Foram dez horas de sessão na Comissão Especial da Câmara dos Deputados que se destinava a formular um parecer, sob a batuta do relator Jovair Arantes (PTB-GO), a respeito do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, assinado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal, e referendado pelos movimentos de rua. Nova rodada de discursos, interrupções e baixarias de fazer corar.
Ao fim das contas, porém, no telão, os nomes em amarelo (a favor do relatório) triunfaram sobre os nomes em vermelho, contrários – cores, aliás, bastante adequadas. O amarelo está presente no pavilhão nacional, e o vermelho é a cor representativa das esquerdas e do Partido dos Trabalhadores. De fato, os que perfilam em favor da queda do governo criminoso e imoral estão a favor do Brasil; os demais, a favor de suas boquinhas nas negociações escusas conduzidas pelo ex-presidente Lula (e sumariamente ignoradas ou minimizadas pela grande imprensa, como se nada de grave representassem). O resultado, 38 x 27, é humilhante para o governo, e encaminha muito positivamente o processo para a votação definitiva em Plenário, provavelmente a ser realizada no próximo final de semana.
Alguns destaques da votação e do processo como um todo até agora:

Créditos: Goiás 24 horas
O relator Jovair Arantes foi seguidas vezes atacado, agredido, ofendido, insultado, tratado como um golpista farsante ou uma marionete de Eduardo Cunha. O que importa é que seu relatório é primoroso e merecia a consagração que recebeu. Ciente disso, ele fez questão de lê-lo até o fim, mesmo enrouquecendo. Justíssimo que ele o tenha visto aprovado, e foi impagável ver o desdém com que tratava as críticas.

Créditos: Reprodução/PSD
O presidente da comissão, Rogério Rosso, foi elogiado pela forma como conduziu os trabalhos da comissão. Particularmente, achamos que em alguns momentos faltou fibra e domínio da situação. Algumas decisões, como a de permitir a presença do advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, sustentando a defesa de Dilma, se justificam pelo interesse de evitar mais “judicialização” do processo. No fim das contas, como se viu, elas não comprometeram o desfecho.

Créditos: O Cafezinho
O advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, manteve rigorosamente sua postura de tentar repetir todos os argumentos políticos do PT com elegância e cinismo, em uma posição que não deveria ocupar, insistindo na tese de que repetir centenas de vezes que está ocorrendo um golpe tornará isso verdade. Assim como alguns parlamentares governistas, também insistiu na estupidez de considerar tudo uma vingança de Eduardo Cunha. Risível.

Créditos: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados
O deputado Chico Alencar, do PSOL, encheu a boca para dizer que seu partido quer o impeachment “da hipocrisia”, e não da Dilma. Ele deveria começar por si mesmo e pelo próprio PSOL, a “oposição” que faz tudo que o governo quer.

Créditos: Agência Patrícia Galvão
A deputada Jandira Feghali, do PCdoB, voltou a acusar toda a oposição de ser “fascista” – com exceção de PSOL e Rede, que são oposicionistas apenas na cabeça dela -, e disse que as manifestações de milhões de brasileiros contra o governo eram manifestações de “brancos”. Uma comunista racista que se porta como baluarte da democracia; novamente, risível.
Partidos cujos parlamentares votaram a favor do impeachment: PSDB, PV, PRB, PSB, PTB, DEM, SD, PSC, PROS, PPS, PHS, PMB. Partidos cujos parlamentares votaram contra o impeachment: PDT, PT, PR, PCdoB, Rede, PT do B, PR, PEN, PTN. Partidos cujos parlamentares se dividiram: PMDB, PSD, PP.
O deputado tucano, Carlos Sampaio, se portou com extrema firmeza tanto quando teve que tomar a palavra para opinar, quanto quando precisou substituir o presidente da comissão. Ele seria nosso destaque positivo pessoal nessa comissão. Outros deputados fizeram discursos muito bons, como Marcos Feliciano (PSC), que fez referência a todo o contexto geral da ameaça que enfrentamos na América Latina e situou o PT em seu devido lugar (com o senão de um elogio um tanto exagerado a Fernando Henrique Cardoso); a também tucana Marcela Carvalho, que apelou à sensibilidade dos brasileiros; e o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), merecidamente ressalvado pelo colunista de Veja, Felipe Moura Brasil, que pediu desculpas em nome da oposição por ela não ter se esforçado para punir Lula à época do mensalão, o que impediria que chegássemos a este ponto dramático de nossa história.
E agora que venha o Plenário! Para além da votação do parecer, reunimos alguns fatos importantes que se deram nos últimos dois dias:
Ary Fontoura espinafrando Dilma no Faustão: A atitude corajosa do consagrado ator Ary Fontoura é digna de nota. Contrariando uma considerável maioria da classe artística que se acostumou às benesses do Estado e se tornou cúmplice do regime lulopetista, Ary, com mais de 80 anos, se disse feliz com o interesse dos brasileiros pela política e fez questão de lembrar que estamos na semana mais importante de nossa história recente em razão do desfecho do processo de impeachment na Câmara. Disse que a presidente Dilma se equivoca ao falar que o impeachment seria um golpe, pois golpe, de fato, foi a mentira que martelou para seus eleitores em campanha. Merece os parabéns; sua declaração veio em excelente hora e nas condições ideais para atingir a média do povo.
Áudio de Michel Temer vazado: Supostamente por acidente, “vazou” um áudio do vice-presidente Michel Temer em que ele estaria “ensaiando” um discurso a ser proferido em caso de vitória do impeachment na Câmara dos Deputados. O discurso, diga-se de passagem, está muito bem estruturado para quem estaria apenas fazendo um ensaio. Seja como for, é politicamente muito equilibrado; sinaliza para a necessidade de reformas que podem ser impopulares, ao mesmo tempo em que não avança na sugestão de cortar os “programas sociais”, o que jogaria mais lenha na fogueira no atual momento de impasse e tensões (embora especule que em algum momento esses programas podem deixar de ser necessários). Afaga os estados, envolvidos em dificuldades profundas e grandes dívidas, e enaltece a importância do setor produtivo. Defende um governo unido de salvação nacional e uma articulação para encerrar a fase de crise. Postos de lado os defeitos do PMDB e do próprio Temer, o discurso deixa transparecer que, como já imaginávamos, seu governo tende a ser bastante superior ao governo Dilma (o que, diga-se de passagem, não é exatamente difícil).
Manifestação pró-governo na Lapa: Uma manifestação na Lapa, no Rio de Janeiro, reuniu lideranças de esquerda, artistas, movimentos sociais e tudo o mais que já sabemos a favor do governo Dilma. Precisamos dizer mais alguma coisa? Melhor não.
A semana deverá passar rápido e, entre sexta e domingo, se confirmada a previsão de Eduardo Cunha, cada parlamentar brasileiro, apesar de em sua maioria absoluta não estarem à altura, terá um encontro inadiável com a História. E nós também.

