Por esses dias, “esbarrei” com um comentário no Facebook de alguém que dizia ser problemática a atenção desmedida que as “mentes pensantes” brasileiras destinam aos grandes circuitos internacionais, ao Brexit, às eleições americanas, à civilização ocidental ou à União Europeia, e a consideração “de menos” com que olham para os dramas do atraso interno e das vastas porções de terra no Brasil que permanecem à margem do Estado de Direito.
Não estou muito de acordo com essa visão; acho que tudo está interligado. Muitos dos problemas que sofremos, muito da condescendência com que – por exemplo – tratamos nossa criminalidade, provém de teorias e articulações políticas e intelectuais oriundas do resto do mundo. Nossa economia, nossa cultura e boa parte do que nos acontece depende do que está sendo gestado, ou já o foi, fora daqui. Precisamos abranger o conjunto. Ainda assim, seria igualmente um excesso deslocar as responsabilidades por nossas misérias para Portugal, EUA ou Europa em geral; nossas escolhas são sua raiz fundamental. E agora, ocorrerá o contrário: por ocasião dos Jogos Olímpicos – que podem até ser uma boa festa, mas ocorrem na hora errada, no momento errado, pairando sobre uma crise brutal e exibidos como uma fantasia populista -, é o mundo inteiro quem nos verá, particularmente o que temos de ruim.
Hoje de manhã, o Extra publicou que “os agentes da Força Nacional que participarão do esquema de segurança da Olimpíada – um aparato que prevê o combate a ações criminosas e até a terroristas – estão tendo de se submeter às ordens da milícia na Zona Oeste do Rio”. Denúncias ao jornal dão conta de que “os 3.500 PMs, policiais civis e bombeiros de vários estados do Brasil não podem circular armados pela Gardênia Azul e foram impedidos até de instalar Internet nos apartamentos onde estão alojados, no condomínio Vila Carioca, do ‘Minha casa, minha vida’, no bairro do Anil”.
Os denunciantes dessa situação patética seriam os próprios policiais que disseram ter “recebido as orientações sobre as restrições impostas pela milícia de seus coordenadores (…) dentro do próprio conjunto habitacional, assim que os grupos chegaram ao Vila Carioca”. Para piorar, “o atraso no pagamento de diárias, as escalas de trabalho, as más condições de alojamento levaram agentes a fazerem, nesta terça-feira, um panelaço dentro do condomínio”. O Ministério da Justiça informou que vai apurar essas informações.
De fato, o que dramas como esse, associados à extrema insegurança, aos tiroteios, aos assaltos, à criminalidade poderosa e cada vez mais abusada com que convivemos no Brasil e, particularmente, na nossa outrora “Cidade Maravilhosa”, revelam de maneira explícita é que, se somos daqueles que observam com atenção os problemas do esquerdismo, do bolivarianismo, do nacionalismo, do globalismo, do eurasianismo, do Islamismo político e tantos outros “ismos” que agitam o mundo, estamos cientes de que, aqui ao nosso lado, existem porções de terra que estão submetidas a um poder paralelo que não é movido por qualquer componente ideológico particular, e sim tão-somente pela ausência do império da lei. São favelas, comunidades, núcleos inteiros em que o Estado de Direito não tem vez; em que os “agentes da lei” estão sendo obrigados a se curvar a códices que não são os da Justiça e da Constituição.
No entanto, e aí está o ponto, a questão ideológica e político-partidária perpassa a solução para combater esses impérios da sombra e da ilegalidade. Há uma batalha de teses em jogo: a dos “direitos humanos” pervertidos em proteção carinhosa de bandidos, dos que desprezam as vítimas, dos que realçam a todo tempo questões periféricas em vez de querer atingir o alvo, e dos que sustentam a importância da polícia, do combate criterioso e implacável, do direito ao porte de armas pela população.
Enquanto o lado errado dessa disputa prevalecer, as “terras sem lei” só terão a ganhar; terão sempre protetores mal disfarçados com que contar nas tribunas parlamentares, nos “movimentos sociais” e nos partidos. Elas são um grande inimigo no Brasil e é preciso se preocupar com elas; mas elas não serão atingidas sem que as muralhas do politicamente correto também sejam removidas.

