menos, o “progressismo político” piegas do então já ex-presidente Jimmy Carter, que governou entre 1977 e 1981. Logo ao começo do filme, ele é apresentado como um viúvo que concorreria em breve à reeleição, e discutia com seus assessores quais seriam as melhores estratégias para soar mais pragmático e manter intacta a sua elevada popularidade. Um de seus assistentes, interpretado por Michael J. Fox (de De Volta para o Futuro), se esforça por chamá-lo de volta ao idealismo que esposava mais abertamente no passado, mas Shepherd hesita, de olho no eleitorado médio.
Então, na mira do senador e concorrente, interpretado por Richard Dreyfuss – um ambicioso rasteiro, disposto a todo tipo de golpe baixo para vencer e, é claro, candidato do Partido Republicano e dos valores tradicionais -, Shepherd se apaixona por uma lobista da causa ambiental (Annette Bening), que já foi militante socialista na juventude – que previsível! O envolvimento, incentivado por sua filha, se torna logo alvo de todo tipo de comentário e as fofocas começam a prejudicar a campanha, o que levanta um debate até interessante acerca das confusões entre a vida pessoal e a vida política no imaginário do eleitorado. Os personagens são bastante simpáticos, e a trama se desenrola como a típica comédia romântica em que o homem e a mulher se decepcionam um com o outro, enfrentam as devidas peripécias e, ao final, se reconciliam, com Shepherd demonstrando enfaticamente sua afinidade de valores com a personagem de Annette e assumindo, em discurso inflamado, os princípios idealistas que o personagem de Fox tentava convencê-lo a endossar com mais franqueza na disputa.
Tudo muito bonitinho, romântico e com qualidade suficiente para um entretenimento despreocupado do público; mas que “princípios idealistas” são esses que Shepherd banca em sua oratória comovente? Os mesmos da esquerda americana, é óbvio. A principal medida que anuncia, sob entusiasmados aplausos, é o aumento de restrições ao comércio de armas, visto como fundamental no interesse da segurança pública. O gesto de heroísmo e integridade idealizado no filme é justamente aquele que vai ao encontro do pensamento paternalista do Partido Democrata, pensamento esse que o puxou para uma direção cada vez mais avermelhada com o passar do tempo, a ponto de alçar um radical pusilânime – uma combinação curiosa, mas cada vez mais possível nesse mundo em que o relativismo pacifista pueril atingiu proporções assustadoras, dignas do extremismo mais fanático – ao posto máximo do poder, como fez com Barack Obama.
A libertação de Shepherd do caminho do erro se daria pela sua submissão a um padrão de mundo cor-de-rosa e paz-e-amor, da “breguice hipponga” da contracultura e da ingenuidade sonhadora dos reformistas sociais, enojados com aquela gente estranha que consegue estar preocupada em ganhar dinheiro e sustentar sua família, mantendo suas crianças o mais seguras possível das influências perniciosas de aventureiros militantes travestidos de “professores” nos colégios. Como essas pessoas podem querer apenas essas banalidades reacionárias se, afinal, precisamos com urgência lutar por causas nobres como desarmar a população, proteger os pobres coitados dos bandidos e atender os anseios das feministas de sovacos cabeludos e dos usuários de maconha? Político sensato e merecedor do voto americano, de verdade, é aquele que contempla essa estética ridícula de bom mocismo.
Não faço com isso nenhuma campanha contra o filme, já antigo e que apreciei como representante de seu gênero; apenas quero chamar a atenção para um fenômeno incômodo que nossos oponentes negam, mas cuja veracidade está aí, a olhos vistos. Acredito que subestimamos esses sinais tímidos, pipocando em filmes despretensiosos e até agradáveis; o poder que eles tinham está hoje atestado, quando temos que conviver com um horizonte cultural desvitalizado, um Ocidente carcomido e frágil, abrindo-se em covardia a todo tipo de solução extremista para os seus problemas por não acreditar mais em si mesmo. Shepherd é um personagem atraente, sedutor, refinado, esbanja imponência, é Michael Douglas ainda sendo galã; mas sua consagração no filme se dá por ele assumir, “bravamente”, sua preferência pela covardia e por roubar dos cidadãos de seu país o seu direito de defesa. Podemos sorrir por ele e apreciar sua história; mas, na vida real, por favor, se um Shepherd aparecer vendendo delírios e pedindo seu voto, fuja dele.

